‘Ostentação da violência’: a brutalidade policial na greve da USP
Entre reivindicações por melhorias na permanência estudantil e uma greve que se arrasta por mais de um mês, estudantes denunciam violência da PM e dificuldades para se manter na universidade
Eram 4h15 da madrugada do Dia das Mães quando Olivia Maria Silva Dias, 28, deitada havia 20 minutos, foi acordada por gritos de estudantes que alertavam sobre a chegada da Polícia Militar na ocupação da reitoria da USP. No confronto que se seguiu, seu braço foi quebrado por um policial que a golpeava com um cassetete enquanto ela tentava se defender. “Eu não sei quantas pancadas foram necessárias para quebrar o meu braço, só sei que senti uma dor brutal”, relata, agora engessada e sob uso de opioide.
Mestranda em filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Olivia conta que tem tido pesadelos com o que viveu naquela madrugada. Ela classifica a ação da PM como uma invasão e rejeita a ideia de que houve uma reintegração de posse: “A reintegração de posse exige uma intimação. Isso não aconteceu.” O artigo 562 do Código de Processo Civil afirma que reintegrações de posse devem se dar por decisão ou mandado judicial; o artigo 212 estabelece que atos processuais ocorram em dias úteis, entre 6h e 20h.
A ocupação da reitoria ocorreu na tarde de quinta-feira (7), após o órgão declarar, em nota, o encerramento das negociações com os estudantes – em greve desde 15 de abril por melhores condições de permanência. Após três reuniões anteriores, foi proposto o aumento dos auxílios do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE): a bolsa integral subiu de R$ 885 para R$ 912, e a parcial, para alunos que vivem na moradia estudantil, de R$ 335 para R$ 340 – reajustes de 3% e 1,5%, respectivamente. Para os estudantes, o valor é insuficiente. Sem perspectiva de novas rodadas de negociação, os alunos convocaram um ato em frente à reitoria. Sem resposta, decidiram ocupá-la.

Luiza Lino, 21, que cursa o terceiro ano de artes visuais na Escola de Comunicações e Artes (ECA), mora no Conjunto Residencial da USP (CRUSP) e sobrevive com o auxílio financeiro parcial. No primeiro ano de faculdade, trabalhou na escala 6×1 para conseguir se manter; nos outros semestres, com grade integral, ficou difícil encontrar emprego, conta. Ela chegou a trancar duas disciplinas para fazer um estágio e aumentar a renda. Hoje, vive com os R$ 335 do auxílio: “Não dá pra comprar nada com R$ 335, não dá pra fazer uma compra, não dá pra guardar.”
Ela também descreve a precariedade da moradia. “A gente tem uma só cozinha, com dois fogões, sendo que só um deles funciona. Desse que funciona, só duas bocas funcionam, e mal. A gente não tem como cozinhar aqui”, diz sobre o bloco que divide com outros moradores. Luiza conta que o teto de seu banheiro está tomado por uma camada de mofo por causa de uma infiltração. Ela diz conhecer pessoas cujo apartamento recebe vazamento de esgoto de outros andares.
Dependente dos pouco mais de R$ 300 de auxílio, Luiza faz as três refeições diárias no restaurante universitário: “Eu sou obrigada a comer aqui, porque eu não tenho dinheiro para comer em outros lugares.” A comida da universidade, gratuita para quem recebe o auxílio, também é alvo de denúncias. A aluna diz já ter encontrado pedras e pedaços de papelão nas refeições do bandejão. Em vídeos e fotos virais nas redes sociais, outros estudantes denunciam larvas encontradas nos alimentos, além das enormes filas, que dificultam o acesso.
Nos dias que antecederam a ação policial, ocorreram atividades culturais nos arredores da reitoria. A banda paulistana Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo fez um show gratuito no sábado (9), em frente à ocupação. Houve aulas de artes marciais e uma oficina para ensinar a produzir leite de magnésia, usado para aliviar efeitos do gás lacrimogêneo. Uma programação de Dia das Mães, com atividades teatrais, rodas de conversa e almoço, estava marcada para o domingo (10), mas não ocorreu devido à retirada dos alunos. “A gente falou sobre trazer crianças pra cá. Esse era o nível da nossa discussão”, enfatiza Olivia sobre a pacificidade da ocupação.
A presença da PM foi constante durante o período de ocupação. Segundo Olivia, 30 minutos após a entrada dos alunos no prédio, os policiais já estavam posicionados com escudos e cassetetes – um deles portando um AR-15, um tipo de fuzil. A mestranda ressalta que os estudantes estavam desarmados e classifica a ação como assimétrica.
Representa uma ostentação da morte. Uma ostentação da autoridade, da violência.
Olivia Maria Silva Dias, mestranda em filosofia na FFLCH

No momento da desocupação, ao olhar para fora da barraca em que dormia, Olivia viu um destacamento da PM se aproximando da porta da reitoria, então derrubada. Os militares usaram lanternas de luz azul para desorientar as pessoas, escudos, cassetetes e chegaram a atear fogo em barracas de alunos que acampavam no prédio. Eles pediam para que se jogassem no chão e colocassem as mãos para o alto, “igual eles fazem com bandido”, ironiza. Muitos ficaram paralisados ou correndo de um lado para o outro, em pânico com a situação.
“Ele veio com tanta brutalidade que eu nunca senti uma dor como essa”, afirma sobre o momento em que um dos policiais a golpeou repetidamente com um cassetete, fraturando seu braço. Enquanto os alunos tentavam sair da reitoria, os policiais formaram uma espécie de corredor polonês, atingindo pernas e joelhos.
Após a ação, o SAMU foi acionado. Olivia chegou ao hospital três horas depois do ocorrido, por conta da demora do serviço e por ter cedido seu lugar na primeira ambulância a uma pessoa que estava desacordada, seu acompanhante e outra pessoa com o braço deslocado. Na UPA, ela afirma ter tido seu tratamento dificultado por ser uma das pessoas que estavam na ocupação: “Eu estava com meu braço quebrado e eles não queriam me dar medicamento. Queriam fazer um raio-X do meu braço, e o funcionário que realizava o exame pedia que eu o mexesse de uma forma que eu não conseguia.”
Questionada sobre o futuro das reivindicações, a estudante de filosofia afirma que, diante do ocorrido, os alunos “não têm mais nada a perder”, e que a greve deve continuar enquanto não houver novos avanços na permanência estudantil. Ela classifica a adoção de cotas sem uma política eficiente de permanência como “uma política para inglês ver”. “A gente quer uma medida de não punição aos estudantes que participaram da greve ou da ocupação”, ressalta. O Instituto de Física da USP publicou, na última sexta-feira, uma nota ameaçando cancelar o semestre letivo e as matrículas dos calouros caso as aulas não voltassem na semana seguinte. Luiza, de artes visuais, também acredita que a paralisação deve durar até que haja garantias reais. “Não são coisas muito absurdas que nós estamos pedindo”, diz.
Após manifestações tomarem ruas do centro e da zona oeste de São Paulo por aumentos nos auxílios financeiros e melhorias em moradia e alimentação nos dias 13 e 20, a reitoria convocou uma mesa de negociação para o dia 21, que terminou sem acordo. Uma nova rodada ocorreu nesta segunda-feira (25), sem avanços.
Pedro Lukas Costa é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.


matéria muito boa e informativa! triste a posição da reitoria.