UM PAÍS QUE PRECISA SER LEMBRADO

O que falta para o Haiti cooperar com a China?

A falta de uma relação oficial entre o Haiti e a China aparece como algo sintomático para um país caribenho espoliado pelo colonialismo europeu e pelo imperialismo estadunidense

A soberania do Haiti há tempos tem sido roubada da nação e do povo haitiano. Uma prova disso é o fato de o país manter relações com Taiwan, em vez de estabelecer cooperação oficial com a República Popular da China (RPC). Isso ocorre em meio a fortes tensões geopolíticas e à tentativa desesperada do governo Trump 2.0 de afirmar o poderio norte-americano no mundo, segurando com “unhas e dentes” a América Latina e o Caribe como sua zona de influência, diante da gradual e recente adesão dos países da região à Iniciativa do Cinturão e Rota, também conhecida como Nova Rota da Seda – haja vista às determinações do que tem sido conhecido como “Doutrina Monroe”.

A China, entretanto, além de uma diplomacia pragmática, que oferece ganhos concretos aos países parceiros, tem sido uma crítica discreta ao imperialismo dos Estados Unidos da América no mundo atual. Recentemente, o governo chinês criticou o papel dos EUA na crise humanitária do Haiti, apontando sua incoerência entre discurso e prática e responsabilizando-o como principal fator externo dos grupos armados e da falta de desenvolvimento haitiano na sua longa história como Estado nacional. [1]

Como se sabe, a China tem sido importante ator da presente política internacional ao defender a governança multilateral global e propor uma globalização alternativa àquela do neoliberalismo[2]. A partir de uma narrativa e das distintas iniciativas guiadas pela promoção da ideia de Civilização Humana, em uma direção oposta à hegemonia dos EUA, a China trabalha a partir de uma “comunidade internacional com um futuro compartilhado” construída a partir da conectividade e do desenvolvimento do Sul global.

Com forte ênfase na Cooperação Sul-Sul, uma cooperação ganha-ganha, a China renova o sistema da cooperação internacional para o desenvolvimento, até então dominada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ao concebê-la a partir de parcerias abrangentes que combinam técnicas, desenvolvimento científico e tecnológico, investimento, comércio e empréstimos. Com isso, a China impulsiona a economia dos países parceiros, sem interferência nas decisões políticas e escolha de seus governos, apoiando a iniciativa privada e à capacidade burocrática, algo inestimável para o Haiti que sofre há muito tempo com intervenções e interferências recorrentes da comunidade internacional, haja vista a criação e operação do Core Group desde o início do atual século XXI[3].

Assim, a falta de uma relação oficial entre o Haiti e a China aparece como algo sintomático para um país caribenho espoliado pelo colonialismo europeu e pelo imperialismo estadunidense. Afinal, isso impede o Haiti de auferir oportunidades significativas no âmbito da Belt and Road Initiative e de conectar-se às grandes iniciativas de desenvolvimento do mundo de forma autônoma, guiado por um interesse nacional haitiano de caráter “popular”.

Entre a China e Taiwan: a falta de opção do Haiti

Crédito: Chien Chih-Hung / Office of the President

Desde 1971,  República Popular da China (RPC) é formalmente reconhecida como um país soberano da Organização das Nações Unidas pela Resolução 2748, que decide restaurar o governo da RPC como o único legitimamente detentor do direito de representação da China, contra o governo de Chiang Kai-shek, na ONU. Neste retorno, a China inclusive resgata seu direito de voto e de veto como um dos 5 membros permanentes do Conselho de Segurança desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a China enfrentou a invasão japonesa, contra o fascismo das potências do Eixo – Alemanha, Japão e Itália.

Atualmente, há 181 países do mundo (dos 193 membros da ONU) que cortaram relações com o dito governo taiwanês. Desses, 12 seguem abdicando da cooperação com a China, em 2026, sendo que mais da metade são latino-americanos. Entre os 7 países latino-americanos, em sua maioria caribenhos, encontra-se o Haiti junto com Guatemala, Paraguai, Belize, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas e San Kitts e Nevis[4].

Entre a China e o Taiwan, parece não haver espaço para uma decisão legítima e soberana do Haiti. Se houvesse, certamente, a opção pela China seria mais estratégica para a política externa haitiana. No entanto, parece que tanto as relações diplomáticas do Haiti com Taiwan quanto a demora do reconhecimento da China pela ONU têm a mesma explicação: o sistema internacional é gerido pelos países “brancos” ocidentais e capitalistas do Norte global. Pois há que se lembrar que a China sempre esteve no grupo atualmente reconhecido como “Sul global” que lutam contra o colonialismo, imperialismo e hegemonia[5].

Um episódio célebre da história da China socialista é um exemplo de como Mao Zedong manteve sempre uma atenção ao cenário internacional durante a revolução e transformação chinesa. O líder revolucionário chinês dizia haver “zonas intermediárias” no mundo bipolar disputado pelos Estados Unidos e pela União Soviética, que deveriam ser prioridade para as relações internacionais da China. Essa zona era formada por “países-irmãos pobres” que deveriam ser ajudados pela China mesmo quando essa passava por dificuldades no período pós-revolução socialista de 1949. Tais ideais de solidariedade e de coexistência pacífica entre os países se transformaram nos cinco princípios célebres apresentados por Zhou Enlai, em 1955, na Conferência Afro-asiática de Bandung.

A inexistência de uma autoridade estatal decisória do Haiti explica a falta de opção do país, que segue a estratégia política adotada pela hegemonia ocidental (estadunidense). Não é desconhecido o fato de que Taiwan tem sido defendido pelos Estados Unidos contra a vontade chinesa, tão pouco o episódio de que os EUA se desculparam ao Haiti durante o governo de Bill Clinton por uma manobra totalmente contra o interesse haitiano, uma armadilha para que o Haiti trocasse sua produção interna de arroz pela importação do arroz estadunidense, o que resultou no aumento direto do preço do alimento e na pobreza do país[6].

Outro fato marcante é a enorme lacuna existente entre o comando político decisório do Haiti e sua sociedade civil organizada. Cada um, governo e sociedade, parece avançar em direções opostas na elaboração de posições e condução de iniciativas de cooperação com o país. Uma prova disso é a Carta Aberta ao Presidente Xi Jinping enviada pelo Grupo RENAFECA do Projeto Democracia no Haiti, em 2024. Por meio dessa carta, advogados, cientistas políticos e responsáveis por associações populares elogiam e agradecem a posição Chinesa no Conselho de Segurança de não apoiar o envio de missões de paz e de defender a necessidade de autonomia decisória. O grupo faz uma crítica aos mandatários estadunidense e francês que se mostram inclusive racistas em suas narrativas oficiais, e da passividade da ONU diante de violações humanas graves aos direitos do povo haitiano, manipulada pelos países ocidentais. [7]

De fato, o Haiti está na contramão do que fez o país vizinho e seu melhor parceiro. Cuba estabeleceu relações diplomáticas com a China em 1960 e, desde então, a irmandade socialista resultou em forte apoio político contra o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos, promoção do turismo e do comércio entre os dois países, além de vários acordos de cooperação técnica e científica, com destaque para as áreas energética – produção energética da biomassa e fotovoltaica – e médico-farmacêutica[8].

A ausência de parceria com a China: a parceria com Taiwan

Com essa ausência de laços políticos entre o Haiti e a China, o Haiti perde a oportunidade de cooperar com a China e formar parte da Nova Rota da Seda e se beneficiar de investimentos e empréstimos a grandes projetos de infraestrutura, a acordos comerciais estratégicos e a iniciativas voltadas ao desenvolvimento social e reconstrução das estruturas do país, como aquelas no âmbito do Global Development Iniciative (GDI). No presente, a atuação Chinesa no Haiti limita-se a posições no Conselho de Segurança.

Isso se torna ainda mais grave em um contexto em que a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) tem buscado uma aproximação estratégica com a China. O Fórum de Diálogo CELAC–China aprovou, em 2025, durante o IV Fórum, o Plano de Cooperação da China com a região para o período de 2025 a 2027, incluindo áreas-chave como a melhoria das relações comerciais, a promoção da inovação econômica e o fortalecimento da capacidade tecnológica. O plano também prevê a criação de mecanismos de cooperação capazes de identificar e resolver diferenças comerciais, além de aprimorar a gestão de conflitos e promover respostas conjuntas a medidas coercitivas que afetem os países. Esses temas são centrais para o diálogo e para o fortalecimento das parcerias bilaterais na região.

Então o que o Haiti ganha em cooperar com Taiwan? Taiwan tem utilizado recursos classificados sob a rubrica da cooperação internacional e fundo de desenvolvimento (ICDF – International Cooperation and Development Fund) como principal estratégia da sua política externa. Ao apoiar países parceiros, Taiwan previne que eles revertam sua posição em benefício das relações diplomáticas com a China, o que tem se tornado cada vez mais um maior desafio diante das oportunidades oferecidas pela China. Isso tem sido feito, certamente, com os auspícios do governo estadunidense, como se pode ver nos trabalhos de Maggiorelli (2019) e de Harold et al. (2019) [9] – um dos poucos que encontramos disponíveis com esses dados.

Com isso, Taiwan fornece assistência ao desenvolvimento mediante apoio a governos de países parceiros, sendo responsável pelo reforço do orçamento nacional de países com pequenas economias, como é o caso de Honduras, Haiti, Guatemala, Belize, St. Kitts e Nevis, Paraguai, St. Lucia, St. Vicent e Grenadines e Equador – notando que Nicarágua formava parte da lista, mas em 2021 restabeleceu as relações com a China, e Equador era o único país a receber apoio taiwanês mesmo tendo relações com a RPC. Segundo menciona Maggiorelli (2019), essa ajuda chega a significar um quinto do orçamento de países como o Haiti, que com duas dezenas de projetos identificados constituía-se no segundo país com maior número de projetos.

Para Harold et al. (2019), adicionalmente, mais da metade dos projetos implementados nos últimos 15 anos, enfocam-se em cooperação técnica, seguido de assistência humanitária voltados a prevenção e resposta a desastres e a construção de infraestrutura, empréstimos e investimentos, com destaque para atividades de treinamento e educação. A assistência humanitária emergencial com doação de alimentos e suprimentos, além da reconstrução pós-desastre chega a 25% no Haiti.

Pela soberania Haitiana: o Sul global e a China

O que falta para o Haiti reconhecer a China é o resgate de sua soberania que foi sequestrada pelo Core Group. Essa administração de um país conduzida desde seu exterior, pela comunidade internacional, está assentado na ideia de um Estado falido[10], que não é capaz de caminhar com suas próprias pernas rumo ao destino traçado. Uma narrativa reforçada a todo momento pelas cenas catastróficas que aparecem na mídia hegemônica global, contra o que nosso grupo de pesquisa busca atuar em periódicos como o Le Monde Diplomatique Brasil.

Para o pesquisador haitiano Samuel Morancy, o Core Group é um consórcio de intervenção internacional composto por embaixadores de um conjunto de países entre eles o Brasil – Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Espanha, além de organizações internacionais como a OEA, ONU e EU. Ele se posiciona e segue receituários que apenas servem para dilacerar a relação entre Estado e Sociedade do Haiti. Essa composição de países perpetua práticas colonialistas e imperialistas, em detrimento de relações horizontais e de uma governança global multilateral e equilibrada.

Portanto, uma medida emergencial por parte da cooperação internacional para o desenvolvimento dos países é apoiar a soberania haitiana. O pacto entre os grupos sociais e entre esses e as elites políticas e econômicas do país é o que poderia solucionar a convulsão social e a crise econômica que vive o Haiti. Somente, então, se poderia discutir que tipo de relações interestatais são mais vantajosas, o que, sem dúvida, passaria por integrar o país em termos de infraestrutura e comércio ao mundo e garantir as benesses de uma globalização inclusiva e equilibrada.

Em meio à onda contra hegemônica que reivindica uma ordem internacional mais justa é de se esperar que o Haiti seja lembrado como importante tema na agenda do Sul global. E isso aconteceu no IV Fórum CELAC-China este ano que mencionou a questão haitiana como o símbolo da relação íntima e direta entre a falta de desenvolvimento e a vulnerabilidade quanto à soberania nacional e estabilidade social.[11]

Marina Bolfarine Caixeta é doutora em Ciências Sociais pelo Departamento de Estudos Latino-americanos da Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora do Centro de Estudos e Articulação da Cooperação Sul-Sul e vice-coordenadora do grupo de pesquisa sobre o Haiti. E-mail: [email protected].

[1]Ver o último pronunciamento oficial do governo chinês sobre o Haiti (https://un.china-mission.gov.cn/eng/chinaandun/securitycouncil/202508/t20250829_11698578.htm) e a análise do think tank chinês sobre o tema (https://www.globaltimes.cn/page/202504/1332588.shtml)

[2] Vadell, Secches e Burger (2019) “Globalização Instituida pela China” (GIC) DOI: https://doi.org/10.5752/P.2317-773X.2021v9n4p90-105

[3] Recomendamos o trabalho de pesquisa do colega Samuel Morancy desenvolvido na UNILA, acessível em : https://dspace.unila.edu.br/items/04b97e68-9ddd-4047-90ad-661b2ce6cb55

[4] Mais em: https://worldpopulationreview.com/country-rankings/countries-that-recognize-taiwan

[5] Livro recentemente publicado na China sobre a China da Era de Mao Zedong de Chen Jin (2018).

[6] Essa história está bem explicada em https://haitisolidarity.net/in-the-news/how-the-united-states-crippled-haitis-domestic-rice-industry/

[7] A Carta está disponível em francês em: https://transparans.net/actualites/haiti-une-lettre-ouverte-au-president-xi-jinping-pour-denoncer-lechec-de-lonu-et-les-menaces-de-genocide/

[8] Mais em https://pt.granma.cu/mundo/2024-10-22/marcos-nas-relacoes-bilaterais-entre-cuba-e-china

[9] Ambas as pesquisas são encomendadas pelo governo taiwanês e realizadas por consultorias.

[10] O Haiti é parte do g7+, um grupo de países que se consideram frágeis ou falidos; mais sobre essa discussão, recomendamos o livro apresentado por nós nessa resenha disponível em:  https://seer.ufrgs.br/index.php/ConjunturaAustral/article/view/134809

[11] Disponivel em: https://www.globaltimes.cn/page/202505/1334087.shtml

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