Os laboratórios da esquerda italiana - Le Monde Diplomatique

OS RUMOS DA ESQUERDA

Os laboratórios da esquerda italiana

por Francesca Lancini
1 de novembro de 2011
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A partir dos anos 80, a Itália passou por mudanças: grandes indústrias foram decompostas em pequenas empresas, sindicatos cada vez mais divididos e desconectados dos partidos políticos. Desintegrado, o movimento operário perdeu aquilo que era sua força. Com a globalização, os novos trabalhadores ficaram sós e sem vozFrancesca Lancini

Nascido em 2007 da união dos progressistas de esquerda e dos católicos democratas, o Partido Democrata (PD) da Itália conta, quatro anos depois, com 700 mil membros e mais de 7 mil círculos.1 Em seus estatutos, ele se diz reformista, europeu e de centro-esquerda. Mas seus próprios partidários o acusam com frequência de ser nebuloso, conciliador demais e de se desinteressar pelos mais fracos. Em resumo, de ter renunciado ao sonho de mudar o mundo.

Se tantos trabalhadores, nos últimos anos, têm votado na Liga Norte, conhecida por suas propostas xenófobas, é porque a esquerda perdeu, pouco a pouco, o contato com as camadas mais desfavorecidas. Na reunião de um dos círculos do PD em Bréscia, Ugo Zecchini, de 68 anos, conta que a esquerda do passado era diferente. “Ela nos ajudava a nos percebermos como atores do renascimento do país. Nossa formação política iniciava na adolescência, com a entrada na fábrica e a inscrição no sindicato, que frequentemente coincidia com o momento de pegar a carteirinha no partido. A fábrica era nossa universidade. Por meio de assembleias, tomávamos consciência de nossa condição e daquilo que acontecia no exterior. Sentíamos de maneira bastante direta que podíamos sair da miséria e das desigualdades”, lembra.

Mas a partir dos anos 1980, Bréscia, assim como o resto da Itália, sofreu importantes mudanças: grandes indústrias foram decompostas em pequenas empresas, sindicatos cada vez mais divididos e desconectados dos partidos políticos. Desintegrado, o movimento operário perdeu aquilo que era sua força. E, com a globalização, os novos trabalhadores precários ficaram sós e sem voz. “Durante um ano, enviei cartas de candidatura para encontrar um trabalho, sem obter resposta”, confia Tommaso Gaglia, de 27 anos, formado em Literatura e que busca animar o círculo do PD em Bréscia organizando atividades culturais: “cine-fórum”, refeições multiétnicas, concertos etc.

“Nós, os jovens, não sabemos mais o que o futuro nos reserva, mas não devemos nos perder no individualismo. Desde a época do colégio, trato de política porque estou em busca de um caminho que permita concretamente mudar as coisas, como o fez a geração de Zecchini”, diz Gaglia.

O tempo das escolas de partido está bem longe. “Temos mais sorte que nossos pais. Estudamos e vivemos nossa juventude na bonança, mas não temos nenhuma formação política. O partido não investe o bastante nesse campo, e os lugares de encontro estão se tornando mais raros.”

O andar superior do círculo, que abriga escritórios especiais do PD, constitui um ponto em que se cruzam militantes e dirigentes, entre os quais Pietro Bisinella, de 45 anos, secretário regional e prefeito de uma cidade que se tornou símbolo da coexistência entre autóctones, indianos e paquistaneses que trabalham em propriedades agrícolas; ou Michele Orlando, de 35 anos, que administra uma cidade que é um bastião da esquerda e que, como os jovens quadros do PD, chamados rottamatori – “que levam para a sucata” –, aspira a uma renovação das instâncias dirigentes.

Uma das militantes mais ativas, Gloria Bargigia, de 29 anos, espera que esse rejuvenescimento afete também a base. “Meus pais eram socialistas e me transmitiram a paixão pela política, mas me sinto uma estrangeira. Entre as pessoas de minha idade, raros são aqueles que se filiaram a um partido. A ação militante continua a ser delegada aos mais velhos”, conta a jovem, antes de continuar sua distribuição diária de panfletos.

Em um café literário do centro da cidade, perto da universidade, os jovens do pequeno sindicato estudantil Sinistra per(literalmente, “Esquerda para”) pareciam mais confiantes. Eles cresceram depois da queda do Muro de Berlim e colocam suas esperanças em uma afirmação dos valores fundamentais da esquerda: é preciso “começar pela igualdade de condições iniciais”, explica Federico Micheli, estudante de Filosofia. “Como fazer para recompensar o mérito, base da democracia, se não temos todos as mesmas chances?”

O governo de direita atual dá pouca atenção à cultura, estima Micheli, que utiliza concertos, cursos de fotografia, festas, debates, jornais universitários e o Facebook para promover sua concepção da esquerda. “Às vezes me deprime ver que a defesa do bem comum não interessa aos jovens. Mas eu resisto, como dizia Antonio Gramsci, ‘eu odeio os indiferentes’.”

“Nos anos 1970, quando me tornei delegado sindical, pensava, ingenuamente talvez, que com a atividade militante eu poderia trabalhar para um mundo melhor”, declara Manuele Marigolli, secretário cinquentenário do Centro do Trabalho da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL). Ele ainda diz: “Sem a ação coletiva, sem o sentimento de pertencimento, sem a percepção da capacidade de fazer a diferença nas lutas, com a internacionalização dos mercados, os direitos trabalhistas estão cada vez mais ameaçados pela política e não desempenham nenhum papel”.

A secretária provincial do PD, Ilaria Bugetti, de 37 anos, afirma ter uma ideia clara do que é de esquerda: “A escola e a saúde pública, o acesso aos serviços essenciais, a integração dos imigrantes. Nos anos 1990, conhecemos um terremoto político pelo qual sofremos até hoje as consequências, com a crise das ideologias e dos partidos e a entrada de Berlusconi na política. Ele inventou um modelo social e introduziu o personalismo político, que faz o líder ter mais importância do que aquilo que é dito”.

Sentada em um café do centro da cidade, Ilaria se inquieta ao evocar a lembrança de um guia carismático de outro temperamento: Enrico Berlinguer, secretário do Partido Comunista Italiano (PCI) de 1972 a 1984, data de sua morte. É atualmente um dos dirigentes de esquerda mais saudosos. Apesar de seu caráter reservado, ele era estimado por sua visão de futuro, por sua paixão pela política e por sua estatura moral.

Em Coiano, o septuagenário Mario Bensi, pilar histórico do ativismo de um círculo do PCI que conta com 150 membros, avalia que este é um momento difícil para a atividade militante: “Até dez anos atrás, os ‘camaradas’ vinham aqui tomar café e se envolviam em discussões sem fim. Hoje, os partidos não estão mais em conexão com a população. Mais do que ideologia, são os valores que se perderam, a solidariedade, sobretudo. É o cada um por si. O berlusconismo2 está talvez bem dentro de cada um de nós. O primeiro-ministro, com sua política, suas televisões, suas leis feitas sob medida, conseguiu sufocar o senso crítico”.

O berlusconismo, entendido como culto da aparência e do bem-estar, espetacularização da vida e geração de apoiadores que mais parecem um público de espectadores de televisão, teria contaminado a esquerda de mais de uma forma.

A noite cai em Coiano e, sentados às mesas desse círculo gerido como se fosse um grande chalé de montanha, dezenas de idosos jogam cartas. Outros dão sequência a partidas de bilhar, enquanto os jovens do bairro veem uma partida de futebol na televisão. Depois do jantar, será projetado um filme sobre a deportação nazista e, no dia seguinte, uma refeição será oferecida a trezentos deficientes. Apesar das dificuldades, a casa do povo continua sendo um lugar de encontro importante, aberto também para casamentos da comunidade imigrante.

 

Nicola Vendola

Na Puglia, Sul da Itália, a esquerda sempre foi menos arraigada, mas, em 2005, ela chegou pela primeira vez ao poder, graças aos votos obtidos por Nicola Vendola – Nichi –, que exerce hoje seu segundo mandato como presidente de região.

Esse político, que assume abertamente ser homossexual e católico, tornou-se um dos atores mais populares da cena política nacional. Depois de sair da Refundação Comunista, ele criou, em 2010, a Esquerda Ecologia e Liberdade (SEL), um novo partido que se propõe a “contribuir para construir uma nova e grande esquerda na Itália e na Europa” e que, em novembro do mesmo ano, já contava com 45 mil membros e mais de quinhentas seções locais, as “Fábricas”.

Os princípios fundamentais da SEL funcionam por pares: paz e não violência; trabalho e justiça social; saber e reconversão ecológica da economia e da sociedade. Reconhecem-se nele os órfãos de uma Refundação enfraquecida, democratas de esquerda que não subscrevem a tendência do PD de deslizar em direção ao centro católico, movimentos altermundialistas e de uma esquerda mais radical.

Em Bari, a capital regional onde o militantismo em favor de Vendola criou raízes, a situação é oposta àquela que prevalece nos círculos do PD. Se em Bréscia se faz autocrítica, aqui é o entusiasmo que reina, sobretudo em relação ao líder. Entre os partidários mais ativos, encontram-se muitos jovens que militam na “Fábrica de Nichi”, um pequeno grupo com o nome do governador que, em menos de três anos, estendeu-se por toda a Itália e até mesmo ao exterior. Aqui, Vendola, que poderia apresentar sua candidatura ao posto de primeiro-ministro nas próximas eleições, é visto como um fenômeno totalmente novo.

“Nascemos enquanto comitê eleitoral em favor de Nichi, inspirando-nos no Organizing for America de Barack Obama”,3 explica Ed Testa, um artista canadense de 32 anos que trabalha na concepção gráfica da Fábrica de Bari. “Depois da reeleição de Nichi ao posto de governador, nós nos transformamos em novo laboratório de ativismo”, acrescenta outro homem de 30 anos, Roberto Covolo.

Na Fábrica, todos são voluntários, e não necessariamente filiados ao partido. A sede é acolhedora, clara e colorida. Todo o mobiliário é feito de material reciclado: armários de papelão, galões luminosos, latas de leite usadas como banquinhos. Cerca de vinte jovens, na maioria em seus 30 anos, passam a maior parte do tempo na internet para manter os contatos com as outras Fábricas.

“Nossa fan page conta 80 mil seguidores; a de Nichi, 400 mil. Mas há apenas cem inscritos para receber a newsletter da Fábrica de Bari.” Covolo reconhece que é difícil para ele, para os outros também, atrair novos militantes, sobretudo sem apelar ao rótulo “Nichi”, escrito nas camisetas, toalhas de praia e outras bugigangas. “Exploramos a dimensão positiva da personalização da política para atrair mais gente. Hoje, é mais fácil se reconhecer em um indivíduo que em referências culturais. Sem contar que Vendola é um homem corajoso, o que na Itália não é algo que se pressupõe.”

Os militantes são fascinados por sua capacidade de falar de política em uma linguagem calorosa e poética, que se revela ao mesmo tempo difícil e barroca. Em relação aos partidários do PD, eles se dizem mais laicos, mais ecologistas e mais ligados ao respeito dos direitos dos trabalhadores, mas suas atividades se destacam sobretudo na comunicação. O slogan otimista “Existe uma Itália melhor” é repetido como um mantra, ao ponto que se tem a impressão de estar em uma agência de publicidade. Seus propagandistas apresentam o vendolismo como uma novidade na vida da esquerda, mas os membros da Fábrica hesitam em esclarecer os conteúdos, os programas, uma estratégia de desenvolvimento do mundo.

Para Annalisa Pannarale, secretária regional de 35 anos, são grandes os esforços para integrar as mulheres e as jovens na vida política de um país velho e machista demais. Haverá, segundo ela, uma prioridade absoluta: o reforço das formas de energia renováveis que a Puglia exporta para o resto do país. A boa governança vendolista é igualmente associada ao confisco dos bens da máfia e ao crescimento do turismo.

Porém, nessa região, que está entre as mais belas da Itália em termos de patrimônio natural e artístico, grandes problemas persistem. O sistema sanitário, atualmente submetido a uma investigação da promotoria de Bari, atravessa uma grave crise,4 e o plano regional de contenção de gastos prevê fechar dezoito hospitais e cria descontentamento. Serviços de excelência correm o risco de desaparecer. Vários médicos continuam trabalhando com contrato precário e com tempo de repouso sub-remunerado. Os setores de urgência estão superlotados, e as listas de espera são intermináveis.

As políticas em favor da juventude, que os vendolistas apreciam, não têm em si quase nenhum efeito sobre a taxa de desemprego, que chega a 34% para a faixa etária de 15 a 24 anos. Os jovens que encontramos na cidade dizem não ter grande esperança: “Sim, conheço Vendola. Mesmo sendo de direita, ele me agrada porque é um bom orador. Não creio que haja futuro para mim nem aqui nem no Norte. Nós todos iremos viver no estrangeiro”, declara um adolescente reunido com amigos em um bar do centro.

Francesca Lancini é jornalista em Milão.



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