COPA DO MUNDO

Os franceses da seleção francesa: o “tipicamente francês” é ignorante

O debate em torno de identidades permanece mais aceso e incendiado do que nunca, e essa discussão não se restringe à seara futebolística e às suas seleções nacionais

“O mal que existe no mundo quase sempre vem da ignorância”. A frase é de autoria de Albert Camus e aparece no romance A Peste, livro canônico que pavimentou a trajetória do argelino, nascido em Orã e um dos mais renomados escritores francófonos, consagrando-o como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1957 e imortalizando-o no seleto panteão literário mundial.

Aliás, Camus mantinha uma relação muito íntima com o futebol, tendo atuado como goleiro do Racing Universitaire d’Alger. Os astros da seleção francesa Rayan Cherki, jogador do Manchester City, e Kylian Mbappé, atleta do Real Madrid, compartilham com o autor magrebino de “O Estrangeiro”, “O Mito de Sísifo” e “O Primeiro Homem” não apenas a paixão pelo futebol, mas também as raízes argelinas.

Entre os 26 convocados da seleção francesa, muitos possuem ascendência familiar oriunda de outros países. Ao mesmo tempo, 23 atletas nasceram na França, dado que desmonta a noção completamente estapafúrdia de que a equipe não representa adequadamente a diversidade, a pluralidade e o caráter multiétnico da sociedade francesa.

A França colonizou vários países mundo afora e seu colonialismo ainda ressoa no futebol, com a presença de 76 atletas nascidos no país disputando a maior competição futebolística do planeta por outras seleções. No total, são 99 jogadores de origem francesa presentes no torneio, demonstrando os efeitos da colonização no esporte, bem como nas famílias, idiomas e costumes.

A maioria desses jogadores, tanto os que atuam pela seleção francesa quanto os que representam equipes concorrentes, foi socializada, formada e se desenvolveu em território francês, cenário que revela o futebol enquanto fonte de promoção à ascensão social e acesso à dignidade e cidadania, condições que são negadas a muitos imigrantes que veem a Europa como um lugar de oportunidades.

O maior jogador da história do futebol francês é representante da diáspora argelina e bastante conhecido pelo público brasileiro, afinal Zinedine Zidane anotou dois dos três gols que arrasaram a seleção canarinho na final da Copa do Mundo de 1998 e, não satisfeito, repetiu atuação magistral na vitória francesa contra a equipe brasileira nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006, com direito a dribles e movimentos desconcertantes em duelos contra Kaká e Ronaldo, duas lendas que faturaram o prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA.

Foto: Reprodução/Instagram/@diariodetorcedor

Mas como Albert Camus, Cherki, Mbappé, Zidane e meu pai, que nasceu na Argélia antes de sua independência, alimentam semelhanças e elos que os aproximam? O senso comum, forjado através dos meios midiáticos e do discurso de personalidades influentes, consolidou e difundiu a noção de que França, franceses e francesas seriam identidades reservadas a certos estereótipos, obedecendo a determinados códigos de branquitude, elegância, sofisticação, sobrenomes com sonoridade associada a esse Hexágono, apelido conferido à França em razão de seu formato geográfico, Estado historicamente atrelado à noção de herança europeia e predominantemente católico.

O debate em torno de identidades permanece mais aceso e incendiado do que nunca, e essa discussão não se restringe à seara futebolística e às suas seleções nacionais. O tom, as vozes e as medidas contra os imigrantes têm se intensificado e arrebatado cada vez mais apoiadores desfavoráveis às políticas de imigração que proporcionaram mão de obra abundante, talentos esportivos em profusão, diversidade, pluralidade e multietnicidade a uma Europa e, especialmente, a uma França cada vez menos alva.

As escolhas dos esportistas binacionais, cidadãos que têm dupla nacionalidade, demonstram que, atualmente, não parecem bastar o status, a repercussão midiática, o sucesso esportivo e as compensações financeiras para determinar a equipe nacional pela qual o atleta deseja competir. Há também jogadores da mesma família optando por representar seleções diferentes, como o caso de Désiré Doué, que joga pela França, e Guéla Doué, que atua pela Costa do Marfim. As linhas parecem cada vez mais tênues entre identificação, afeição, dinheiro na mão etc.

O que não é delicado são as discriminações e preconceitos que sofrem imigrantes, filhos de imigrantes e franceses que não carregam consigo o arquétipo tradicionalmente disseminado de uma França homogênea e culturalmente uniforme, um país muito diferente do lema Black-Blanc-Beur (preto, branco e árabe), que se tornou símbolo da seleção “tricolore” campeã do mundo em 1998. E o futebol, não descolado da sociedade e seus dilemas, persiste como ferramenta de transformação social e instrumento pedagógico, afinal, como disse Camus, “Tudo o que sei com mais certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo ao futebol”.

 

João Camilo Sevilla é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Especialista em Política & Sociedade pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor estatutário na rede pública da educação básica de Niterói/RJ.

Leia mais sobre o tema: