O mundo depois do fim - Le Monde Diplomatique Brasil

PÓS-CRISE

O mundo depois do fim

por Ricardo L. C. Amorim
13 de abril de 2020
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O mundo que se verá combinará o Admirável mundo novo no Hemisfério Norte com 1984 no Hemisfério Sul

“Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão”
George Orwell, 1984

O mundo não será o mesmo depois que as internações e as mortes diminuírem. Ao fim da pandemia sucederá uma nova ordem, diferente de ontem, da democracia liberal, de seus ideais e promessas. O impacto da Covid-19 irá além da tragédia epidemiológica, da crise econômica e das dificuldades de recuperação das sociedades nacionais. Naturalmente não se trata de revoluções ou do fim do mundo. Nada parecido com o cinema de Blade Runner, de Ridley Scott, ou Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick. O cenário que se desenha para os tempos que chegam é de aprofundamento do neoliberalismo em sua forma mais ampla, totalitária, muito além da economia. E a nova ordem alcançará todos os países, tanto desenvolvidos quanto pobres. O mundo que se verá combinará o Admirável mundo novo no Hemisfério Norte com 1984 no Hemisfério Sul.

Entre os países ricos, por exemplo, a dor das mortes em números impensáveis seis meses atrás não será compensada pelo avanço tecnológico que está acontecendo, mas a história se lembrará deste tempo como a tragédia que reorientou decisões e estratégias rumo ao mundo novo. De outro modo, as nações do Hemisfério Norte sofrerão e, ao final da pandemia, se lamentará as vidas e o fechamento de empresas. Sua infraestrutura, entretanto, permanecerá, seus governos manterão as ferramentas necessárias para relançar o crescimento econômico e contarão com novas tecnologias disponíveis, criadas agora.

Não será, todavia, um revival dos Trinta Anos Gloriosos. O alarme da instabilidade sistêmica foi acionado e, embora a reação popular em democracias sólidas tenha elevado o sentimento nacional e de pertencimento, ficou claro que eventos inesperados podem significar colapso. Diante disso, o Estado foi novamente chamado à cena para superar as crises e, no cenário futuro para os países ricos, se verá enormes ganhos de produtividade em diversas áreas: biologia, modelagem, novos materiais, customização em grande escala, gestão etc. Tudo devidamente financiado pelo erário e estimulado e facilitado pela chegada da revolução da indústria 4.0.

O avanço produtivo-tecnológico, por razões políticas, virá, todavia, acompanhado de crescente vigilância e controle sobre corações e mentes. A indústria 4.0, ao reinventar a produção, facilitará a autoridade sobre a população por cauda dos inúmeros e cada vez mais baratos dispositivos úteis à vigilância (câmeras, celulares, softwares etc.). Mais importante, porém, será o uso econômico, social e político do big data e dos algoritmos. O conhecimento de preferências, localizações, trajetos, amigos, posições políticas e muito mais de cada pessoa será instrumento para direcionar propaganda, oferecer comodidades e, também, observação policial. Isto é, passo a passo, os cidadãos dos países ricos serão espionados e submetidos a versões moduladas sobre a realidade com o objetivo de mantê-lo sob controle e felizes, dando-lhe acesso a padrões de vida que satisfazem seus gostos. “É preciso”, dirão os poderosos, “pois, deste modo, estão todos felizes e não sofremos com distúrbios sociais.” A semelhança com o Admirável mundo novo, de Huxley, não é coincidência.

Já os países pobres serão os derrotados ao fim da pandemia e o cenário será bem diferente. São nações que, neste momento, por sua democracia instável, já sentem os golpes dos respectivos poderes executivos interessados em concentrar poder. São países cuja sociedade é, em sua maioria, marcada por fortes desigualdades sociais, elevada pobreza, educação e ciência frágeis, dispositivos de saúde e saneamento insuficientes, meios de comunicação concentrados, produtoras de bens e serviços de baixo valor agregado, elevada informalidade, sistemas de justiça criticados e forças militares com histórico de sobreposição ao poder civil. São notáveis por suas divisões, violência e conflitos sociais. A gravidade dos problemas pelos quais passarão essas populações até o final da pandemia deve aprofundar essas características e fustigar a ordem e os interesses dos grupos dominantes.

Investimentos sociais

Ao mesmo tempo, a ausência de instrumentos e a debilidade, por vezes interessada, dos Estados dos países pobres dificultará a realização de programas de salvamento popular ou de socorro a negócios sob risco de falência. A queda inevitável da arrecadação tributária derrubará os investimentos em educação, ciência, tecnologia e infraestrutura. Por sua vez, as grandes empresas líderes de setores chave são majoritariamente multinacionais que não farão desenvolvimento tecnológico aqui. Logo, a tendência desses países é o atraso tecnológico e educacional frente às nações desenvolvidas, somado à recessão, ao aumento da desigualdade e da pobreza, à piora na divisão social, às crises políticas, à maior violência e ao Estado, cada vez mais, policial. Os meios de comunicação de massa, inclusive a internet, repetirão, medida do possível, os mecanismos de sedução e convencimento praticados nos países ricos. A dimensão das iniquidades sociais, contudo, exigirá a utilização de meios repressivos violentos para que a ordem seja mantida. Mas aqui o Estado tem apoio de poderosos grupos sociais e, por vezes, internacionais para isso. A ascensão de líderes carismáticos cercados por forte máquina de propaganda, sucateamento das instituições de ensino e pesquisa e perseguição ao pensamento crítico prevalecerá. Aqui, 1984 (escrito em 1949), de Orwell, não será fantasia.

Destarte, o foço que já separa países desenvolvidos e pobres tende, ao fim da pandemia, ser maior e afastar o Hemisfério Norte do Sul. O coroamento do novo mundo virá com a consolidação do paradigma tecnológico-fabril da indústria 4.0 entre os países ricos e a primarização da economia das nações pobres. Consequentemente, os últimos perderão elos importantes de suas cadeias produtivas, reduzindo a complexidade de sua indústria. E, claro, economias pouco complexas são menos competitivas e incapazes de reter os benefícios dos ganhos de produtividade, não invertendo excedentes em bens e serviços inovadores, capazes de elevar lucros e salários. Em resumo, enquanto os desenvolvidos ficarão mais ricos e poderosos, não haverá esperança em Schumpeter para os países pobres, cada vez mais dependentes, instáveis, desiguais e pauperizados.

A legitimidade da nova ordem, onde os dois hemisférios se tornarão imagens invertidas um do outro, será garantida, como sempre, por vigilância, controle e consentimento. Mas, se ambos os povos serão vigiados, entre os países ricos as pessoas tenderão a ser guiadas pela modulação das informações que lhe serão apresentadas pelos meios formadores da opinião pública. Ali, o neoliberalismo parecerá perder força, mas seu trunfo estará no consenso em favor da supremacia do imperativo econômico sobre a vida social, isto é, na razão hegemônica que guiará todas as escolhas, fazendo contas entre os meios adequados para atingir os fins desejados. Fins que se limitarão a desejos de consumo, acumulação de riqueza e destaque social por ter. Os habitantes dos países ricos terão a seu favor, portanto, acesso renovado a bens e serviços disponíveis e podem alcançar maior liberdade de costumes. O único limite será afrontar a ordem e o capital. Um mundo novo admirável.

Nos países pobres isso não se repetirá. As economias perderão complexidade e produzirão bens e serviços intensivos em mão de obra e riquezas naturais. O comércio exterior será, novamente, o dínamo da economia. Aqui, o neoliberalismo parecerá rigoroso, pois as proteções sociais serão diminuídas e os trabalhadores serão obrigados a disputar vagas de trabalho nas condições e salários que convierem aos patrões. A ordem, porém, será mantida. As dezenas de milhões de habitantes sem condições aceitáveis de vida serão controlados ou pelos meios de comunicação de massa ou pela força policial do Estado, vigilante e violenta. Para tanto, Estados semi-ditatoriais deverão surgir em vários pontos do mundo e o espaço para democracias participativas será cada vez menor e falso.

Enfim, o abismo que se abrirá entre os países e os povos será intransponível e a distância será mantida pela diplomacia, geoeconomia e armas. O cotidiano das relações internacionais entre os países ricos será diplomático como modulações retóricas, mas apenas isso. Ao contrário, entre os países pobres, serão vistos conflitos armados, marcadamente entre vizinhos, por vezes, atendendo a interesses de grandes corporações internacionais e do Hemisfério Norte. Esses conflitos regionais, entretanto, precisarão ser contidos no tempo e no espaço, pois as disputas geoeconômicas e geopolíticas poderão, no limite, levar a guerra às nações ricas. Mas, daí em diante, tudo pode mudar.

Ricardo L. C. Amorim é economista, pós-doutor pela Universidade de Coimbra e professor da UFABC.



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