ESPETACULARIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

O Rio, a Garota de Ipanema e a necropolítica

Os recursos do Estado devem ser usados com planejamento, inteligência e para buscar atingir os líderes e criminosos de “alto escalão” que atuam em toda a cidade em favor do crime organizado. Mas não é isso que se observa nos últimos anos na cidade do Rio de Janeiro. Há tempos o poder público promove várias ações semelhantes que não desmantelam as facções do crime organizado

O filósofo francês Michel Foucault desenvolveu o conceito de biopolítica que, em linhas gerais, é o modo como o poder moderno passou a se exercer sobre a vida das pessoas e das populações. Da biopolíticia, foi derivado o conceito necropolítica, cunhado pelo filósofo, historiador e teórico político camaronês, Achille Mbembede, na obra Necroplitics, de 2003. Em largos traços, a obra explica que no pós-Segunda Guerra, o Estado e/ou atores poderosos passaram a ter poder para decidir quem pode viver e quem deve morrer, ou mais precisamente, quem é mantido em condições de vida precárias, à beira da morte, ou quem deve morrer. É, em outras palavras, a política da morte.

Mbembe argumenta que o biopoder de Foucault é insuficiente para explicar as realidades de certas populações, especialmente em contextos pós-coloniais e de guerra. Ele propõe que, para muitos grupos, o poder soberano se expressa não pelo gerenciamento da vida, mas pela produção da morte ou pela exposição à morte. A expressão máxima da soberania reside, portanto, na capacidade de “inscrever os corpos na ordem da economia máxima da morte”.

Na última terça-feira, fim de outubro de 2025, o que o Brasil e o mundo viram em tempo real, pela TV e pelas redes sociais foi um exemplo claro de necropolítica. O governador bolsonarista Cláudio Castro disse: “Das vítimas, só tivemos quatro policiais”. O que é uma grande mentira. Já é sabido que, dentre os mortos, que passam de 130, há vários trabalhadores e pessoas honestas. Algumas pessoas morreram ou foram atingidas só por viverem em comunidades dominadas pelo crime organizado, por estarem na hora errada e no local errado e por serem negras.

A operação foi desastrosa. O ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, disse que quando há quatro policiais mortos, não há êxito em uma operação policial. Questiono a maneira como mais uma vez a Polícia do Rio de Janeiro agiu. Invade comunidades para capturar traficantes e as balas atingem quem estiver no caminho. Será que a maioria dos grandes líderes do crime organizado foi presa? Será que algum entrou em confronto com a polícia e foi executado? Quantos foram os mortos inocentes pela mão do Estado? Não há outro caminho?

Os recursos do Estado devem ser usados com planejamento, inteligência e para buscar atingir os líderes e criminosos de “alto escalão” que atuam em toda a cidade em favor do crime organizado. Mas não é isso que se observa nos últimos anos na cidade do Rio de Janeiro. Há tempos o poder público promove várias ações semelhantes que não desmantelam as facções do crime organizado. E devemos lembrar que, neste ano, Cláudio Castro, negou cooperação com a Polícia Federal.

E nesta triste e difícil semana, vemos pelas redes sociais e pelos sites a espetacularização da tragédia, com corpos empilhados, familiares aos prantos e políticos oportunistas em Brasília com seus discursos populistas parabenizando a apoiando a necropolítica praticada no Rio. Dos deputados que estão aplaudindo e que vi pelas redes sociais, todos são apoiadores do ex-presidente inelegível.

 

Cidade Maravilhosa

Fotografia do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. O céu está nublado, com muitas nuvens e o morro e o cristo sombreados.
Crédito: Rodrigo Soldon/Flickr

Eu nasci nos anos 1980 no interior de São Paulo e cresci com o sonho de conhecer o Rio. Tive a oportunidade de estar lá por duas vezes e ver suas belezas naturais e culturais e tudo aquilo que eu idealizava quando criança. Adorei conhecer o Leblon, a Barra da Tijuca, a Lagoa Rodrigo de Freitas. Fui com meu pai ver um jogo na antigo Maracanã. Um movimentado Fluminense × Criciúma no estádio que eu também havia sonhado conhecer. Conheci Niterói e a ponte sem fim que liga as duas cidades. Adorei ver as pessoas nas orlas e nos quiosques ao final do dia papeando, tomando uma cerveja ou uma caipirinha. Visitei o Pão de Açúcar. Como tudo aquilo foi maravilhoso.

Da segunda vez, fui a trabalho e fiquei só dois dias em Botafogo. Foi muito bom conhecer o bairro e passear a noite na praia com os colegas. Fiquei encantado e pensava: moraria aqui facilmente. Que cidade fantástica. Eu sabia que aquela região era privilegiada e que as comunidades carentes enormes eram de pessoas que trabalhavam em bairros como Botafogo, Copacabana, entre outros.

Voltando à viagem de adolescente. A experiência de conhecer o Cristo Redentor foi mágica. Subimos de carro, estávamos em seis pessoas, pois havíamos perdido a chave do nosso carro no primeiro dia da viagem. Rimos muito na subida e chegamos ao topo. Estava nublado, mas aos poucos o céu se abriu e pude ver lá do alto as lindas praias e a Cidade Maravilhosa. Vi também as comunidades e imaginava a dureza da vida por lá, do alto dos meus 14 anos. Olhava para Ipanema e lembrava da clássica e bela música de Tom Jobim e queria estar lá. Como tudo era belo e aquela cidade me encantava.

Hoje, me imagino lá no alto, ao pé do Cristo, observando a praia e o bairro de Ipanema, e só consigo imaginar que, entre tantas pessoas boas e interessantes, deve haver líderes do crime por lá, ou ao menos pessoas endinheiradas e influentes, “menos criminosas”. Olho para as mesmas comunidades carentes que vi há 25 anos e as cenas de horror desta semana me vêm à mente. Penso nas frases de políticos poderosos querendo aparecer e lacrar nas redes para conquistar apoio popular a partir da tragédia operada pelo governo do Rio de Janeiro.

Agora, a música que me vem à mente não é a da Garota de Ipanema, mas sim a música Problema Social, na voz de Seu Jorge. Só imagino tristeza e a dor das pessoas que perderam seus entes queridos, entre os quais, policiais e trabalhadores honestos. Não consigo imaginar a beleza das praias da cidade e muito menos de qualquer garota de Ipanema. Só imagino a garota do morro do Alemão ou da Vila Cruzeiro que perdeu um ente querido e também não consegue ver beleza, alegria e vida na Cidade Maravilhosa.

Seguiremos nossas vidas e, infelizmente, é difícil acreditar que em alguns anos tudo isso não se repetirá. Eu só queria estar sentado, agora, em uma cadeira de praia em Ipanema, vendo minha filha de 11 anos e meu filho de 9 brincando na areia e, assim como eles, não ter o conhecimento do que é Necropolítica, do que é milícia, do que é a espetacularização da morte. Só queria, hoje, ser o menino de 14 anos que um dia foi ao Rio e só conheceu as inúmeras e infinitas belezas da capital carioca.

 

Vinicius Ruiz Albino de Freitas é professor visitante na Universidade Federal do ABC (UFABC), doutor em Ciências Sociais pela UNESP e pesquisador em nível de Pós-Doutorado do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

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