O STF, a extrema direita e a guerra silenciosa contra a multipolaridade
O julgamento de Jair Bolsonaro pode ser compreendido como o desfecho de um projeto político alinhado a uma corrente transnacional que, sob a bandeira do nacionalismo, buscou corroer a democracia e subordinar o Brasil a interesses externos
O julgamento de Jair Bolsonaro não é apenas um episódio judicial: trata-se de um termômetro político e geopolítico. Seu alcance ultrapassa o destino pessoal do ex-presidente e projeta-se sobre o futuro da democracia brasileira e sobre o lugar do país em um mundo marcado pelo avanço do protecionismo e pela disputa entre unilateralismo e multipolaridade.
A tentativa de golpe de Estado que motiva o julgamento ocorreu no rastro das eleições de 2022, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva. Sua vitória marcou a retomada da busca por autonomia estratégica, o fortalecimento do multilateralismo e a reconstrução da influência internacional do Brasil, especialmente por meio do Sul Global e do BRICS. Em contraste, a política externa de Bolsonaro seguiu a cartilha da extrema-direita internacional, alinhando-se de forma ideológica ao trumpismo e a governos conservadores, o que restringiu a soberania diplomática brasileira e reduziu sua capacidade de manobra no cenário internacional. O desfecho do julgamento simboliza, assim, o choque entre dois projetos de inserção externa: um subordinado ao unilateralismo estadunidense, outro ancorado na construção de uma ordem multipolar.
A crise política e institucional que culmina nesse processo não é um evento isolado. Ela se inscreve em uma disputa mais ampla, na qual o nacionalismo protecionista e a lógica autoritária confrontam a emergência de uma ordem multipolar e a afirmação do Sul Global como ator geopolítico relevante. O julgamento do STF aparece, nesse contexto, como reflexo de escolhas internas que reverberam para além das fronteiras nacionais, influenciando diretamente a posição do Brasil no xadrez internacional.

Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil
Não por acaso, a retórica nacionalista de Bolsonaro ecoava a de Trump: um protecionismo que, sob o pretexto de defender a soberania, buscava, na prática, subordinar países emergentes ao unilateralismo estadunidense. Como mostram as tarifas impostas inclusive ao Brasil, o trumpismo fez do comércio um instrumento de “guerra silenciosa contra a China e contra o próprio Sul Global” (Alfredo, 2025). Tal como Donald Trump, Bolsonaro construiu sua narrativa política a partir de um discurso nacionalista e antiglobalista, apresentando as instituições democráticas como entraves à sua agenda. Seu julgamento pode, assim, ser compreendido como o desfecho de um projeto político alinhado a uma corrente transnacional que, sob a bandeira do nacionalismo, buscou corroer a democracia e subordinar o Brasil a interesses externos.
Quando a justiça vira inimiga: uma estratégia transnacional
A ofensiva da extrema-direita contra os sistemas judiciários não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia transnacional de erosão democrática. O alvo central é enfraquecer o Judiciário, um dos últimos freios efetivos ao avanço de projetos autoritários.
Na Polônia, o partido Lei e Justiça (PIS) passou mais de quatro anos tentando controlar o sistema judicial, corroendo a independência da maioria de seus ramos (The Guardian, 2020). Criou uma Câmara Disciplinar com poder para demitir juízes ou reduzir seus salários por se manifestarem, acompanhada de campanhas de difamação contra magistrados independentes (Sadurski, 2020-2021). O custo foi alto: a União Europeia aplicou mais de 320 milhões de euros em multas, considerando tais medidas uma afronta ao Estado de Direito (Reuters, 2025).
Situação similar ocorre em Israel, onde a presidente da Suprema Corte, Esther Hayut, alertou que a reforma judicial proposta por Netanyahu “visa enfraquecer o Judiciário independente e ameaça dar um golpe fatal à democracia” (Ravid, 2023). Nos Estados Unidos, o ataque ao Judiciário é mais sutil: ocorre via nomeações ideológicas de juízes alinhados a Trump e por meio de retórica agressiva contra magistrados que desafiam seus interesses, minando o diálogo democrático (Tornberg & Chueri, 2025).
O padrão é claro: governos e movimentos de extrema-direita buscam capturar ou enfraquecer o Judiciário porque ele é um dos últimos contrapesos à expansão de projetos autoritários.
A guerra híbrida contra a multilateralidade
A guerra não é mais o choque entre exércitos. Ela se move nas finanças, na informação, na tecnologia e nas instituições internacionais. A chamada guerra híbrida é silenciosa, mas poderosa. Desinformação, fake news e ataques a instituições – Judiciário, Legislativo, imprensa – tornam-se armas para corroer a autoridade do Estado e moldar a opinião pública, no Brasil e no mundo.
A tentativa de aplicar a Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes exemplifica essa lógica. Um instrumento originalmente concebido para punir violações de direitos humanos foi transformado em arma política. O objetivo: enfraquecer o STF, intimidar juízes e criar um ambiente favorável a Bolsonaro, questionando a legitimidade de decisões que contrariam seus interesses.
O efeito, porém, ultrapassa as fronteiras nacionais. Pressionar a mais alta corte do país reproduz uma lógica de unilateralismo global: instituições nacionais subordinadas a interesses externos, autonomia comprometida, espaço para política externa independente reduzido. Essa ofensiva jurídica e simbólica integra uma narrativa global que busca fragilizar Estados periféricos e minar qualquer esforço de multilateralidade, corroendo os pilares de uma ordem internacional plural e multipolar.
Defender o STF é defender o futuro do Sul Global
A narrativa de que o STF é autoritário e age contra a liberdade é conveniente para quem deseja manter o Brasil como satélite geopolítico. Mas o que se esconde é uma disputa muito mais profunda: impedir o surgimento de uma nova ordem global mais justa, descentralizada e representativa.
Defender a democracia brasileira e suas instituições judiciais não é apenas preservar a soberania nacional. É também garantir que o Brasil se inscreva como protagonista de um projeto internacional capaz de romper a lógica colonial e financeira que há séculos aprisiona o Sul Global.
Maurício Alfredo é mestre em Educação, professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.
Bibliografia
ALFREDO, Mauricio – Geopolítica tarifária: O protecionismo de Trump e a guerra silenciosa contra a China e o Sul global. Le Monde Diplomatique Brasil, 23 de julho de 2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-protecionismo-de-trump-e-a-guerra-silenciosa-contra-a-china-e-o-sul-global/
RAVID, Barak. Reforma judicial de Netanyahu será “golpe fatal” para a democracia de Israel, diz juiz. Axios, Washington, D.C., 13 jan. 2023. Disponível em: https://www.axios.com/2023/01/13/netanyahu-judicial-overhaul-supreme-court-hayut.
REUTERS. Governo polonês busca aprovação europeia para reforma judicial. Reuters, 25 abr. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/polish-government-seeks-eu-approval-judicial-reform-2025-04-25/.
SADURSKI, Wojciech. O colapso da independência judicial na Polônia: um conto de advertência. Judicature, v. 104, n. 3, p. 58-63, 2020/2021. Disponível em: https://judicature.duke.edu/articles/the-collapse-of-judicial-independence-in-poland-a-cautionary-tale/.
THE GUARDIAN. ‘Declaração de guerra’: a disputa polonesa sobre a independência judicial se intensifica. The Guardian, 24 jan. 2020. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2020/jan/24/declaration-of-war-polish-row-over-judicial-independence-escalates.
TORNBERG, Petter & CHUERI, Juliana. O discurso político da elite tornou-se mais tóxico nos países ocidentaisV. ARXI, 28 de março de 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2503.22411.
TRT GLOBAL. A verdade por trás da tentativa de Netanyahu de reformar o judiciário de Israel. TRT Global, dez. 2024. Disponível em: https://trt.global/world/article/18245347.

