Pelé: um tributo à paixão - Le Monde Diplomatique

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Pelé: um tributo à paixão

por Lilian Assumpção Santos
11 de janeiro de 2023
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A rigor, a admiração por Pelé prescinde justificativa. Basta recorrer à emoção das memórias do futebol, em testemunhos, retrospectivas e nas homenagens estampadas em jornais ao redor do mundo. Instala-se nostalgia até em quem não viveu o período de seu reinado em campo 

O falecimento de Pelé recorda sua grandeza e façanhas. Por outro lado, há quem conteste o alcance de sua adoração, evocando erros da vida pessoal. A figura do ídolo, por vezes, sofreu rejeições de cunho moral e político. 

A rigor, a admiração por Pelé prescinde justificativa. Basta recorrer à emoção das memórias do futebol, em testemunhos, retrospectivas e nas homenagens estampadas em jornais ao redor do mundo. Instala-se nostalgia até em quem não viveu o período de seu reinado em campo. 

Não obstante, mesmo ao procurar um sentido mais racional e político, ainda assim verifica-se um importante significado democrático do ícone Pelé, e do próprio futebol, quase sinônimos. Revela-se a pura emoção como um potente instrumento de realização social. 

A primazia da razão em detrimento da emoção por vezes classifica o futebol como fenômeno supérfluo, alienante, em contraposição à seriedade do intelectualismo. 

Trata-se de erro antigo pretender ignorar a emoção humana, conforme fundamentam críticos do estoicismo. Primeiro, porque é um equívoco querer extirpar as paixões, crendo em sua nocividade e insignificância. Segundo, porque é impossível fazê-lo. 

A paixão (páthos, para os gregos) é dado intrínseco ao ser humano; um dos objetos mais longínquos estudados pela filosofia. Designa as percepções da alma. Em concepção ampla, as paixões denotam emoções, como afetos e angústias, primeiramente provocadas por fatores ou agentes externos. Sente-se raiva em reação a uma ofensa, medo frente a um perigo. Em concepção estrita, a paixão é uma tendência forte e dominante, capaz de alterar a normalidade da vida mental. 

O estoicismo, doutrina filosófica originada na Grécia Antiga, pauta-se na rígida valorização do conhecimento e da lógica (logos). As paixões seriam tendências irracionais, que submetem as condutas humanas a sentimentos de prazer ou dor e, por isso, seriam um desvario, um desatino, um estorvo. O certo seria reprimi-las, evitá-las completamente, almejando indiferença para alcançar harmonia e ataraxia. A virtude estaria unicamente na razão, devendo-se afastar sentimentos e desejos. 

Friedrich Nietzsche sustentou ser uma negação da própria vida a tentativa de enfraquecer ou eliminar as paixões. Para o pensador, a apatia decorrente do estoicismo revela, na verdade, uma profunda fraqueza, pois rejeita, consequentemente, importantes pulsões, inquietações e vontades mobilizadoras das ações humanas. 

Nesse sentido, Hegel, em sua obra Cursos de Estética, proferiu a célebre frase “nada de grande se fez sem paixão”. O filósofo compreende serem as paixões vibrações afetivas fundamentais, constitutivas de uma personalidade, que tornam profundos os heróis shakespearianos. Servem para mover os seres humanos; isto é, para levá-los a buscas e mudanças, à perda e à glória. 

Pelé era um apaixonado. A obsessão pelo futebol e por sua carreira foi o cerne de sua vida. Não há notícia de nenhuma outra força que tenha desviado sua concentração. Uma icônica fotografia tirada em 1979 revela isso. Nela, Pelé está em campo e a camisa amarela marca em seu peito o suor em forma de coração. 

Traduzido pelo exercício de seu talento, Pelé transmitia ao público toda a euforia de sentimentos que só o futebol é capaz de proporcionar às massas. Conquistou o tricampeonato mundial e comunicou, assim, ao mundo inteiro, na singeleza de seu poderoso dom, o estabelecimento irrevogável de uma paixão universal. Foi mote à consolidação do futebol como fenômeno esportivo global. O mundo tornou-se, enfim, uma bola, na metáfora de Rubem Braga. 

Se algo o diferenciou de Maradona, além da inquestionável superioridade de seu futebol, é que o ídolo argentino era um apaixonado também fora de campo. Politizado, popular e atento a questões sociais. Intenso em tudo. Simbiose de jogador e torcedor. Veneravam-no não apesar das emoções, mas por causa delas. Guiado pelas paixões, como pelo vento, Maradona errou muito em sua vida pessoal. Como todo ser humano, era uma “errata pensante”, com a vênia de emprestar expressão de Machado de Assis. Nas palavras de Eduardo Galeano, “era o mais humano dos deuses”. Em seu país, estabeleceu a tese “la pelota no se mancha”. 

Nas histórias em quadrinhos, os super-heróis secretam sua identidade com disfarces, máscaras e esconderijos. Sob holofotes, eles são perfeitos: salvam o mundo. Por trás das cortinas, voltam à sua humanidade irrevelável. 

Criticavam em Pelé a inexistência do personagem fora de campo. Acusavam-no de demagogia, alienação política e até falta de carisma. Tremenda injustiça, por motivos diversos. Resultado do “complexo de vira-lata”, na conceituação de Nelson Rodrigues. 

A verdade é que o futebol de Pelé era tão assustadoramente magnífico, tão excepcionalmente distinto, que falava por si. Como um conotativo super-herói, ele possuía dupla identidade, preservando Edson Arantes do Nascimento. Pelé não deixava, todavia, de representar, por seu exemplo, a grandeza de todas as lutas populares latino-americanas. Foi um homem pobre e negro, de um país continental esquecido no terceiro mundo, responsável por usurpar ousadamente o cargo de rei. Elevou-se, perante um mundo preconceituoso, à maior categoria de veneração e sucesso. Dispensáveis maiores discursos. Era, com seu corpo, a própria materialização da bandeira antirracista. Com isso, apontou o Brasil no mapa, por meio da sua paixão pela bola, só pela bola, instrumento de seu trabalho, compulsão e arte. O Brasil nasceu para o mundo na Copa de 1958. Todos pararam para ouvir, para ver e para falar a então consagrada linguagem universal do futebol, sem precisar de nenhuma palavra. 

Foto: Wikimedia commons

Não demorou para Pelé começar a ser visto como um artista. Nelson Rodrigues assim afirmou: “Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: Como vai, colega?”. Igualando o rei da bola aos mais notáveis artistas da humanidade, mostrou que o esporte, sobretudo o futebol, compartilha função social semelhante à da arte e da cultura. 

Nietzsche entendia que a função da arte é existir para que “a realidade não nos destrua”. É tornar a rotina suportável. É dar sentido à própria existência. 

Nessa acepção, Fernando Pessoa, em seu famoso Livro do Desassossego, escreveu que a arte “livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis. (…) Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo”. 

Essa qualidade artística do futebol, que arrebata o espectador e estabelece com ele essa forte identidade, é descrita por Carlos Drummond de Andrade em sua poesia “Copa do Mundo de 1970”, quando expressa: “Sou o estádio de Jalisco, triturado de chuteiras, a grama sofredora, a bola mosqueada e caprichosa. Assistir? Não assisto. Estou jogando”. E prossegue: “Ninguém me prende mais, jogo por mil. Jogo em Pelé o sempre rei republicano; o povo feito atleta na poesia do jogo mágico”. 

Os gols monumentais de Pelé o tornaram um dos maiores ícones culturais de seu tempo. Dedicava-se a produzir o belo, como fazem os artistas. Suas performances eram aplaudidas até pela torcida adversária. O eleito gol mais bonito de sua carreira virou lenda, pois não foi filmado. A notícia espalhou como se um milagre tivesse ocorrido. Foi em 1959, no Campeonato Paulista, na partida entre Santos e Juventus. Aplicou quatro chapéus, incluindo um no goleiro, e finalizou de cabeça. Golaço sem precedentes e nunca mais reproduzido. No poema Futebol, Drummond descreve as tantas de suas astutas obras, como análises de arte: “São voos de estátuas súbitas, desenhos feéricos, bailados, de pés e troncos entrançados. Instantes lúdicos: flutua o jogador, gravado no ar”. 

No contexto do Brasil, o futebol é um canalizador de paixões. É em si metáfora para a vida. Não se trata de arte meramente circense, por suas acrobacias, mas uma verdadeira sublimação de união, estratégia, luta, enfrentamento, conflito, acaso, sorte. Assim como na vida, reside no futebol o imponderável, o imprevisível. Ganhar, perder, amar, sofrer. Não bastasse a história de vida dos jogadores brasileiros – pois a grande maioria ascende da pobreza –, a esperança está contida na própria definição das competições. Há, assim, um constante diálogo com a dura realidade da vida social brasileira. 

Ainda no fracasso do jogo se desabafam as dores cotidianas que fortalecem. Drummond o afirma em sua poesia “Aos atletas”: “eu, poeta da derrota, me levanto sem revolta e sem pranto para saudar os atletas vencidos (…) Hoje completos são os atletas que saúdo: nas mãos vazias eles trazem tudo que dobra a fortaleza da alma forte”. 

A canção dos Novos Baianos “Só se não for brasileiro nessa hora” retrata esse traço cultural: “Sigo jogando porque eu que sei o que sofro. E me rebolo para continuar menino. Como a rua que continua uma pelada. E a vida que há no menino atrás da bola…”. 

O rapper Emicida, em música mais recente, chamada “Obrigado, Darcy”, também expressa a importância do esporte no contexto do país, resumindo: “Sou um povo que tem como seu maior bem gritar gol”. 

De fato, os excluídos pela miséria do Brasil são incluídos na catarse do futebol. O futebol compõe o retrato do país e atua no campo do imaginário, no qual sonham as crianças. Atinge indistintamente, democraticamente, o povo. É arte acessível. Como um escape às cotidianas dificuldades, refaz as forças de um trabalhador depois da labuta diária. Por isso, valem as reivindicações dos amantes da bola por incentivos financeiros, por políticas públicas, por espaços coletivos, por auxílio aos jovens talentos, por ingressos mais baratos em estádios, pela valorização do futebol amador e fomento do futebol interiorano. São formas de realização dos direitos sociais ao trabalho, ao lazer, à recreação e à cultura. 

Drummond, novamente, ainda sobre a Copa de 1970, ilustra como o futebol unifica o povo brasileiro, atenua seu sofrimento e lhe dá dignidade: “É gooooooooool na garganta florida, rouca exausta, gol no peito meu aberto, gol na minha rua nos terraços nos bares nas bandeiras nos morteiros (…) De repente o Brasil ficou unido, contente de existir, trocando a morte, o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste, por um momento puro de grandeza e afirmação no esporte. Vencer com honra e graça, com beleza e humildade, é ser maduro e merecer a vida, ato de criação, ato de amor”. 

Paixão é vontade de potência, elementar e vital à humanidade. Garante mobilidade à vida. Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra afirma: “Este segredo a própria vida me confiou: ‘vê’, disse, ‘eu sou aquilo que deve sempre superar a si mesmo’”. Pelé era pura vontade de potência. Sua paixão pelo futebol e a comoção que provocava em quem o assistia foram capazes de mover e recriar o Brasil. 

Reduzir o futebol à mera futilidade é subestimar seu impacto em todos os âmbitos da vida brasileira, inclusive político e social. Ora, se a busca da felicidade é direito humano fundamental, se é o que dá propósito metafísico ao mistério da vida, havemos de reconhecer que nem o Estado, do alto da sofisticação de suas instituições, é capaz de promover tanta alegria, em escala nacional, quanto um só gol de Pelé. 

Paixão e razão coexistem. Ambas, juntas, fundamentaram grandes revoluções. A própria busca pelo conhecimento é impulsionada pelo desejo de conhecer a verdade. É importante viver conforme o logos, mas sem esquecer que o páthos é matéria constitutiva do nosso ser. 

A lógica, sozinha, pode ser deveras limitante. É de se valorizar mais as emoções; estas ensinam. Resgatemo-las. O sentimento de ser brasileiro deve ser construído pelas pulsões certas. Contemplar a excelência de Pelé, um dos brasileiros mais notáveis da história, retoma orgulho e definição à pátria. Emocionemo-nos. Cultuemos nossos símbolos. Defendamos a democracia como apaixonados. 

Se não creem nestas divagações, creiam nos nossos poetas do passado e do futuro: a paixão impõe-se. O futebol também, sob diversas perspectivas. Como a arte, eleva a alma, dá sentido à vida, desenvolve a sociedade e promove o bem-estar social. Exaltemos nossos verdadeiros mitos, no fiel significado do termo, desprezando a vulgaridade com que tem sido utilizado. São legítimas todas as reverências no falecimento de Pelé. Mais do que isso. É quase um dever cívico agradecer os serviços públicos prestados à felicidade do povo. A felicidade dignifica. 

Glória eterna ao Rei. 

 

Lilian Assumpção Santos é pesquisadora no Grupo de Pesquisa Sistema de Justiça e Estado de Exceção da PUC-SP e especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e Graduada em Direito pela mesma instituição. 

 

Referências  

GIACOIA JR. Oswaldo. Nietzsche x Kant. Ed. Casa da Palavra. 

HEGEL, G.W.F. Cursos de estética. Ed. EDUSP. 

LEBRUN, Gérard. O conceito de paixão. In: A filosofia e sua história. Ed. Cosacnaify. 

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou a Zaratustra. Ed. L&PM. 



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