Pelas barbas da Utopia: soluções marketeiras de última hora
A palavra “revolução” sempre carregou uma força singular na imaginação política e social
Apesar do seu primeiro sentido de volta completa em torno de um corpo celeste, o vocábulo “revolução”, por exemplo, impõe-se à historiografia e à ficção modernas principalmente porque designa a queda de um regime.
Nunca é demais lembrar que nem sempre quem escreve sobre revolução o faz por ter participado, por estar participando, ou por querer participar de alguma. Em todo caso, o sucesso desse termo é imposto pelo mundo não das ideias, mas das ações. Efetivamente, se filósofos, economistas, historiadores, literatos, sociólogos, cientistas políticos e até psicanalistas discorrem tanto sobre revolução, é porque quando a miséria da maioria da população de um dado lugar se transforma em calamidade, quando a opressão sobre ela beira o injustificável e o insuportável, a mente oprimida, sintonizada na tragédia, não consegue imaginar nada além da ruptura, e o corpo indignado, cansado de padecer, começa a agir.
Dá até para dizer que quando o despotismo come da dignidade alheia até o caroço, a desigualdade social ganha uma aparência diabólica. E como para curar os males de um diabo só os remédios de um deus, o olho da gente oprimida, mais pio que o da Virgem, passa a enxergar o fim da tirania não mais como o resultado de ações sociais concretas, mas como uma profecia, ou como um milagre. A história abre alas aí para o santo ou o profeta que apertará o botão do movimento das massas.
Tanto no espírito das populações quanto na pluma dos doutos, a “revolução” veste então o manto da “salvação”.
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No primeiro quarto do século XXI, face à aceleração microchípica da destruição pelo capital das condições de vida na Terra, o herdeiro que decide brincar de arte não pensa mais em figurar revoluções. No capítulo hi-tech do capitalismo, “revolução” virou sinônimo de “sectarismo”, portanto de coisa chata – e qualquer pessoa banal que já tenha comido à mesa de um herdeiro descolado sabe que o que ele mais execra é uma coisa chata.
Incapaz de conceber outro regime a não ser o que lhe dá privilégios, o premiado artista dos nossos tempos usa, portanto, seus recursos financeiros e técnicos não para questionar os destruidores, mas para figurar a destruição, que para ele é inevitável. Afinal, como o mundo no qual ele é protegido pela polícia é o melhor possível, fica claro na sua lente, na sua pluma e no seu pincel que a queda desse mundo só pode culminar na extinção do mundo todo.
É aí que, na ficção contemporânea, vinga a distopia, o mais barulhento xodó da burguesia. Há mais cartilhas sobre isso na internet que boas intenções no inferno. E todos os manuais apresentam variantes em torno de uma só definição: “cenário ficcional que serve como crítica social, alertando sobre os perigos do mundo atual”.
Na verdade, a distopia, que já nasce como um parque de diversões para amantes de fortes sensações, não alerta sobre nada, nem de longe nem de perto. Seja no cinema, na televisão ou na literatura, ela é a garantia de uma narrativa convencional, conformista, alinhada aos desejos do capital, na qual o roteiro é o patrão, e as produtoras são os únicos clientes. O espectador, ofegante, não passa de um junkie, à espera da próxima dose.

Em filigrana, age na distopia uma perniciosa propaganda de culpabilização geral. A ideia é simples. O mundo vai mal, e isso é culpa tua. Se não fazes nada, se ficas por exemplo aí sentado assistindo a uma série estadunidense no teu Home Theather comprado na última Black Friday, és cúmplice da extinção dos passarinhos, do furo da camada de ozônio, do derretimento do permafrost, da devastação das florestas, do extermínio das culturas, enfim, da destruição do planeta. É ótimo para os acionistas de Hollywood que o motorista de Brad Pitt se pense tão culpado pelo sofrimento das galinhas como o patrão do KFC. Nada mais normal que haja tantas centenas de milhões de dólares para essa moda narrativa.
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Admite-se por convenção que as distopias encarnam um estado evolutivo da velha Utopia, lugar fictício apresentado pelo jurista inglês Thomas More em A melhor forma de comunidade política e a nova ilha de Utopia, livro publicado em 1516. Bibliotecas inteiras estão à disposição de quem quiser saber mais sobre a produção e a recepção (mundial) dessa obra. A tentativa de trazer algo novo a respeito dela seria, portanto, desastrada e vã. Como os atuais vendedores de modinhas não sabem resumir nada, vale colocar uns lembretes contextuais.
Em análise que faz da Utopia, a professora Simone Goyard-Fabre, enfatiza: “More tem uma formação de jurista e é um homem da lei. Além disso, a ação e as ideias políticas o fascinam”. Sem falar que, assim “como Maquiavel, seu contemporâneo, ele é sensível ao realismo das situações políticas e econômicas, ao caráter dramático da condição social”. Quer dizer, “longe de procurar evasão em um alhures ideal, [More] constrói [na Utopia] a estrutura jurídica e social de um outro político”.
Quem presta atenção na trama de More, e principalmente em alguns detalhes da vida dos utopianos, enxerga a “propriedade comum das terras” da Ilha de Utopia, e uma “educação idêntica para os dois sexos”. Difícil não se comover. São dois traços fluorescentes de uma retórica libertária e emancipatória que podem fascinar mais de um hipster disfarçado de pensador. Brincadeira à parte, importa admitir que, nesse âmbito, as personagens de A Utopia encarnam uma certa disposição de More a criticar a ordem.
A amizade com Erasmo e as horas passadas com ele para traduzir os Diálogos de Luciano de Samósata tinham […] estimulado uma sensibilidade crítica que logo conduziu More a denunciar a impostura desses teólogos e desses monges que, faltando com a sua verdadeira vocação, destilam o veneno da superstição e dos milagres.
Decerto. Mas tomando por outro ângulo as precisões de Goyard-Fabre, vemos que essa amizade com Erasmo e essa atividade de tradução do ácido e viajado Luciano de Samósata também atiçaram no espírito de More o “fascínio pelo périplo extraordinário”. Ou seja, uma disposição à conquista, preponderante em certa classe social, seja naquele tempo, seja atualmente.
Já que o assunto é tempo, que ninguém esqueça que More nasce uma dúzia de anos antes que Cristóvão Colombo aborde as terras de Abya Yala (chamadas mais tarde de Américas). A professora Goyard-Fabre recorda nesse sentido alguns pontos da genealogia da Utopia.
More, a partir de 1510, juntou, instigado pelo seu amigo Erasmo, documentos e reflexões; durante sua missão na Flandres, ele botou ordem nas suas notas de trabalho, sem, no entanto, elaborar uma sequência de capítulos; durante o outono de 1515, em Bruges e depois na Antuérpia, tirando proveito das Viagens do navegador Américo Vespúcio ao Novo Mundo, ele insuflou ao seu texto original uma dimensão e um sotaque novos. É importante captar essa inspiração profunda para entender o sentido de A Utopia.
E não é só isso. Goyard-Fabre introduz que “o humanismo evangélico dos mestres de Oxford tinha, muito cedo, orientado More na direção dos defensores da fé”, e acha notável que “logo durante seus anos de estudo, More se tenha nutrido de um humanismo cristão que é uma mistura da sabedoria evangélica retirada dos Textos Sagrados ou dos Santos Padres e da sabedoria antiga, cujo modelo lhe era dado por Platão e pelo neoplatonismo”. Mas ela salienta adiante que More “não concebe a política na perspectiva dialética do conhecimento verdadeiro”. Afinal, estamos falando de um advogado com espírito de aventureiro (para não dizer de conquistador), e não de um filósofo.
A propósito, é bom não esquecer outros dois detalhes importantes da vida dos utopianos: a “elite dos sábios e dos magistrados”, e a “importância das leis”. Sem falar que, com ou sem Platão, nessa estória mirabolante, o jurista londrino “clama por um reino dos reis-filósofos”.
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É possível enxergar o engodo atual das distopias como mais uma confirmação do interminável sucesso da invenção retórica desse advogado britânico; ou, inversamente, como o resultado mais espetacular da crise das utopias teóricas dos séculos XIX e XX (ideologias calcadas no progresso, e na esperança que este último traria para a humanidade a paz e a união). De um jeito ou de outro, o fato é que uma fatia atual da burguesia, ávida por independência, já cansou de tantas distopias. Assim como as revoluções, elas ficaram chatas.
Na fila do iPhone, o bebê barbudo portanto muxoxa. Anda mais desassossegado com essas cenas de fim de mundo que Fernando Pessoa defronte a tabacaria fechada. Como a telinha não dá dica nenhuma, o barbudinho já não discerne cinema e guerra. Mas, para ele, pouco importa. Quando é chato é chato, e besta é quem não muda de canal.
É esse agente autoproclamado da nova palavra pública que, meio nostálgico, meio carreirista, promete-nos inovações tecno-utópicas.
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Perante os milionários da distopia, agitam-se os startupers da utopia. Nenhuma novidade. Na indústria cultural é assim: uns decidem, os outros lhes pedem dinheiro. Quando estão na mesma festa, tudo leva a crer que são da mesma laia, mas quando ouvimos de perto, percebemos as diferenças de sotaque.
São certos fidalguinhos, decadentes e gagos, vestidos com diplomas de brechó, que andam por aí balbuciando sobre a utopia umas asneiras instagramáveis. Talvez achem mesmo que estão prestes a parir alguma novidade a respeito do fogo ou da roda. Fato é que, o objetivo, como sempre, é vender – nem que seja um fanzine.
Vale mostrar de onde vem essa brilhante ideia de atualização da utopia.
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Professor de história do pensamento político na Universidade de Lausanne, Thomas Bouchet concentra suas pesquisas nos primeiros socialismos, nas formas e nas lógicas da contestação político-social, nas relações entre historiografia e ficção, e na utopia. Em 2021, pela editora Anamosa (Paris), ele publicou um ensaio, miúdo porém rico, intitulado Utopie.
Composto de nove curtos capítulos que passeiam pela história das utopias, o texto mostra com desconcertante clareza que a palavra utopia “nos fala da nossa relação com o mundo, com os outros, com nós mesmos; é um princípio de ação e uma abertura para outra coisa”.
Nesse sentido, o autor nos traz um apanhado; que seria cômico, se não fosse trágico.
Na Bélgica, […] o Utopia Hôtel garante – seu nome o atesta – uma estadia perfeita em todos os aspectos; a definição de utopia que figura no site do hotel (“representação de uma realidade ideal sem defeito”) está aí para tirar as últimas dúvidas dos turistas preocupados em fazer a melhor escolha. Na Turquia, e em outra escala, o complexo Utopia World não deixa a desejar: hospedar-se aí é realizar “um sonho que te permite sair da realidade para um mundo utópico onde todos os teus desejos se realizam. Amor, convivialidade e uma pitada de fantasia”. […] Nas estradas da Inglaterra circulam caminhões da empresa Utopia, especializada em artigos para a mesa. Nas ruas da Inglaterra, certas pessoas usam casacos English Utopia, feitos à mão (o que explica o preço altíssimo) e reconhecíveis pela logomarca – um balão. Em Alice Springs (Austrália), a loja Utopia Giftware comercializa artesanato aborígene. Em Santiago do Chile, o bar e restaurante Utopia garante um ambiente aconchegante. Em Paris, o sucesso da padaria Utopie não se desmente; a palavra-slogan orna tanto o frontão quanto os aventais pretos do padeiro e do pasteleiro, ambos barbudos.
E as ilustrações continuam, mas para evitar o plágio, tivemos que parar. Mentira: paramos pelo efeito da barba. Parece piada, mas é assim mesmo que está escrito no ensaio de Bouchet (tous les deux barbus).
Coincidência? Ou será que os bebês barbudos estão mesmo por todos os lados?
Seja o que for, fica mais que evidente que esse ar de maiêutica socrática que a pequena fidalguia urbana adota para falar de utopia é mais falso que nota de três reais. É tudo gato por lebre e nada há por debaixo dos panos. Nada sairá dessas festinhas, desses garranchos, desses balbucios a respeito das aplicações possíveis da obra de More ao contexto contemporâneo. (E que ninguém se espante caso os bebês barbudos comecem, em vez de More, a usar a forma latinizada Morus: é só mais um charminho do marketing independente.)
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Na realidade, as ideias marketeiras em torno de novas formas de utopia já ultrapassaram o cerco dos alternativos e independentes. Em janeiro de 2026, a Disney anuncia que a animação Zootopia 2 atingiu o marco histórico de um bilhão e setecentos milhões de dólares de receita. Ou seja, trata-se da animação mais rentável de todos os tempos, e o nono maior sucesso mundial da história do cinema.
Esse marco pertence antes de tudo aos fãs do mundo inteiro, cujo entusiasmo o tornou possível. Estamos incrivelmente orgulhosos dos nossos diretores Jared Bush, Byron Howard e Yvett Merino, assim como de toda a equipe dos estúdios de animação Walt Disney, por ter criado um filme que toca tão profundamente os espectadores do mundo inteiro. (Alan Bergman, copresidente de Disney Entertainment, janeiro de 2026.)
“Mundo inteiro” unido perante A melhor forma de comunidade política e a nova ilha de Zootopia. Parece uma miragem: uma das principais multinacionais do capital encarnando o sonho do mundo ideal. Como se não bastasse, o porta-voz do Bulldozer Cultural enche a boca para declarar que o capitalismo atendeu ao apelo do Manifesto do Partido Comunista: “proletários do mundo inteiro, uni-vos!
Nesse multiplex da grandiloquência, os proletários são convertidos em meros espectadores da Disney – que de quebra estão adorando a situação. Com um entusiasmo digno de qualquer revolução. Para além de espectadores, eles são “fãs”. Se ainda havia dúvidas sobre a dimensão essencialmente lucrativa do fanatismo, a franquia Zootopia as tirou. E o Bom-Lugar, thanks Disney, é não para os humanos, mas para os bichos.
A declaração de Alan Bergman deixa claro que as utopias entram no segundo quarto do século vinte e um com o pé direito. E assim como o lançamento do CD não extinguiu o LP, esse engodo novo das utopias não eliminará o das distopias. Simplesmente, começa uma nova concorrência (outro xodó do nosso regime atual).
E o herdeiro decadente, condenado finalmente a ser informado de tudo sobre tudo e a não entender nada sobre nada, cofia a barba cortada em ponta, ajusta a webcam, fala de novas utopias como se estivesse inventando a salvação, e ainda promete que se todo mundo aprendesse a preencher o formulário da Fundação de Fomento à Cultura, ninguém precisaria pagar passagem para a Ilha Ideal.
Diferente das revoluções, que são filhas da dialética, as utopias descendem de um livro, publicado em 1516 por um jurista londrino inspirado nos primeiros Padres e no aventureiro Vespúcio. Fácil conceber o devir revolucionário de um camelô do centro do Recife, de uma empregada doméstica da zona sul do Rio de Janeiro, de um frentista da zona oeste de São Paulo. Ao som da palavra “revolução”, as pupilas da gente que trabalha se dilatam. Mas, como o devir utópico não passa de uma invenção, elas são, sorry Disney, imunes à ilusão da “utopia”.
Afinal, esse Lugar-Ideal (que, além de insular, é também um Lugar-Nenhum) só circula na mente de quem – por não estar passando um troco, lavando um banheiro, enchendo um tanque – tem tempo e vontade de falar em praça pública, e pode fazê-lo. Em suma, a fixação do bebê barbudo nas utopias, no fundo, justifica-se da mesma maneira que o amor que ele tanto cultiva pelas distopias. Para esse herdeiro mimado, microempresário de si mesmo, é bem mais fácil figurar o fim do mundo ou um lugar-isolado (onde os bichos falam) que uma revolução ou, simplesmente, a queda do capital.
Diogo Santiago é formado em Educação, Letras e Literatura (Université Lumière Lyon 2), o recifense Diogo Santiago é tradutor, romancista, ensaísta e crítico literário. Em 2018, ele publicou na França Asinus Asinum Fricat, pequena seleção bilíngue de textos satíricos. De lá para cá, foram quatro livros seus no Brasil: O Polvo, Cinco fatias de uma dor urbana e Concatenação (Prosa); e Figuranistas (Verso). No primeiro semestre de 2026, a editora Urutau lança Rumores, sua nova coletânea de narrativas.

