FORMAÇÃO DE PENSAMENTO CRÍTICO

O legado da juventude universitária católica contra o projeto de ditadura no Brasil

“Inspirados pela Teologia da Libertação, jovens da JUC romperam com a hierarquia tradicional da Igreja para se tornarem atores centrais na resistência à ditadura e na defesa de uma educação humanista frente ao projeto neoliberal dos militares

No ano de 2021 publiquei pela editora Dialética meu livro A Resistência da Juventude Universitária Católica ao projeto de Ditadura: um legado à democracia, tendo por base minha dissertação de Mestrado defendida um ano antes, rememorando a atuação e o legado de um dos movimentos estudantis e políticos mais intrigantes da história do nosso país. A metade do século XX foi marcante na América Latina pelas transformações sociais e políticas que ocorreram, pelo surgimento de movimentos sociais inspirados em ideais marxistas e revolucionárias, e por um apelo estrutural de mudança de paradigmas também no âmbito religioso.

A Teologia da Libertação, uma teologia de inspiração marxista, mas integralmente latina, fundada através dos escritos do padre dominicano Gustavo Gutiérrez, foi fundamental para moldar essa nova consciência política. Vale ressaltar que essa “neo” teologia redireciona sua hermenêutica do foco europeu para a realidade do povo latino-americano, suas demandas e particularidades, levando com consideração a situação de extrema pobreza e vulnerabilidade que muitos locais da América Latina viviam.

Podemos destacar a JUC como um importante movimento que une o contexto social brasileiro, entre os anos de 1950 e 1960, com o surgimento da Teologia da Libertação  e sua nova concepção da prática evangélica. Ao passo que a JUC rompe com o monopólio exercido pela Igreja Católica, permanece a influência cristã, agregando ideais comunistas e socialistas, na análise da conjuntura social. Sua luta pelos direitos humanos é claramente vinculada às causas sociais, aos trabalhadores e estudantes, num período onde a burguesia ganhava espaço e mantinha seus interesses, apoiados pelas elites e mediante uso permanente da força. Sua identidade, como vemos, foi construída com base na fé cristã e na vivência estudantil, aos poucos ganhando forma e se consolidando num ambiente secular, e assim ganhando maturidade e autonomia diante da Igreja.

A Juventude Universitária Católica, no Brasil, emerge da união entre jovens estudantes e movimentos religiosos católicos, que refletiram sobre os desafios de uma América Latina vulnerável aos problemas sociais e políticos, além do próprio avanço de projetos fascistas que viam na democracia um risco aos seus interesses hegemônicos. Da Ação Católica, organização fundada em 1931, na França, que se propunha assegurar aos trabalhadores e aos jovens estudantes uma formação cristã que desse uma base para a vida social, frente aos princípios liberais, ao socialismo e ao individualismo, no Brasil, nasce os movimentos de juventude: JAC (Juventude Agrária Católica), JUC (Juventude Universitária Católica), JEC (Juventude Estudantil Católica) e JOC (Juventude Operária Católica). A juventude engaja-se de forma ampla nos diversos setores da sociedade, com pautas de apoio: aos operários, no campo e na cidade, junto aos secundaristas e universitários, dentre variados setores. Seu engajamento nas lutas e demandas populares significou uma renovação das esperanças por mudança na sociedade, com base em objetivos mais amplos que os religiosos e não restrito a grupos muito específicos.

O rompimento com a instituição católica

Por mais que em seu início a JUC estava relativamente ligada aos princípios e objetivos da Igreja, que tinham por finalidade a evangelização no ambiente universitário, gradativamente o terreno de atuação é ampliado e a conquista da autonomia, por parte da JUC, vai sendo consolidada. Os princípios do cristianismo continuariam enraizados no agir prático do movimento, porém a sua permanência como figura representativa da instituição Católica não é garantida, considerando os novos ideais e pretensões que vão sendo desenvolvidos. É importante frisar que a ruptura se deu não por questões de fé ou crença, mas por questões objetivas. A liberdade de atuação da JUC no ambiente universitário, e seus interesses nas questões sociais em nível nacional, era limitado pelo seu vínculo institucional hierárquico religioso, mantendo seus ideais consonantes aos interesses dos representantes eclesiais. Porém, como se manteria esse vínculo com a JUC, que vinha expandindo seu ativismo para outras áreas, ao contrário da Igreja que permanecia institucionalmente presa à suas tradições?

A JUC, que antes tinha a missão de evangelizar o ambiente secularizado da universidade, não se limitava mais a uma posição antirrevolucionária, ela rompe com a neutralidade e o conservadorismo da instituição. O movimento de juventude universitária ultrapassou os limites acadêmicos e respondeu aos desafios sociais da época, através de uma atuação prática e um engajamento político sem o vislumbre de uma teoria apartada da prática, mas seu inverso: uma prática teórica engajada nas mudanças sociais e na resistência contra os totalitarismos.

Foto: Tama66/Pixnio

O projeto neoliberal nas universidades

Com o avanço de um projeto de totalitarismo que objetivava o desmanche educacional no Brasil, visando a consolidação de um neoliberalismo pedagógico nas universidades públicas, as universidades se transformam em espaços de resistência, fomentando novos movimentos que buscam promover mudanças significativas na sociedade.  O projeto de hegemonia nas universidades, planejado pelo governo militar, visava ali uma grande fábrica produtora de mão de obra especializada, com pouco custo, que deve se adequar às transformações sociotécnicas da divisão do trabalho, tendo por objetivo primordial o acompanhamento da valorização do capital, e o conhecimento se torna um potencializador do lucro, na medida em que está imerso na produtividade do trabalho.

A educação não é vista como um caminho de libertação, de capacitação cognitiva, intelectual e cultural, mas como um instrumento necessário para produção – força de trabalho nos diversos níveis e as diferentes qualificações técnicas. Descarta-se, nesse sentido, a perspectiva da realização do ser humano em suas potencialidades e capacidades intelectuais, em prol do desenvolvimento da economia, a serviço do capital. A educação sob moldes estritamente utilitários demonstrava que o projeto de poder da ditadura seguia as diretrizes de dominação e sobreposição de uma classe à outra. A prioridade do discurso proferido pelas autoridades militares era, em geral, voltada à educação como valorização da produtividade e do aumento dos “recursos humanos”, discurso claramente desenvolvimentista. O discurso antagônico, que tinha posições claramente humanistas, era defendido pelo grupo progressista católico,  bem como, organizações de esquerda que defendiam a formação integral do indivíduo

A Teologia da Libertação teve um ponto fundamental nesse combate a partir da atuação desses jovens universitários: através da aproximação com a juventude, construiu uma frente de resistência que não se restringiu aos muros das universidades, mas abraçou as demandas e desafios que surgiram com o passar do tempo, sem um apelo prosélito de filiação a instituição religiosa. A Juventude Universitária Católica assume uma postura crítica ao contexto social e político que vivia nosso país e o continente latino como um todo, tendo por responsabilidade à formação política que foi recebida pela ala progressista do catolicismo. Todo esse movimento reforça o papel da universidade como lugar de resistência, inspirando o nascimento de novos movimentos que constituem-se como atores importantes na defesa pela democracia e pelos direitos no país.

Qual o legado da Juventude Universitária Católica?

Retornando a história da Juventude Universitária Católica, observa-se seu compromisso de transformação da sociedade, tendo como tarefa básica sua inserção no mundo moderno. A ação política constituiu-se como um dos meios mais eficazes para a execução dos objetivos estipulados. A relação entre a Juventude Universitária Católica e a participação política se estreitou à partir dos anos de 1960, quando um militante da JUC foi sugerido como possível candidato para à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) para o período 1960 até 1961. Estabeleceu-se um acordo entre jovens comunistas e cristãos, e à partir dele foi então lançado um candidato de consenso nas esquerdas. Assim, rompe-se o elo da Juventude Universitária Católica com a ala conservadora.

A força política da esquerda jovem, em especial a universitária, através da UNE, aos poucos se insere nos assuntos mais relevantes do cenário nacional, não resumida aos percalços estudantis e educacionais, mas antes assumia para si os problemas macros da política nacional. Os membros da JUC, inseridos na UNE, sem o elo de influência do catolicismo romano, enfrentaram a repressão militar e assumiram as pautas progressistas em sua totalidade, sem recuar nem mesmo quando o Estado brasileiro foi dominado pelos militares a partir do golpe de 1964.

A Juventude Universitária Católica entendeu plenamente que o engajamento nas lutas por mudanças sociais requer renúncia. Mas qual tipo? O princípio cristão de “renunciar a si mesmo” é levado à plenitude quando este é realizado também no que diz respeito à religiosidade, ao controle institucional da hierarquia católica propriamente, ou seja, possibilitando o militante adequar um ideal cristão sem o vínculo de submissão institucional. Isso fez da JUC um movimento único.

Preocupações atuais

Diferente da influência progressista que os movimentos religiosos nos anos 60 e 70 exercia na juventude, sobretudo as ligadas à Teologia da Libertação, observamos um movimento similar nos dias atuais, mas totalmente diferente ideologicamente: a ideologia neopentecostal, ligada quase integralmente aos setores de extrema direita, vislumbra uma possível hegemonia religiosa obtendo o apoio de personalidades e grupos totalmente avessos à democracia. Não é um apelo por mudanças políticas, mas se utiliza da política para galgar a posição de maior religião cristã mais influente no Brasil.

A bancada evangélica atravessa a política por interesses próprios, que visam privilegiar seus adeptos e lutar por causas que sustentem seus interesses. Diferente da Ação Católica, que objetivava a formação de pensamento crítico nos jovens e na política como um todo, essa ala religiosa esvazia pautas sociais e constrói política em cima de pautas religiosas.

A grande preocupação atual reside: com o avanço de uma sociedade cada vez mais vulnerável ao dinamismo das informações e mudanças no cenário político, além da própria inércia na luta pelos seus interesses, fora do celular, há espaço para movimentos de luta aos moldes da juventude universitária dos anos 60?

 

Railson Barboza é doutor e Mestre em Política Social (UFF). Bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Imortal da Academia Fluminense de Letras.

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