VIGIAR, JULGAR E PUNIR

O lugar das mulheres negras no BBB e na sociedade

O que o programa nos mostra, ano após ano, não é apenas quem “errou”, mas quem a sociedade escolhe punir com mais intensidade. E essa escolha não é aleatória

Nos últimos dias, ao revisitar os índices de maior rejeição da história do Big Brother Brasil, um padrão incômodo se impõe. No topo absoluto está Big Brother Brasil 21, com a eliminação de Karol Conká, que atingiu 99,17% dos votos, um recorde histórico. Entre os cinco maiores índices de rejeição do programa, figuram também Aline, do Big Brother Brasil 5, com 95%, e Camila, do Big Brother Brasil 25, com 94%.

Não se trata de negar erros individuais, comportamentos questionáveis ou conflitos característicos do formato do programa. Trata-se de observar quem é punida com fúria máxima, quem se torna símbolo do inaceitável, quem recebe a condenação absoluta, sem direito a nuance, contexto ou reparação. Dentro e fora da casa mais vigiada do Brasil.

À luz do que temos visto no Big Brother Brasil 26, fica cada vez mais difícil sustentar a narrativa de que o programa é apenas um jogo. O BBB funciona, há anos, como uma experiência social amplificada, um espelho brutal das hierarquias, expectativas e julgamentos que estruturam a sociedade brasileira. E nesse espelho, mulheres negras seguem sendo alvo preferencial do julgamento implacável. O que está em curso não é apenas rejeição, mas sim o massacre simbólico.

Aqui, a leitura de Michel Foucault ajuda a iluminar o fenômeno. Ao analisar os mecanismos modernos de poder, Foucault mostra como a vigilância permanente não apenas observa, mas produz sujeitos disciplinados, define o que é aceitável e pune exemplarmente quem transgride as normas, não necessariamente por meio da violência física, mas pela exposição, pelo constrangimento e pela punição simbólica.

No programa exibido em 26 de janeiro de 2026, o público assistiu à completa desestrutura emocional de Sol Vega durante o quadro “Sincerão”. Sol, que foi a primeira mulher negra a participar de um BBB, carrega uma história que antecede, e extrapola, o confinamento atual. Em sua edição original, viveu embates marcados por ataques racistas, que deixaram marcas evidentes. Anos depois, ela retorna ao programa, como alguém que ainda convive com traumas profundos.

Crédito: Reprodução/Instagram/@solvegaoficial

O que se viu, porém, foi algo ainda mais revelador, a escassa paciência coletiva para lidar com esses traumas. Mesmo entre pessoas consideradas aliadas da pauta racial, o limite da empatia parece curto quando a dor da mulher negra se manifesta de forma desconfortável, desorganizada ou inconveniente.

Há, implicitamente, uma expectativa social perversa. A de que mulheres negras sejam fortes, resilientes, didáticas, controladas, inclusive quando revisitadas por violências antigas. Quando não correspondem a esse ideal, são rapidamente enquadradas como “difíceis”, “exageradas”, “problemáticas”.  O BBB escancara o que acontece todos os dias fora da casa. Mulheres negras são julgadas com menos margem de erro, recebem menos indulgência emocional e têm seus conflitos interpretados como falhas morais, não como respostas humanas a contextos de violência histórica e estrutural.

O que o programa nos mostra, ano após ano, não é apenas quem “errou”, mas quem a sociedade escolhe punir com mais intensidade. E essa escolha não é aleatória.

Enquanto não formos capazes de sustentar complexidade, contexto e humanidade quando a protagonista é uma mulher negra, continuaremos assistindo, no horário nobre, à repetição de um roteiro antigo: o da ascensão breve seguida da queda pública, ruidosa e definitiva.

Liliane Rocha é fundadora e CEO da Gestão Kairós, Conselheira do Instituto Tomie Ohtake, Mestre em Políticas Públicas pela FGV, Professora na Pós Graduação da PUC e autora do Livro Como ser uma Liderança Inclusiva.

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