O mito da invasão árabe-mulçumana - Le Monde Diplomatique

EURÁBIA

O mito da invasão árabe-mulçumana

por Raphaël Liogier
5 de maio de 2014
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Uma escola vendida pela prefeitura e transformada em mesquita… Essa imagem – pelo menos aproximada – destacada no dia 11 de abril no canal Europe 1 pelo filósofo Alain Finkielkraut revela o fantasma cada vez mais difundido da invasão árabe-muçulmana da Europa. Especialmente graças ao livro Eurábia, lançado em 2005Raphaël Liogier

O outono europeu de 1956, a França e o Reino Unido, aliados de Israel, ocuparam durante alguns dias o Canal de Suez, que acabara de ser nacionalizado pelo presidente egípcio. Porém, sob pressão soviética e norte-americana, as tropas viram-se forçadas a se retirar. Em reação a esse ataque, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser decidiu expulsar milhares de judeus do país. Entre eles se encontrava uma jovem cujo olhar sobre o mundo seria de várias formas determinado pelo trauma da expatriação: Gisèle Orebi, mais tarde célebre sob o nome de Bat Ye’or (“filha do Nilo”, em hebraico), desenvolveu a versão mais radical do complô muçulmano contra o Ocidente.

Depois de “gangrenar” o Velho Continente, afirma ela, a “civilização árabe-muçulmana” vai conquistá-lo. Essa perspectiva apocalíptica constitui a trama do best-seller que ela publicou nos Estados Unidos em 2005, após várias décadas de maturação: Eurábia, traduzido em hebraico, italiano, holandês e francês. O subtítulo, O eixo euro-árabe, remete às “forças do Eixo” que compuseram a coalizão em torno da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Conforme Bat Ye’or, citada no manifesto do terrorista norueguês de extrema direita Anders Behring Breivik, um mundo árabe-muçulmano conquistador estaria prestes a submergir uma Europa decadente e cínica. Esta teria barganhado, em troca de uma chuva de petrodólares, seu apoio indefectível à Palestina, a abertura escancarada de suas fronteiras mediterrâneas e a aceitação, em última análise, da islamização.

Esse cenário no mínimo grosseiro1 conheceu um sucesso inesperado, a ponto de se tornar um dos principais argumentos da extrema direita europeia. Na França, a presidente do Front National (FN), Marine Le Pen, não para de fustigar o “imperialismo islâmico”,que se manifesta segundo ela pela amplitude dos investimentos da Arábia Saudita e do Catar no estrangeiro, e a “islamização da Europa”, evidenciada pelo véu.2 Por sua vez, seu conselheiro de relações internacionais, o estudioso de geopolítica Aymeric Chauprade, declarou, alguns meses após o início da Primavera Árabe: “Ao favorecer o colapso dos regimes autoritários que formavam a última tela protetora da Europa diante da miséria africana, nós liberamos energias que vão trabalhar a serviço de três objetivos: mais imigração para a Europa, mais tráficos, mais islâmicos” (Valeurs Actuelles,25 set. 2011).

Inicialmente confinada a alguns grupos extremistas, a tese da Eurábiase difundiu e se banalizou. Os partidos políticos que a defendem alcançam desempenhos notáveis nas eleições. Na Suíça, ela foi defendida pela União Democrática do Centro; na Noruega, pelo Partido do Progresso; na Áustria, pelo Partido da Liberdade; no outro lado do Canal da Mancha, pelo Partido pela Independência do Reino Unido. Intelectuais a promovem, alguns explicitamente, como a jornalista italiana Oriana Fallaci (desaparecida em 2006), citada desde a primeira linha do primeiro capítulo de Eurábia, o economista alemão Thilo Sarrazin e o romancista francês Renaud Camus.3 Todos tiveram muito sucesso nas livrarias.

A visão de Bat Ye’or também vende jornais: já são incontáveis as capas de revistas consagradas à “ameaça” muçulmana. Quando a L’Express coloca em cena o combate do “Ocidente contra o islã” (6 out. 2010) ou exibe com violência as “verdades que perturbam” sobre o islã (11 jun. 2008),4 a Le Point responde agitando o “espectro islâmico” (3 fev. 2011), promete revelar “aquilo que não se diz” sobre a burca (21 jan. 2011) ou se mostra enraivecida diante desse “islã sem embaraços” (1o nov. 2012).

Mesmo pesquisadores sérios em seu campo de conhecimento participam da difusão da tese da Eurábia, como o historiador Egon Flaig5 na Alemanha. Na França, a demógrafa Michèle Tribalat assinou um prefácio bajulatório para o livro de sucesso de Christopher Caldwell que anuncia o colapso de uma Europa vencida pelo islã.6

 

Espantalho da extrema direita

Existe realmente uma “ameaça árabe-muçulmana” que justifique o entusiasmo midiático-político que Eurábiacontribuiu para provocar? Bat Ye’or afirma logo de início que os petrodólares do Golfo permitem aos muçulmanos “comprar para si” a Europa – um programa do Canal Plus (20 maio 2013) intitulava-se “Catar: conquistar o mundo em quatro lições”. No entanto, se em 2011 o Oriente Médio realizava 22% de suas exportações para a Europa e a América do Norte, ele representava apenas 5% das importações desses dois espaços.7 Em outras palavras, é o Ocidente que alimenta o Oriente Médio de suas divisas, e não o contrário.

A aba “relações internacionais” do cenário da Eurábia não é mais realista. Longe de se mostrarem complacentes em relação à Palestina, os Estados europeus são sólidos aliados de Israel. De fato, como sublinha com insistência Bat Ye’or, eles votaram pela Resolução n. 43/177 da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em favor da independência da Palestina em 1988. Mas todas as nações do mundo, com exceção dos Estados Unidos e de Israel, fizeram o mesmo na ocasião. Desde então, a União Europeia quase não se distinguiu por seu envolvimento na causa palestina. Pelo contrário. Quando, em setembro de 2011, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, enviou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, um pedido de reconhecimento da Palestina pelo Conselho de Segurança, o Reino Unido e a França se apressaram a declarar que iriam se abster.8

Caso não fosse comprada pelas monarquias do Golfo, a Europa seria ameaçada por uma inundação de populações muçulmanas? Segundo as estimativas mais altas que circulam na internet, a União Europeia seria hoje habitada, secretamente, por 50 milhões de muçulmanos, número que iria dobrar nos próximos vinte ou trinta anos. Esses dados não são inventados por visionários, mas lançados por pessoas a prioridignas de crédito, como o jornalista canadense Mark Steyn, pai da expressão “genocídio europeu” e um dos principais propagadores do mito da Eurábiana América do Norte. Segundo ele, os muçulmanos deverão constituir 40% da população europeia em 2020.

Sabendo que essa comunidade – entendida em seu sentido mais amplo – representa atualmente entre 2,4% e 3,2% da população da União Europeia (12 milhões a 16 milhões de pessoas), seria necessário, para ver realizadas as previsões de Steyn, que essas porcentagens fossem multiplicadas por quinze em dez anos. É uma evolução possível, afirmam os adeptos da Eurábia, pois ondas de muçulmanos emigram para a Europa, depois se reproduzem de maneira excepcional e aplicam uma estratégia de conversões em massa. Sobre esses três pontos, a realidade dos números contradiz os argumentos.

As sociedades europeias experimentam uma taxa de crescimento migratório estável desde os anos 1980. Ele é de 1,1% na França, 3% no Reino Unido e − 0,7% na Alemanha (números de 2009). Somente três países de maioria muçulmana − o Marrocos, a Turquia e a Albânia − figuram entre as dez primeiras comunidades de imigrantes instaladas na União Europeia.9 Além disso, os muçulmanos não procriam mais que os outros. Na maioria dos países muçulmanos, a taxa de natalidade é muito próxima daquelas observadas nos países ocidentais, e por vezes mesmo mais baixa, como no Irã.10 E as taxas de fecundidade das mulheres muçulmanas instaladas na Europa experimentam uma queda contínua desde os anos 1970, até confluir com a da população geral no início dos anos 2000.11

Restam as conversões. Em 4 de janeiro de 2011, o diário The Independent alertava seus leitores sobre um risco de “islamização do Reino Unido”, porque o número de convertidos tinha duplicado em seis anos, passando de 50 mil para 100 mil pessoas entre 2001 e 2011 (para uma população total de 60 milhões de habitantes). Uma pessoa em seis seria convertida ao islã, num ritmo de 5 mil conversões por ano (pouco mais que na França ou na Alemanha). Seriam necessários assim 6 mil anos para que o Reino Unido se tornasse um país de maioria muçulmana. Uma “invasão” muito lenta, portanto, sobretudo quando a comparamos ao crescimento impressionante das conversões ao cristianismo evangélico e pentecostal no mundo, por exemplo, na China e na África: mil pessoas por dia!12 Trata-se da mais rápida progressão religiosa da história – de zero a 500 milhões de adeptos em menos de um século –, mas poucos meios de comunicação se alarmam com a “evangelização do mundo”…

Apesar de seu caráter fantasioso, a influência do cenário de Eurábia não para de crescer. A sombra do complô muçulmano alimenta uma nova lógica de defesa cultural: defesa dos “valores” e do “modo de vida” dos povos europeus “de cepa” ameaçados pelo conjunto das minorias etnoculturais de que os muçulmanos representam a quintessência ideal e aterrorizante. Graças ao mito da Eurábia, partidos europeus objetivamente situados à extrema direita podem pretender superar a distinção direita-esquerda. Eles podem se apresentar como defensores do progresso, da liberdade, da democracia, da independência, da tolerância e do secularismo, falsificando esses valores, e assim seduzir além de seu perímetro eleitoral habitual.

Raphaël Liogier é sociólogo e autor de Ce populisme qui vient [O populismo que vem por aí], Textuel, Paris, 2013.



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