O riso de nosso ridículo tirano - Le Monde Diplomatique

Podres Poderes

O riso de nosso ridículo tirano

por Fábio Zuker
25 de setembro de 2020
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Mais do que o riso de um ditador, Jair Bolsonaro traz estampado em sua face o prazer diante da tortura

Hesito entre qual imagem escolher. Mais do que ser difícil, me parece um exercício sem propósito. Tornou-se cotidiana a imagem de Bolsonaro às gargalhadas, genuinamente feliz, enquanto o país acumula cento e vinte mil mortes (no momento em que escrevo, e aumentando), a economia em frangalhos e uma incerteza quanto a tudo o que poderá vir pela frente.

Como estou em isolamento social, minhas relações se dão majoritariamente por telas. E por meio delas, desconheço alguém com uma presença tão feliz quanto a do presidente. Seu riso dissona do clima que paira no país, entre tristeza, luto e desamparo.

Imagens de ditadores rindo são pouco comuns. Adolf Hitler, Benito Mussolini ou Joseph Stálin não foram eternizados rindo: em suas fotografias, Hitler possui o olhar perturbado, intranquilo, algo raivoso; Mussolini, por sua vez, cria uma imagem de si mais bufona, lábios levemente franzidos para baixo, não raro com as duas mãos na cintura, como uma escultura; Stálin, por sua vez, possui um olhar mais calmo, como que friamente a espera do futuro que constrói pela violência, embora busque não deixá-la transparecer em seu rosto.

Frases e performances nazistas são frequentes no governo Bolsonaro – de Roberto Alvim emulando Joseph Goebbels à Secretaria Especial de Comunicação fazendo analogias com as frases que constam nos portões de Auschwitz. Mas Bolsonaro não se considera um neonazista. Cabe entendê-lo em seus próprios termos, nas suas relações afetivas. Cabe, portanto, compará-lo com aqueles que lhe agradam, que lhe servem de modelo de ação no mundo.

Humberto Castelo Branco, Marechal Costa e Silva, General Emílio Médici, General Ernesto Geisel e o General João Baptista Figueiredo são os cinco presidentes do período militar. Embora possam ser encontradas fotos deles sorridentes (notadamente o retrato de posse de Figueiredo) o que predomina são olhares tensos, uniformes militares, medalhas de condecorações e óculos escuros. Há algo de soturno e grave, sem espaço para risadas.

Entre os pares sulamericanos por Bolsonaro admirados, Pinochet talvez seja o mais expressamente exaltado. Bolsonaro lhe garante na história a função de ter evitado que o Chile se convertesse em uma nova Cuba. Assim Bolsonaro respondeu a preocupação de Michelle Bachelet, ex-presidente chilena e atual alta-Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanas, quanto a redução do espaço democrático no Brasil. “Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai”, afirmou Bolsonaro em setembro de 2019. As imagens que a história nos relegou de Pinochet também são as de um militar sempre tenso. Após dar o golpe, em 1973, sua fotografia icônica: sentado, de braços cruzados, óculos escuros, com alguns poucos militares atrás de si. A imagem procura criar a sua própria realidade, mais uma arma na guerra pela construção inequívoca da nova realidade criada pelo golpe. Mostra quem está no comando. Não podem restar dúvidas.

É difícil encontrar a correspondência entre o riso de Bolsonaro e outros ditadores, sejam eles europeus ou latinoamericanos. Seu riso aproxima-o, tal um lapso, de seu lado mais nefasto, embora nunca escamoteado por Bolsonaro: o riso de um torturador, daquele que goza com a dor alheia.

É possível identificar algumas formas de risos distintas em Bolsonaro. Não pretendo fazer uma taxonomia exaustiva. Mas acredito que apontar estes risos, e no que eles diferem uns dos outros, proporciona uma dimensão do fenômeno do Bolsonarismo.

Uma dessas formas emerge quando Bolsonaro sente que o momento lhe é oportuno para traçar distinções, ainda que fictícias, com governos precedentes. Seu sorriso denota algo como uma obviedade para ele, ainda que farsesca. Retiro o exemplo de uma de suas lives semanais de quinta-feira a noite, nesta, no final de julho, junto ao Ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas. Bolsonaro recebe um afago do jornalista Guilherme Fiuza (recuso-me a considerar a frase de Fiuza um questionamento), sobre o que estaria acontecendo na área de infraestrutura para que não se esteja mais falando em corrupção, como em governos anteriores. Antes mesmo do ministro responder, Bolsonaro ri. Não há qualquer pudor em ser um presidente atolado até o pescoço de inúmeros casos corrupção ao longo de sua vida pública e de sua família, e ao mesmo tempo se proclamar um paladino anticorrupção.

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, no Palácio do Planalto. (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Outro riso frequente é quando Bolsonaro se empolga, diante do público, com as suas próprias improvisações. Ao ver que há receptividade, que sua claque lhe dá corda, dobra as apostas, e segue. Mais um exemplo. Em visita ao Rio Grande do Norte, agosto de 2020, Bolsonaro dá início ao seu próprio show: “na política, eu sou imbrochável”. A multidão vai ao delírio. Ele contempla a reação, estudando o que dizer em seguida, e enquanto espera que os gritos de aprovação diminuam, abre o sorriso. Um sorriso largo, de canto a canto da boca. A plateia grita: “mito, mito, mito!”. O presidente então emenda, dedo em riste, fazendo o sinal de “não”. “Não é só na política não! Porque eu tenho uma filha de nove anos de idade”. A cena segue, plateia alimentando o discurso do presidente, o discurso inflando a plateia.

Existe também o riso que emerge quando Bolsonaro percebe estar em uma situação em que pode gerar uma escalada de tensão. Um exemplo que se repete: estamos em julho de 2018. Corrida presidencial. Renato Lessa, apresentando o programa Roda Viva, pergunta ao então candidato Bolsonaro, em um momento de entrevista pingue-pongue, o seu livro de cabeceira. Antes de responder, ergue a cabeça, um pouco de lado, com um leve sorriso: “A Verdade Sufocada”. O entrevistador então lhe pergunta o autor. O candidato Bolsonaro repete a pergunta, e então solta a sua gargalhada. Tenta explicar o que é o livro. O apresentador lhe questiona novamente o autor. Bolsonaro responde: Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sabemos, trata-se do temido torturador, ex-chefe do DOI-CODI. Também quando Bolsonaro vota o impeachment, exaltado, conclama Ustra, e, sob vaias, termina sua participação no teatro do impeachment, rindo.

“Diante do aparelho: os que saem vencedores são a vedete e o ditador”, escreveu Walter Benjamin. E o que nos proporciona Bolsonaro, com seu riso, é um espetáculo macabro.

E aqui chego a uma imagem precisa. Uma imagem-síntese. Bolsonaro quando faz o seu gesto-bordão, as duas arminhas com as mãos, está sempre sorrindo. Não um sorrisinho tímido, envergonhado, temeroso de algo horrendo a esconder. Mas um sorriso escancarado. Matar lhe proporciona, de algum modo, grande felicidade.

Faço um pequeno desvio, de uma cena que trabalhei com mais atenção em meu livro Em Rota de Fuga (Hedra, 2020), mas que vale a pena recuperar aqui, pois ajuda a entender a dimensão nefasta do projeto político de Bolsonaro. O filme O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer (2012) recria a matança em massa de indonésios chineses, que tem início com um golpe militar em 1965. Por suas origens étnicas, estes eram considerados comunistas. Estima-se que um milhão de indonésios de origem étnica chinesa foram mortos. O documentário coloca os próprios perpetradores deste genocídio para atuar, entre eles Anwar Congo. Em uma das cenas mais chocantes do filme, Congo encena como estrangulava, com um cabo de aço, aqueles a quem perseguia. É difícil assistir à reencenação como um todo. Mas é a frase que a ela se segue que mais choca. O homem que servira de ‘cobaia’ para mostrar como o estrangulamento ocorria, conclui, enquanto Congo dança e canta, que ele, Congo, é um homem feliz.

 

Tenho dificuldade de separar a imagem de Bolsonaro rindo, em pleno acúmulo de mortes por conta da pandemia de Covid-19 e o amontoar de corpos gerado por uma política anticientificista, da cena de Anwar Congo dançando ao exibir seu macabro ritual de morte

Não existe tirano melhor ou pior; todos se equivalem em sua vileza. O fato é que nosso mais novo ridículo tirano vê graça excessiva na morte de outrem. O deixar morrer lhe satisfaz.

Proponho terminar este texto escutando novamente Caetano Veloso em Podres Poderes:

Enquanto os homens exercem seus podres poderes

Morrer e matar de fome, de raiva e de sede

São tantas vezes gestos naturais

O riso de Bolsonaro é a naturalização doentia da morte, a transformação do matar e do fazer morrer em política de governo, da qual ele, prazeirosamente, ri.

Fábio Zuker é antropólogo e jornalista, autor do recém-lançado Em Rota de Fuga: ensaios sobre escrita, medo e violência (Editora Hedra, 2020)



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