O peso das pesquisas eleitorais - Le Monde Diplomatique

POR TRÁS DO MARKETING POLÍTICO

O peso das pesquisas eleitorais

por Cristiano Navarro e Luís Brasilino
4 de setembro de 2014
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Utilizadas pelo mercado financeiro para especular e pelas emissoras de rádio e televisão para nortear sua cobertura, as pesquisas têm de fato influência direta e indireta no resultado das eleições. No entanto, a interferência ilegítima e nefasta das manipulações, ainda que possível, não pode ser comprovadaCristiano Navarro e Luís Brasilino

 

Astros. Cartas de tarô. Bola de cristal. Jogo de búzios. As sugestões de um oráculo sobre o que possivelmente vai acontecer podem gerar expectativas e influenciar diretamente o comportamento da pessoa que o consulta. As pesquisas eleitorais também projetam cenários, indicam possibilidades, produzem informação e geram expectativas, porém não adivinham o futuro, ainda que ajudem a definir seus rumos. Contudo, diferentemente da previsão dos videntes, nas hipóteses levantadas junto ao eleitor não há espaço para a interferência do acaso, como uma tragédia.

Para além de toda a comoção gerada pela trágica morte de sete pessoas, a queda do avião que carregava o candidato à Presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), Eduardo Campos, ocorrida na manhã do dia 13 de agosto em Santos (SP), fez desmoronar o esquema de uma disputa que até então se mostrava consolidada pelos institutos de pesquisa.

Cinco dias após o acidente aéreo, com Marina Silva ocupando o lugar de Campos como candidata pelo PSB, o Datafolha indicava que a polarização entre o Partido dos Trabalhadores (PT), da presidente Dilma Rousseff, e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do senador Aécio Neves, deixava de existir.

Mais ainda, no fechamento desta reportagem, os números do Ibope para a corrida presidencial mostram que o crescimento da candidatura de Marina diminuiu consideravelmente as chances de Aécio chegar ao segundo turno. Divulgada no dia 26 de agosto, a sondagem ratificou a tendência de um segundo turno entre Dilma e Marina, ensaiando assim uma nova polarização do debate.

 

Contas, informações e influências

Uma parte do eleitorado ignora essas oscilações e, independentemente das posições ocupadas pelos políticos nos gráficos dos institutos de pesquisa, vota de acordo com sua identificação ideológica, programática e histórica. Já a maioria, além das informações colhidas sobre os candidatos, ao tomar contato com as projeções passa a fazer contas escolhendo aquele que tem chances de sair vitorioso ou que tem maior possibilidade de derrotar o concorrente mais rejeitado.

Para os diretores de dois dos principais institutos de pesquisa, as tendências captadas junto à população não são determinantes para o resultado das eleições, mas fazem parte de uma soma complexa de referências que se traduzem no voto.

Mauro Paulino, diretor do Datafolha, enxerga as pesquisas como um dado importante na escolha do eleitor. “Vejo pesquisa eleitoral como informação; ela permite que o eleitor saiba qual é o cenário atual, tomando decisões baseadas nessa informação e em outras dadas pelas campanhas, pelo noticiário e na conversa com amigos e parentes. Esse conjunto faz que o eleitor elabore seu voto. Nesse sentido, a pesquisa entra como um fator de influência.” Na opinião de Paulino, a influência das pesquisas tem pesos diferentes entre os distintos perfis de eleitores. “Há uma pequena parcela que gosta de votar no candidato mais bem colocado. Há outra que prefere votar contra aquele candidato que mais rejeita.”

Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, considera o debate sobre o peso das pesquisas um tema polêmico. “Muito provavelmente não existe uma só resposta a essa questão. O que parece estar mais perto de ser verdade é que ela exerce uma influência em uma parcela do eleitorado. Mas tudo indica que é de tamanho insuficiente para fazer diferença, assim como outras informações”, minimiza. Coimbra acredita que se as pesquisas fossem determinantes para o eleitorado não haveria possibilidade de transformação dos quadros apresentados durante o período de campanha. “A demonstração de que não são determinantes é que as pesquisas mostram mudanças. Se elas influenciassem de maneira tão importante o eleitorado, em princípio elas tenderiam a se reproduzir. Assim, se o leitor viu uma pesquisa e tomou uma decisão, a próxima já estaria igual”, argumenta.

Rudá Ricci, sociólogo e doutor em Ciências Sociais, identifica um impacto indireto das pesquisas no resultado eleitoral. “Converso quase diariamente com todos os tipos de coordenação de campanha, da Rede, do PSB, da Dilma e dos tucanos. Elas fazem trackingquase diariamente e levam em consideração, de fato, as pesquisas do Ibope e do Datafolha. O que ocorre é que as coordenações ficam numa pressão tão alta que isso transparece tensão para a militância e cria uma cadeia. O eleitor da ponta demora muito mais a perceber essa onda, mas ela chega até ele.” Por um lado, essa “onda” pode estimular uma candidatura em ascensão, como a de Marina, na medida em que eleitores antipetistas enxergam nela a possibilidade de derrotar o governo atual. Por outro, serve para afundar ainda mais a campanha de Aécio, especialmente pelas perspectivas de segundo turno, no qual tem 35% contra 41% de Dilma, diante dos 45% de Marina ante 36% de Dilma, segundo Ibope divulgado em 26 de agosto.

Outra possibilidade de as pesquisas interferirem nas eleições é por meio da manipulação de seus resultados pelos institutos. Contudo, isso não pode ser comprovado antes das eleições e, nas últimas três disputas presidenciais, as estimativas divulgadas pelo Ibope e pelo Datafolha no dia da votação coincidiram com o aferido nas urnas. Ricci, no entanto, afirma que as pesquisas podem, sim, ser manipuladas. Uma das formas é fazer a sondagem por telefone, excluindo da amostra parte da população mais pobre. Um segundo mecanismo é conferir mais peso a uma ou outra região. Segundo Ricci, 60% dos entrevistados do Datafolha e do Ibope moram no Sudeste, que abriga 43% do eleitorado, ao passo que o principal apoio a Dilma vem do Nordeste. O sociólogo retoma também uma antiga teoria de Leonel Brizola. De acordo com ele, os institutos de pesquisa no Brasil sempre usaram a tática da boca do jacaré. “Eles começavam com a boca bem aberta, distante da realidade, mas, à medida que ia chegando perto do dia das urnas, eles iam diminuindo a distância entre a realidade e a boca ia se fechando.” Por fim, Ricci avalia que é possível manipular o resultado variando os índices de cada candidato dentro da margem de erro. “Há várias maneiras metodológicas e técnicas que às vezes não são exatamente má-fé, mas é a pressa de dar o dado que provoca um desvio. Então há problemas, sim”, conclui.

Por outro lado, a regulamentação das pesquisas (que hoje permite a todos os partidos políticos o aferimento de sua metodologia e dos registros dos entrevistados) e seu nível de acerto muito próximo ao das urnas apuradas corroboram a fala dos diretores e diminuem a desconfiança sobre a possibilidade de manipulação por parte dos institutos.

 

Interpretação

No entanto, se é difícil precisar o peso das pesquisas, alguns elementos concretos apontam para a influência direta dos institutos nas eleições. O principal deles, sem dúvida, é a cobertura da mídia. Entre os diversos veículos de comunicação (rádios, TVs e jornais) que cobrem as eleições, a utilização das pesquisas eleitorais como parâmetro para o nível de exposição das candidaturas é a regra.

Um dos casos mais emblemáticos é o critério adotado para a cobertura e participação em entrevistas e debates da emissora de maior audiência da televisão brasileira, a TV Globo. As regras da emissora, por exemplo, excluem o ex-ministro da Saúde e candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, de sua cobertura diária. O canal exibe, de segunda a sábado, informações apenas de candidatos que têm intenções de voto acima de 6%, de acordo com os institutos Ibope e Datafolha. Os concorrentes com mais de 3% de intenção aparecem nas coberturas duas vezes por semana com veiculações de um minuto cada, que é o caso do petista. A coordenação de campanha de Padilha chegou a entrar com um pedido de liminar no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo para garantir mais tempo de cobertura, mas o pedido foi negado. O mesmo critério foi questionado na Justiça, entre outros, pela candidata do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) à Presidência, Luciana Genro, que tenta garantir seu espaço na cobertura diária do jornalismo da emissora.

Apesar de a legislação que dispõe sobre propaganda e condutas ilícitas em campanha eleitoral nas eleições de 2014 exigir isonomia dos veículos de comunicação em seu trabalho jornalístico, não existem critérios objetivos para julgar uma cobertura equânime.

 

Mercado e política

Outro elemento de influência direta das pesquisas nas eleições ficou evidenciado no final de julho em um caso envolvendo o Santander. Na ocasião, após divulgação de pesquisa do Datafolha que apontava empate técnico no segundo turno entre Dilma e Aécio, o banco espanhol enviou um comunicado a seus clientes da categoria Select, com renda mensal superior a R$ 10 mil, informando que o voto na petista poderia trazer prejuízos financeiros. “Se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam a alta e o índice da Bovespa cairia.” A medida foi criticada por políticos de diferentes partidos, e o Santander chegou a pedir desculpas pela correspondência.

Mesmo sem grandes oscilações, antes da entrada de Marina na disputa eleitoral, o mercado financeiro já utilizava as pesquisas para ganhar dinheiro e tentar influir politicamente. Mauro Paulino, do Datafolha, credita essas especulações à determinação da Justiça Eleitoral que ordena o registro das pesquisas cinco dias antes da divulgação de seus resultados. “Isso dá margem a uma série de especulações, especialmente no mercado financeiro, inclusive a realização de pesquisas clones. Quando o Datafolha registra uma sondagem, já há institutos tentando repetir o mesmo método daquela pesquisa registrada para procurar antecipar o número a ser divulgado. Esses resultados são vendidos para instituições financeiras, investidores e especuladores que tentam obter ganho no mercado de ações”, explica.

Na última pesquisa Datafolha divulgada antes da morte de Eduardo Campos, o empate técnico no segundo turno entre Dilma e Aécio levou o índice das ações Ibovespa a subir 3%, e a Petrobras, 4%. Paulino classifica o crescimento dessas ações como “pura especulação”, “algo que se assemelha à jogatina de um cassino”. “Milhões de reais entrando no jogo por conta de números que não justificam esse movimento”, critica.

Exemplo disso é o chamado “efeito Dilma”, calculado pelo instituto Insper. Até 6 de julho, as oscilações da candidata petista haviam rendido em 2014 R$ 10,6 bilhões, segundo índice calculado por meio das oscilações provocadas por pesquisas nas ações da Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobras, Cemig e Cesp.

“Criou-se uma lógica no mercado de que aparentemente um resultado negativo para Dilma provoca aumento nas ações das estatais. O mercado criou essa lógica. Algum fundamento político tem, mas eu acho que o que pesa mais é a especulação, a criação de factoides para ganhar dinheiro”, comenta Paulino.

Marcos Coimbra, do Vox Populi, entende que o problema da especulação está em como os resultados das pesquisas são tratados pelos veículos de comunicação, que “gostam de ter em mãos um resultado espetacular para fazer manchete, criando o ambiente para a especulação”.

Na visão de Coimbra, uma saída para o fim da especulação e da espetacularização dos dados seria a adoção do modelo de divulgação do trackingdiário utilizado em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Canadá e Japão. “A melhor maneira de evitar a especulação é ter informação diária. Eu acredito que não teria objeção na Justiça Eleitoral, era só chegar e dizer: ‘Olhem, meus amigos, nós vamos acabar com uma coisa meio antiga que ainda existe; vamos passar para algo mais útil para o eleitor, que não vai ter sobressaltos; algo que não vai sair no final no Jornal Nacional, não vai estar cheio de manchetes garrafais, e o eleitor vai estar menos submetido a essa espetacularização’.”

Cristiano Navarro e Luís Brasilino são editores do Le Monde Diplomatique Brasil.



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