TODA CRIANÇA MERECE VIVER A INFÂNCIA PLENAMENTE

O que o desfile do estilista mirim Max Alexander na Paris Fashion Week revela sobre o trabalho infantil na moda

Na passarela, Max é exaltado como gênio mirim; nas lavouras e nas confecções milhões de crianças são invisibilizadas

A Paris Fashion Week é considerada o mais importante evento de moda do mundo. Desde 1973, duas vezes por ano, ela movimenta o tradicional epicentro da moda de luxo global, enquanto a mídia especializada volta seus olhares para os desfiles do prêt-à-porter e da Haute Couture. Grifes consagradas, como Chanel, Valentino e Dior, costumam dominar as manchetes e a atenção do público.

Mas, no segundo dia de desfiles da primeira edição de 2026, realizada entre 2 e 10 de março, uma marca estreante ganhou destaque. A Couture to the Max atraiu holofotes, não exatamente pelos looks apresentados, mas pela idade inusitada do seu “diretor criativo”, Max Alexander, de apenas 10 anos.

Nascido em 2016, em Los Angeles, Califórnia, Max começou a desenhar aos quatro anos, concluindo sua primeira coleção em 2021. Desde então, cria peças sob encomenda para uma clientela global e já vestiu celebridades como Sharon Stone e Debra Messing. Em 2024, aos sete anos, por ocasião do desfile de sua grife na New York Fashion Week, entrou para o Guinness Book. Agora, torna-se novamente recordista: é o mais jovem estilista a comandar um desfile na Semana de Moda de Paris. Esse feito estampou portais de notícias e redes sociais, e a tônica das matérias e comentários foi a exaltação de sua genialidade precoce.

Ainda que seja inegável a aptidão do menino para a criação de moda, tanto a mídia como o público parecem deixar escapar um elemento central nessa história: o trabalho infantil. Mesmo sendo trabalho criativo, o que Max faz é trabalho.

Esse ponto revela uma lógica essencial dessa indústria: no setor de moda de luxo, a figura do “gênio criativo” funciona como um poderoso ativo simbólico, capaz de conferir prestígio às marcas e impulsionar seus resultados comerciais. Longe de ser um conceito recente, essa construção remonta à consolidação da moda moderna, em meados do século XIX, com o surgimento da Alta Costura, quando os costureiros das maisons passaram a assinar suas peças.

A assinatura transformou o criador em autoridade e suas obras em produtos de distinção. Ao atribuir às peças o selo da autoria, esses profissionais elevaram o valor simbólico do seu trabalho, convertendo suas criações em itens “raros”, como observou o sociólogo francês Pierre Bourdieu em ensaio intitulado “Alta costura e alta cultura”. Assim, o mito do criador genial consolidou-se não apenas como expressão artística, mas também como estratégia fundamental para a lucratividade no mercado de luxo. Não por acaso, a fala de Max Alexander de que ele seria a reencarnação do fundador da grife italiana de luxo Gucci teve repercussão na imprensa.

Crenças religiosas à parte, o modo como diferentes formas de trabalho infantil são percebidas (ou deixam de ser percebidas) está diretamente ligado à divisão social do trabalho. Embora anterior ao capitalismo, essa divisão foi aprimorada e ganhou novos contornos com o advento da Revolução Industrial. O parcelamento do trabalho na manufatura fez com que o trabalhador perdesse o domínio sobre o processo produtivo como um todo. A segmentação das tarefas criou uma hierarquia entre trabalhadores qualificados e não qualificados, ampliando as desigualdades salariais. Assim, o trabalho manual foi desvalorizado, enquanto as funções de concepção ganharam prestígio, aprofundando a separação entre trabalho intelectual e trabalho manual.

Créditos: Creative Commons

Nessa hierarquia, o trabalho criativo ganha um lugar de destaque, como explica a socióloga Janet Wolff no livro A produção social da arte. Embora o trabalho artístico seja uma prática laboral como qualquer outra, ele ainda costuma ser tratado como uma atividade à parte, quase desvinculada da noção de trabalho. Essa distinção vem da ideia persistente de que artistas – e, contemporaneamente, designers e outros profissionais criativos – seriam seres dotados de um “gênio” especial, acima das pessoas comuns. Essa percepção tem raízes no século XIX, quando o romantismo elevou o artista a uma figura excepcional justamente no momento em que o individualismo e o capitalismo industrial ganhavam força.

Na moda, esse processo se manifesta da seguinte maneira: enquanto trabalhadores do “chão de fábrica”, como as costureiras, são desvalorizados, profissionais criativos, como designers e estilistas, são vistos como superiores, sobretudo quando próximos às instâncias de legitimação do mercado de luxo.

Para compreender plenamente como essa divisão se consolidou, é indispensável considerar também o colonialismo e a escravidão. Trabalhadores escravizados desempenhavam as atividades mais pesadas, enquanto colonizadores ocupavam funções de comando e gestão, instituindo uma hierarquia racializada entre trabalho manual e intelectual que depois seria naturalizada nas sociedades pós-coloniais. Além disso, o colonialismo impôs uma ordem global profundamente desigual que se mantém até hoje.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 138 milhões de crianças trabalham no mundo, em sua maioria no Sul Global. Muitas atuam na agricultura e, especificamente, na produção de algodão que abastece a cadeia global da moda. Em 2025, a Transparentem – organização sem fins lucrativos dedicada a investigar e expor abusos de direitos humanos e ambientais em cadeias de suprimentos – revelou que Adidas, H&M, Gap e Amazon estavam associadas à produção ilegal de algodão na Índia, com emprego generalizado de força de trabalho infantil e adolescente. Casos desse tipo são noticiados discretamente pela mídia de moda, até mesmo porque, frequentemente, envolvem importantes anunciantes. Assim, eles acabam não ganhando a comoção social proporcional à sua gravidade.

Com o desfile da Couture to the Max, na Paris Fashion Week, o trabalho infantil chegou ao topo da moda com ares de celebração midiática. Na passarela, Max é exaltado como gênio mirim; nas lavouras e nas confecções milhões de crianças são invisibilizadas. Enquanto elas sustentam essa cadeia exercendo trabalhos manuais exaustivos e mal remunerados, muitas vezes em condições análogas à escravidão no Sul Global, o trabalho do estilista prodígio sequer é reconhecido como trabalho.

Qualquer forma de exploração do trabalho infantil, seja nas plantações de algodão, nas oficinas de costura ou sob os holofotes das passarelas, deveria causar indignação. Toda criança merece viver a infância plenamente. Que Max, assim como as outras crianças, possa criar apenas por brincadeira.

 

Joana Contino é pesquisadora e professora no Programa de Pós-graduação em Economia Criativa, Estratégia e Inovação na ESPM Rio e autora do livro “A indústria da moda no capitalismo tardio: design, ideologia e relações de trabalho” (Rio Books / FAPERJ)

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