O novo eleitorado brasileiro
Mudanças demográficas da população impactam diretamente as preferências eleitorais e as estratégias de campanha dos candidatos
Mais feminino, escolarizado, idoso e evangélico. O Brasil no qual Lula disputará a sua segunda reeleição, em 2026, não é o mesmo que o reelegeu vinte anos atrás, tampouco aquele de 2002. Para além de certa obviedade nessa constatação, as discussões recentes de pesquisadores indicam as mudanças em curso, sobretudo do cientista político Jairo Nicolau em seu recente livro O país dividido. Porém, é preciso frisar que tais dados não sinalizam uma mera alteração demográfica da população – que envelheceu, se converteu, se tornou mais escolarizada e feminina. Trata-se de um movimento com desdobramentos significativos no campo político-eleitoral.
Ao menos desde 1936, nos primeiros estudos eleitorais realizados por George Gallup nos EUA – e no Brasil a partir de 1945, com o Ibope –, pesquisadores eleitorais se ocupam de encontrar correlações entre as características socioeconômicas dos eleitores e seus padrões de votação. Portanto, sabe-se há bastante tempo que mudanças na composição de um contingente eleitoral impactam diretamente as preferências na urna e, consequentemente, a atuação e as estratégias das candidaturas para atrair os eleitores.
Para dar um exemplo: se há mais mulheres no eleitorado do que homens – como é o caso atual do Brasil –, é evidente que parte de suas demandas será distinta do universo masculino. Elas tendem a se inclinar mais a propostas de combate à violência de gênero, a reivindicarem a abertura de creches para deixarem seus filhos enquanto trabalham e a buscarem a equiparação salarial, entre outras pautas. De tal modo que para atrair o voto desse público, os candidatos ao executivo buscarão adequar discursos e planos de governo às necessidades particulares da realidade feminina.
Mais feminino
Uma das características mais importantes da composição do eleitorado, em 2026, é o número expressivo de eleitoras. Segundo dados divulgados pelo TSE, em julho de 2026, as mulheres somam 52,84% do total de votantes. É verdade que elas já eram maioria em 2000; contudo, de lá para cá, a diferença em relação aos homens aumentou significativamente. Na prática, isso representa 9 milhões de mulheres a mais que os homens, em 2026 (eles correspondem a 47,16% do eleitorado) – diferença próxima à população estimada do Ceará, de 9,27 milhões de habitantes em 2025.

Essa expressiva diferença esclarece, por exemplo, as recentes investidas do candidato Flávio Bolsonaro (PL) para buscar a simpatia do público feminino, como mostrou matéria do Intercept Brasil, do dia 08 de agosto de 2026, a despeito de ter escolhido como vice um nome masculino que responde por acusação de estupro. Sem contar as idas e vindas com sua madrasta, Michelle Bolsonaro (PL).
Para efeitos comparativos, o pleito de 2026 registrará o incremento de 1,5 milhão de mulheres em relação a 2022. Pode parecer pouco diante de um universo de mais de 158 milhões de cidadãos aptos a votar, mas é importante lembrar que, na última eleição presidencial, em 2022, Lula venceu por uma margem de 2,1 milhões de votos. Já entre os homens, o crescimento em termos absolutos foi menor: serão, em 2026, cerca de 801 mil eleitores a mais em comparação a 2022.
Mais escolarizado
Desde o início dos anos 2000, o Brasil passa por profundas transformações em sua estrutura educacional. Além da evolução do número de matrículas no ensino básico, um grande contingente de estudantes ingressou no ensino superior devido a políticas de incentivo, como o SiSU, o ProUni e o Fies e, mais recentemente, o Pé-de-Meia. O país também assistiu à expansão de vagas nas universidades públicas, à criação de novos campi e à interiorização dos institutos federais, sem mencionar o avanço das modalidades EAD e semipresencial. Em razão dessas novas possibilidades de acesso à educação, os jovens brasileiros de hoje são mais escolarizados que seus pais e avós.
Assim, a porcentagem de eleitores com nível superior passou de 3% em 2002, para 11% em 2026, de acordo com o TSE. Concomitantemente, o grupo de votantes com ensino médio completo ou superior incompleto subiu de 16% para 34%, enquanto a parcela que estudou até o ensino fundamental incompleto despencou de 62% para 31%.
Sabe-se, por meio de pesquisas eleitorais, que a principal base de apoio ao PT, desde 2002, é formada por eleitores de baixa renda e escolaridade.1 À medida em que a escolaridade da população avança, surge um paradoxo: a base tradicional do partido encolhe. Com isso, a legenda é impelida a se comunicar com um novo público para vencer as eleições: a nova classe média escolarizada. Em 2022, como demonstra Jairo Nicolau em seu livro a partir de dados do ESEB (Estudo Eleitoral Brasileiro), Lula venceu no segmento que possui até o ensino fundamental com uma vantagem de 20 pontos percentuais – a menor desde 2002 e muito distante dos quase 60 pontos à frente de Geraldo Alckmin registrados no pleito de 2006.
Mais idoso
O Brasil também atravessa uma transformação em sua pirâmide etária. Enquanto a base se estreita em razão da queda na taxa de fecundidade – com as famílias se planejando mais e recorrendo a métodos contraceptivos – o topo se alarga devido ao aumento da expectativa de vida. Essa alteração demográfica reflete-se diretamente no perfil de quem vota: o número de eleitores idosos cresce, enquanto o de jovens diminui.
Essas alterações implicam desdobramentos variados na política eleitoral, desde as linguagens de comunicação adotadas pelos partidos até as preferências dos eleitores idosos. Contudo, destaco o impacto da não obrigatoriedade do voto daqueles com 70 anos ou mais. Em uma sociedade cujo contingente idoso expande-se, as candidaturas precisam se empenhar duplamente – como ocorre na democracia norte-americana. Primeiro, é necessário conquistar a preferência do eleitor idoso; em seguida, é preciso convencê-lo a sair de casa no domingo de eleição para depositar o seu voto na urna. Um esforço hercúleo.
Atualmente, segundo dados do TSE, cerca de 10% do eleitorado brasileiro tem 70 anos ou mais – mais de 16 milhões de pessoas, para as quais o voto é facultativo. Esse contingente é superior à população estimada da Bahia, de aproximadamente 14,9 milhões de habitantes. Em 2022, a taxa de comparecimento dos eleitores nessa faixa etária girou em torno de 45%, evidenciando o desafio que as legendas enfrentarão diante de um eleitorado cada vez mais velho.
Mais evangélico
O crescimento do eleitorado evangélico acompanha a expansão populacional dos fiéis, com ligeira diferença acima da média para os eleitores “crentes”. Embora o TSE não disponibilize os dados sobre a filiação religiosa em suas bases, é possível estimar o percentual de evangélicos e católicos eleitores por meio do Censo do IBGE e de pesquisas de opinião. Em 2002, o eleitorado evangélico correspondia a 22%, segundo o Datafolha. Já no conjunto da população, representavam 15%, segundo o IBGE de 2000. Em 2026, os relatórios do Datafolha apontam que o segmento corresponde a cerca de 30% dos eleitores, ao passo que o Censo de 2022 registrou 27% de evangélicos na população geral.
É amplamente reconhecido o viés ideológico que a população evangélica apresenta, optando por candidaturas de direita – fenômeno gestado no interior das igrejas desde 1989, por meio da demonização dos partidos de esquerda e da associação ao comunismo.
Ainda que o ritmo de crescimento tenha desacelerado nos últimos vinte anos e a relação com a centro-esquerda tenha encontrado momentos de abrandamento nos primeiros governos petistas, desde 2010, nenhum presidenciável ignora esse nicho. Naquele contexto, José Serra (PSDB) tensionou temas morais para antagonizar com Dilma Rousseff, representante do lulismo – que batia recordes de aprovação. Desde então, dado o peso eleitoral e o poder político do grupo, os partidos tradicionais têm se adequado às demandas dos evangélicos e ajustado os seus discursos e plataformas.
Nas simulações do Datafolha divulgadas no final de julho de 2026, Lula aparecia em desvantagem no segmento evangélico em todos os cenários apresentados com potenciais nomes da direita (Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema). Aparentemente, a intenção de voto no petista nesse nicho, em 2026, será em um teto próximo a 30%.
O novo eleitorado
O Brasil que vai às urnas em outubro de 2026, é outro. As transformações demográficas das últimas duas décadas vieram acompanhadas de mudanças culturais e políticas: o crescimento das eleitoras mulheres trazem novas demandas e redefinem as estratégias partidárias; o aumento da escolaridade exige novas abordagens de comunicação; o envelhecimento populacional impõe o esforço redobrado das legendas para mobilizar o voto facultativo dos idosos; e a transição religiosa impõe a pauta de costumes e a agenda dos candidatos. Nesse cenário, Lula tentará a segunda reeleição em um país diferente daquele de 20 anos atrás, exigindo novas respostas e criatividade política para atrair o novo eleitorado brasileiro.
Alexandre Landim é doutor em Sociologia, professor do IFCE e autor do livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil (Telha, 2026).
Os dados de 2026 obtive diretamente na base de dados do TSE, https://sig.tse.jus.br/ords/dwapr/r/seai/sig-eleitor-eleitorado-mensal/cruzamento-eleitorado-mensal?p0_ano=2026&session=214954865636279

