O sionismo no centro da política internacional
A cultura humanista, internacionalista e pacifista do judaísmo, anterior à criação do Estado de Israel, foi radicalmente corrompida e ultrapassada
O Estado Nazista, que dominou a Alemanha durante doze longos anos, de 1933 até a sua derrocada em 1945, caracterizava-se por ser racista, expansionista e bélico. Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha passou por um processo acelerado de desnazificação. Nos currículos escolares, contudo, a história da Alemanha não ia além do final do século XIX. O estudo do Terceiro Reich só começou a ser introduzido nas escolas em 1959, em resposta ao renascimento de incidentes antissemitas na Alemanha. Em 1961, Hanna Vogt publicou Schuld oder verhangnis? (Culpa ou fatalidade? traduzido para o inglês como The burden of guilt, O peso da culpa), um texto escolar que se transformou em best-seller, na Alemanha.
Os judeus constituíam as vítimas por excelência do racismo nazista, que incluía os eslavos e todos os demais povos considerados não arianos. O lema nazista era Juden raus! Auf nach Palastina! (Judeus fora! Fora para a Palestina!). Desde 1933 – principalmente depois das Leis de Nuremberg de 1935, que classificavam os judeus como cidadãos de segunda categoria – intensificou-se a imigração judaica para a Palestina sob Mandato Britânico, habitada majoritariamente por árabes muçulmanos.
Entre 1936 e 1939, a Palestina foi palco da Grande Revolta Árabe, um levante nacionalista dirigido contra a crescente imigração judaica, facilitada pelas autoridades britânicas. A imigração ganhou um novo patamar após a Segunda Guerra Mundial. A acomodação dos judeus na Palestina era uma forma da Europa se livrar dos judeus sobreviventes, enquanto a criação do Estado de Israel era considerada uma reparação histórica pelo Holocausto e uma forma de proteger os judeus do antissemitismo.
Para os judeus europeus sobreviventes, alojados nos campos de refugiados dos países derrotados em 1945 – Alemanha, Áustria e Itália –, a Palestina era um sonho, a Terra Prometida. Mas a criação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, é lembrada anualmente pelos palestinos, em 15 de maio, como o Dia da Catástrofe, al-Nakba. O sonho dos judeus era – e continua sendo – o pesadelo dos palestinos. Enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados da Europa, os palestinos deixavam suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados da Cisjordânia, de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.
Frente à comoção do mundo pelo destino dos judeus durante o Holocausto, a violência perpetrada contra a população palestina nativa foi silenciada. O filme Exodus, baseado no romance de Leon Uris, contrapondo os judeus exterminados na Europa com os israelenses combatentes, teve enorme importância cultural e política, popularizando uma narrativa heroica da criação de Israel, que moldou a imagem do país para o público ocidental. O filme enaltecia os valentes novos judeus israelenses que ocuparam o lugar dos passivos judeus que se submeteram ao trabalho escravo nos campos de concentração nazistas e caminharam como ovelhas ao matadouro em Auschwitz.

Três gerações de israelenses, assim como de judeus da diáspora, viveram uma mentira, foram alimentadas e formadas ouvindo uma história gloriosa fabricada oficialmente pelo Estado de Israel e pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. E, por uma ironia da história, como se fosse uma herança nazista, ao longo dessas oito décadas, Israel tem-se caracterizado como um Estado racista, expansionista e bélico, em que os palestinos passaram a constituir os “judeus da vez”.
Israel é hoje um posto avançado da “civilização” ocidental contra a “barbárie” asiática, cumprindo o destino profetizado pelo fundador do moderno sionismo político Theodor Herzl em O estado judeu, escrito no final do século XIX. Em estreita associação com os Estados Unidos, a aventura de Israel em expandir o conflito para o Irã coloca o sionismo no centro da política internacional.
Na Alemanha, país que agenciou o genocídio judaico, críticas ao Estado de Israel e manifestações contra o genocídio palestino têm sido fortemente reprimidas. E os governos de direita no mundo inteiro se apressam em apoiar Israel. O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, mesmo antes da posse, anunciou que iria restabelecer as relações diplomáticas com Israel e transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém ocupada.
Jean-Paul Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência era a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Contudo, a cultura humanista, internacionalista e pacifista do judaísmo, anterior à criação do Estado de Israel, foi radicalmente corrompida e ultrapassada – menos de 10% dos judeus em Israel e na diáspora se consideram antissionistas. E, ao invés de proteger os judeus do antissemitismo, o genocídio do povo palestino fomenta manifestações populares em vários países do mundo contra o Estado que assume o papel de porta-voz tanto dos judeus israelenses como dos judeus da diáspora.
Embora eu seja palestino, tenho parentes judeus vivendo em Israel, de norte a sul. A maior parte destes parentes se considera sionista de esquerda – só um, desde sempre, mantém-se crítico ao sionismo. Outro dia recebi uma mensagem sua dizendo “Não achamos que as coisas vão ficar boas em Israel. Sei por que o mundo inteiro odeia Israel e concordo com eles.”
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Shulem.

