O patriotismo na Ucrânia - Le Monde Diplomatique Brasil

UMA POLÍTICA DE ESTADO

O patriotismo na Ucrânia

Acervo Online | Ucrânia
por Antonio Carlos Will Ludwig
17 de maio de 2022
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As primeiras medidas destinadas à disseminação do patriotismo na Ucrânia aconteceram na década de 1990 e incidiram na área da educação, especificamente no ensino médio

Embora a Ucrânia seja uma nação que possui uma história bastante longa, cabe recordar alguns acontecimentos mais recentes de sua existência. Entre 1917 a 1921 ela permaneceu como uma região independente, em 1922, após a Revolução Russa, foi absorvida pela União Soviética, suas fronteiras geográficas foram estabelecidas em 1954 e voltou a ser autônoma em 1991 com o desmantelamento da União Soviética. Nesse mesmo ano o Soviete Supremo proclamou sua soberania como república, foi aprovada a declaração de independência, um plebiscito a ratificou e o então presidente do partido comunista foi eleito o governante do país.

Apesar de seu índice de desenvolvimento humano na atualidade não ser vistoso, possuir uma alta taxa de pobreza e um elevado nível de corrupção, a Ucrânia detêm extensões significativas de terras férteis e se mostra como um dos maiores exportadores de grãos do mundo. Seu regime político qualificado como híbrido pela The Economist é o semipresidencialista onde as tarefas executivas nacionais são divididas entre o presidente, eleito para um mandato de cinco anos, e o primeiro-ministro, que integra um gabinete parlamentar.

Recentemente, com a execrável incursão das tropas russas no seu território, os meios de comunicação tornaram público o ímpeto do povo ucraniano em defender seu país. Divulgaram que muitas centenas de pessoas de ambos os sexos com idade entre 18 e 60 anos se apresentam constantemente como voluntárias às brigadas regionais de defesa, criadas em 2014 no momento em que a Criméia foi anexada pela Rússia, para receberem equipamentos militares e colocarem nos braços uma braçadeira ou fita amarela com vistas a serem reconhecidos pela população e pelos seus pares. A capacidade militar do país é bastante inferior à da Rússia e precisa ser reforçada com a ajuda dos cidadãos. Estes recebem treinamentos rápidos em manuseio e limpeza de armas, sessões de tiro e deslocamento à linha de frente.

Esse comportamento, apesar de notório e vistoso, precisa ser compreendido por meio do sentimento patriótico que se encontra bem internalizado no subjetivismo dos indivíduos e norteia o comportamento deles. Para ajudar nessa compreensão, cabe recordar que o patriotismo é uma expressão de amor pelo país de origem, juntamente com uma sensação de unidade com aqueles que o compartilham. Ele agrega o sentimento de orgulho, devoção e apego a uma pátria, bem como exibe uma forte tendência fraterna a outros cidadãos principalmente se houver o envolvimento de fatores ligados à etnia, cultura, crenças religiosas ou história.

As primeiras medidas destinadas à disseminação do patriotismo na Ucrânia aconteceram na década de 1990 e incidiram na área da educação, especificamente no ensino médio. Nesse lapso, o então presidente Leonid Kuchma baixou uma lei que estabeleceu medidas destinadas ao desenvolvimento da espiritualidade, proteção da moral, adoção de um modo de vida saudável para os cidadãos e preparação dos jovens para o serviço militar. Nos primórdios do atual século ganhou destaque um programa exaltador da figura do cossaco ucraniano como soldado libertador. Unidades civis cossacas, então criadas, receberam a tarefa de organizar patrulhas nas cidades, prestar assistência aos guardas das fronteiras e participar dos socorros decorrentes dos desastres naturais.

Mais adiante, no governo de Victor Yushenko, um nacionalista de direita, foi criado um grupo de trabalho no âmbito do Conselho de Segurança e Defesa Nacional composto por representantes dos diversos ministérios e de organizações juvenis, para examinar o tema da educação patriótica. Em decorrência ficou estabelecido que além do desenvolvimento espiritual e da formação militar a língua ucraniana deveria ser rigorosamente preservada bem como instaurada a ideia de honrar a memória nacional e fixada a proposta de glorificar os rebeldes ucranianos.

O ano de 2014 se mostra como um marco relevante. Nessa data, com a eclosão do conflito militar no leste do país, ocorreu uma mudança substancial no discurso oficial sobre o patriotismo voltado para a esfera educacional. Com efeito, a educação patriótica passou a ser fortemente impregnada por lemas militares que incidiram não só nos currículos escolares como também nas atividades extracurriculares. Os estabelecimentos de ensino médio passaram a ter por meta especial incutir nos alunos um vigoroso afeto patriótico, mentalidade militarista, sentimento revanchista e um desejo de se tornarem futuros soldados prontos para sacrificar suas vidas pela sobrevivência do Estado.

Desde 2016 continua valendo a preservação da língua ucraniana, o estilo de vida saudável, o desenvolvimento espiritual e moral dos jovens e a mentalidade militarista. Entretanto, foi acrescentado um singular discurso histórico crítico aos regimes comunistas. Ele diz respeito à inclusão no processo educativo dos diversos exemplos heroicos relativos aos participantes de campanhas antiterroristas nas regiões de Donetsk e Luhansk, dos componentes das revoltas de aldeias antibolcheviques, dos integrantes que atuaram no exército rebelde e dos insurgentes que emergiram nos campos de concentração stalinistas. Também foi incluída a proposta de lutar contra o separatismo assim como o desenvolvimento da tolerância e do respeito a outras nações, culturas e tradições.

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(Créditos: Pexels)

Os principais recursos dessa orientação dizem respeito à organização de acampamentos e ao emprego de jogos esportivos militares. Uma importante colaboração é prestada pelas organizações nacionais patrióticas juvenis tais como o Congresso Nacionalista da Juventude e a Associação da Juventude Ucraniana. Destaque-se que no acampamento organizado pelo regimento de Azov os jovens vestidos com uniforme camuflado aprendem a montar e desmontar uma metralhadora, se familiarizar com tópicos de primeiros socorros, praticar em pistas a superação de obstáculos, vociferar slogans nacionalistas e ouvir atentamente a leitura da oração do nacionalista ucraniano.

Vale ressaltar aqui a semelhança dessa formação, um legado da antiga União Soviética, com a de outros países circundantes como Azerbaijão, Armênia e Rússia. Observe-se que na Rússia a educação patriótica tem se mostrado como a mais efetiva e rigorosa, principalmente nas duas últimas décadas sob a égide de Putin. Com efeito, ele realmente a tem colocado num patamar bastante elevado. Do início do século aos dias de hoje, o Estado vem orientando as escolas, grupos da sociedade civil e a Igreja Ortodoxa, entre outros, em seus esforços para inculcar valores nacionais. O financiamento federal está disponível para uma série de grupos, incluindo organizações de veteranos, para ajudar o Estado a avançar em seu projeto de orgulho nacional. Embora os sucessivos movimentos de mobilização patriótica nos últimos anos tenham compartilhado amplamente as mesmas aspirações, seu foco evoluiu, com ênfase crescente nas atividades militares e orgulho das Forças Armadas da Rússia, haja vista que os jovens rotineiramente se envolvem em encenações de batalhas e se inscrevem em treinamento de estilo militar.

Em relação às escolas moscovitas, o governo disponibiliza cursos de formação de professores para atuar na moldagem dos jovens visando o objetivo de defesa da pátria e acatamento do dever militar em tempos de paz e de guerra. Destinam-se, portanto, a prepará-los para o cumprimento de uma agenda de mobilização patriótica militar. Existem ainda programas educativos que incluem o emprego de excursões ao campo de batalha, prática de artes marciais, treinamento militar básico, desfiles ao estilo soviético, competição de canções militares e manuseio de armas. Cabe realçar a existência do Yunarmiya, ou Exército Jovem existente desde a época da União Soviética, o qual, por iniciativa do Ministério da Defesa, realiza treinamentos sobre montagem de rifles, tiro ao alvo, salto de paraquedas e emprego de táticas militares. Eles se destinam a jovens com idade entre 14 e 18 anos vestidos com uniforme militar, alocados em sedes próprias e portadores de estandartes singulares.

Apesar de ser vizinha da Rússia, possuir muitos russos como cidadãos e sofrer várias influências moscovitas, a Ucrânia também tem uma inclinação para o lado da Europa Ocidental, e, consequentemente, para o lado dos Estados Unidos. Isso deve muito à presença da ideologia liberal no país, que prega a autonomia do indivíduo, a valorização dos direitos, o regime democrático, a preservação da propriedade privada e a liberdade do mercado. Ela vem tentando orientar a organização e o funcionamento do governo, inclusive com presenças no Partido Democrático e na União Democrática, além de nortear a dinâmica produtiva e comercial do país.

Essa inclinação tem favorecido a iniciativa de europeus e norte-americanos em propor a adoção de uma nova forma de educação cívica para substituir a militarizada. A esse respeito, vale lembrar que a Comunidade Europeia, desde o início do século, possui um modelo específico e comum de formação para o exercício da cidadania. Consequente das recomendações contidas na Carta do Conselho da Europa sobre Educação para a Cidadania Democrática e os Direitos Humanos, ele estabelece que os alunos devem adquirir conhecimentos, desenvolver atitudes e forjar as condutas necessárias ao exercício e à defesa dos direitos e deveres democráticos, bem como valorizar a diversidade e desempenhar um papel ativo na vida em sociedade.

Por sua vez, os Estados Unidos também possuem um programa de formação para a cidadania, mas diferente do europeu, porquanto é bastante descentralizado em respeito à autonomia dos Estados. Tal programa, no conjunto, inclui como estratégias de aprendizagem a realização de trabalhos voluntários, simulação de processos democráticos, discussões críticas de eventos atuais, estudos de casos recentes abordados pela Suprema Corte, preparação para audiências simuladas no Congresso, identificação e resolução de problemas com base em políticas públicas, formulação e concretização de projetos proporcionadores de melhorias para as escolas e a comunidade e reuniões com as autoridades dos condados para debater soluções beneficiadoras da coletividade.

Algumas tentativas já foram concretizadas. Na década de 2000 a União Europeia, em parceria com o Departamento de Estado norte-americano, financiou um projeto que gerou um livro didático e um currículo, elaborados por educadores ucranianos, intitulados Somos Cidadãos da Ucrânia. Após ter sido colocado em prática verificou-se que os alunos se revelaram mais propensos a ter visões democráticas e entender os princípios de uma sociedade democrática do que os alunos que não fizeram o curso. Na segunda década, integrantes de universidades estadunidenses propuseram um programa de educação cívica financiado pela Usaid, que contou com a colaboração de diversas ONGs ucranianas e apresentou uma estrutura curricular voltada para os ensinos fundamental, médio e superior.

Desde 2018 a educação ucraniana está sendo norteada por uma lei específica que estabeleceu como finalidade a formação de cidadãos responsáveis, capazes de fazer escolhas públicas conscientes e dirigir suas atividades em benefício de outras pessoas e da sociedade. Essa lei tem por base a Recomendação do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia sobre as Competências-Chave para a Aprendizagem ao Longo da Vida. São elas: a comunicação na língua oficial e na língua materna em caso de diferenças, comunicação em línguas estrangeiras, literacia matemática, competências em ciências naturais e tecnologias, informação e competência digital, competências sociais e cívicas, empreendedorismo e literacia financeira, literacia cultural, alfabetização ambiental e vida saudável.

Com essa proposta em andamento espera-se que o modelo centrado na militarização e no patriotismo seja abandonado. O patriotismo tem se mostrado como um afeto anacrônico e em decadência. É praticamente impossível cultivá-lo no atual ambiente dominado pela globalização causadora da desestabilização e da fragilização de muitos Estados e provocadora da progressiva e irrefreável aproximação e intercâmbio entre países. Por sua vez, o exacerbado individualismo pós-moderno e neoliberal tem levado as pessoas a buscarem a concretização de seus interesses e aspirações, a se fecharem no âmbito da esfera privada.

A militarização, por sua vez, seja nos diversos setores da sociedade, e, particularmente na educação, se encontra perdendo terreno de modo acelerado para a sua contrária, a civilinização. De fato, o notório avanço de civis na área militar, bem como a impregnação de concepções civis no meio castrense tem diminuído substancialmente as diferenças entre paisanos e fardados, bem como as dissemelhanças entre as organizações civis e bélicas. Somente países governados pelo autoritarismo são adeptos incondicionais da militarização, tais como a China e a Coreia do Norte. Assim sendo, o atual programa ucraniano de educação cívica tende a ganhar terreno e se solidificar, porquanto a vistosa mobilização popular interna em defesa do país e principalmente o gigantesco apoio recebido da comunidade internacional deve fazer com que a Ucrânia enfraqueça os traços autocráticos e fortaleça os traços democráticos de seu hibrido regime político.

 

Antonio Carlos Will Ludwig é professor aposentado da Academia da Força Aérea, pós-doutorado em educação pela USP e autor de Democracia e ensino militar (Cortez) e A reforma do ensino médio e a formação para a cidadania (Pontes).



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