EL SALVADOR

O que significa o projeto de Bukelização do Brasil e da América Latina?

Em um pequeno território, a extrema direita brasileira e latino-americana procura se espelhar para conseguir publicidade e popularizar suas pautas para um público maior

O que é o projeto Bukele?  

Na campanha eleitoral para presidência é comum candidatos brasileiros fazerem referência à figura do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Quase todos, que estão mais à direita e à extrema direita do espectro político afirmam que poderão utilizar as ideias políticas implantadas naquele pequeno país centro-americano no Brasil.  

Na Colômbia, o recente presidente eleito, Abelardo de la Espriella, apareceu em imagens e vídeos nas redes sociais em frente a corpos enfaixados que foram alvejados pelas forças de segurança colombianas em sua guerra contra o “narcoterrorismo”. A espetacularização do combate à violência aos moldes de El Salvador. 

Localizada entre Guatemala e Honduras, o país caribenho possui uma área de aproximadamente 21.040 km quadrados, segundo dados da World Factbook (2005). Em termos comparativos, é o equivalente ao estado de Sergipe no Brasil, considerado o menor estado brasileiro em termos territoriais com 21.900 km quadrados.    

É nesse pequeno território que a extrema direita brasileira e latino-americana procurou se espelhar para conseguir publicidade e popularização de suas pautas a um público maior. Mas o que de fato esconde o discurso político do combate à violência por El Salvador?  

Crédito: PresidenciaSV/Wikimedia Commons

O perigo da espetacularização do combate à violência 

Desde 2019, quando Nayib Bukele assumiu a presidência da República em El Salvador, o país caribenho ganhou destaque pela aplicação de medidas de segurança que mesclam autoritarismo e punitivismo. Apesar da evidente quebra de diversos princípios legais do direito, o presidente salvadorenho tem sido conclamado como um expoente de sucesso no combate ao crime. Mas o que efetivamente fez Bukele em sua política de segurança?  

Ao assumir, o presidente salvadorenho lançou o “Plan de Controle territorial”, com a finalidade de recuperar os territórios dominados pelas gangues salvadorenhas. Segundo a justificativa da época, Bukele buscava asfixiar as gangues ao acabar com a circulação financeiras das propinas. Para tal, foram enviados 5.500 policiais para as capitais com índices maiores de homicídios.  

O resultado dessa política foi o aumento significativo de prisões arbitrárias e o aumento populacional dos presos nas cadeias. Inclusive, Bukele criou uma prisão com capacidade para 40 mil pessoas, o “Centro de Contención de Terrorismo”, a fim de garantir espaço para suas políticas arbitrárias de detenção em massa. Essa prisão é um dos “marketings” internacionais do país que tem sido visitado por políticos e líderes de extrema direita do mundo inteiro para conhecer suas instalações.  

A espetacularização do combate à violência trouxe resultados para a sociedade salvadorenha? É importante cruzar informações de segurança e sociais para entender até que ponto medidas punitivistas surtem feito. Por exemplo, em termos puramente securitários, houve a redução dos homicídios no país, mas esse índice não vem acompanhado da redução das desigualdades sociais, por exemplo.  

Ao olhar para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), El Salvador segue distante na posição de 132ª com 0,678, segundo dados do PNUD (2025). Noutros termos, embora a segurança seja um direito humano, em outros quesitos como renda, educação e saúde, o projeto de “Bukelização” é precário. Comparando com países da América Latina e Caribe, o país só fica à frente dos vizinhos Guatemala (116ª) e Haiti (166ª).  

Outro ponto a ser pensado em relação ao propagado “sucesso da redução dos homicídios” é se esse número oficial contou efetivamente as mortes denunciadas e não denunciadas, bem como se contou a participação estatal nas mortes e violações de direitos humanos em suas intervenções nas comunidades salvadorenhas. Quem pode frear o estado de “bukelização”?  

O produto final da “bukelização”: controle do judiciário, do parlamento e das eleições   

Para efetivar suas medidas autoritárias, Bukele recorreu a uma nova forma de golpe. Ao invés de recorrer a clássica utilização das Forças Armadas para fechar instituições, o presidente salvadorenho usou outra estratégia: o Parlamento. 

Em 2021, por meio de ampla maioria no Congresso, destituiu-se os juízes superiores e suplentes da Corte Constitucional, além do procurador-geral, sob justificativa de que não colaboravam com as medidas e atos administrativos na Pandemia. A disputa foi além de questões sanitárias, colocava o poder executivo contra o poder judiciário, um dos últimos expoentes de resistência às medidas excepcionais em El Salvador. 

Assim, o presidente conseguiu indicar juízes, suplentes e procurador-geral que estivessem alinhados ao projeto de “bukelização”. Logo, situações que envolvam desrespeito ao direito e as violações de direitos humanos estiveram sendo ignoradas, como tem sido de forma recorrente denunciado em organizações internacionais. 

Segundo relatório da Corte interamericana de diretos humanos, publicado em 2024, El Salvador vive um estado de exceção cujos direitos básicos foram violados. O relatório apresentou que cerca de 73 mil pessoas foram detidas, entre os anos de 2022 e 2023, de forma autoritária, com declaração de prisão preventiva. As denúncias e violações de direitos humanos incluíram detenções ilegais, invasão ilegal de domicílios, abuso no uso da força e violações contra crianças e adolescentes (Corte Interamericana, 2024).     

Após controlar o judiciário e o Parlamento, Bukele articulou o último eixo de sua estratégia de controle total do estado salvadorenho, a aprovação da reeleição presidencial por tempo indeterminadoA medida aprovada em 2024 garantiu que o seu projeto conseguisse se manter sem precisar de eleições justas e transparentes. Essa possibilidade foi alcançada a partir de uma interpretação elástica da Constituição pela Corte Superior de Justiça. 

Dessa maneira, o projeto de “Bukelização” conseguiu efetivar seu vigor autoritário ao trabalhar em duas dimensões. Primeiramente, garantido popularidade com medidas punitivistas contra as gangues locais, independentemente das violações de direitos humanos. Depois, o autoritarismo precisou ser garantido pelo domínio de todos os poderes do estado, especificamente o poder judiciário que poderia frear rubores ilegais e golpistas.    

 

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Pós-doutorando em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN). Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel).  Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula. 

 

Referências 

CORTE INTERAMERICANA. El Salvador – Estado de excepción y derechos humanos. OEA, 2024. Disponível em: https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/2024/Informe_EstadoExcepcionDDHH_ElSalvador.pdf. 

PNUD. Perspectivas sobre o desenvolvimento humano. Publicado em 6 de maio de 2025. Disponível em: https://hdr.undp.org/data-center/country-insights#/ranks. 

WORLDFACTBOOK. El Salvador. Disponível em: https://user.iiasa.ac.at/~marek/fbook/04/print/es.html.

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