Perigo amarelo na França? - Le Monde Diplomatique

A CHINA VAI ÀS COMPRAS

Perigo amarelo na França?

por Martine Bulard
outubro 3, 2016
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Os investimentos franceses na China são seis vezes maiores que os chineses na França. Porém, enquanto em Pequim ninguém se preocupa com uma “invasão europeia”, a cobiça oriental assusta diversos comentaristas em Paris. Esse fluxo de capital estrangeiro, seria impossível na presença de uma política industrial ambiciosaMartine Bulard

Depois de muito tempo invisíveis, os chineses adentraram o mundo dos negócios na França com grande destaque e enfrentando muitas críticas. Em poucos meses, colocaram as mãos em empreendimentos como o Aeroporto de Toulouse-Blagnac, o Club Med, a agência de viagens Pierre et Vacances, os hotéis Campanile e Kyriad, o clube de futebol FC Sochaux, o ateliê de moda Sonia Rykiel, a confecção Sandro, Maje et Claude Pierlot, sem falar dos 1,7 mil hectares de terras agrícolas em Indre… Só em 2015, foram investidos US$ 3,2 bilhões na França, duas vezes mais que em 2013. Devemos concluir que o perigo (amarelo) está em casa?

O entusiasmo do dragão asiático pelo galo gaulês é incontestável. Mas a realidade é modesta: os investimentos chineses acumulados representam apenas 2% do total de investimentos estrangeiros diretos (IEDs) na França, muito atrás do irmão inimigo japonês (6%), segundo dados da agência Business France.1 Embora a China esteja acelerando suas compras, ela ainda é um anão diante do campeão em todas as categorias de aquisições na França, os Estados Unidos, país que concentra sozinho um quarto dos IEDs.

Todos estão abalados em ver o famoso Club Med ficar sob o controle da bandeira vermelha, mas quase ninguém reclamou do desmembramento da Alstom, que permitiu à norte-americana General Electric assumir o controle de parte da alta tecnologia nuclear francesa,2 com consequências muito mais graves para a independência nacional.

Contudo, as ambições da China não devem ser tratadas levianamente. Irrisórios há vinte anos, hoje seus IEDs em escala planetária são quarenta vezes maiores, chegando a US$ 128 bilhões no ano passado, ou a US$ 249 bilhões, se incluirmos Hong Kong.3 O Império do Meio tornou-se o segundo maior operador mundial, atrás dos Estados Unidos (US$ 337 bilhões). Seu primeiro destino ocidental continua sendo os norte-americanos, mas a Europa passou a ser um dos alvos privilegiados, sobretudo o Reino Unido, a França e a Alemanha – líderes desde o início da década –, embora a Itália tenha ficado em segundo lugar em 2015, com a aquisição da gigante de pneus Pirelli pela ChemChina.

 

Gosto por marcas famosas

O desejo de ganhar o mundo não é nenhuma surpresa, vindo da segunda maior economia do mundo. Em um primeiro momento, esse desejo foi encorajado pelo governo, que criou uma série de instrumentos para realizá-lo. O banco de investimentos China Eximbank, por exemplo, fundado em 1994 para “prestar apoio financeiro a projetos” no exterior, hoje está estabelecido em Paris para se dedicar a negócios europeus e africanos. Desde 2006, as saídas de capitais são facilitadas, embora permaneçam controladas, e empréstimos são concedidos sem grandes problemas quando os projetos atendem aos critérios definidos pela Comissão do Conselho de Estado (governo) para a reforma. Além disso, fundos soberanos foram criados, entre eles a poderosa China Investment Corporation (CIC), que realizou seu primeiro grande golpe em 2007, conseguindo participação no famoso banco norte-americano Morgan Stanley…

Originalmente, a China voltou-se para a aquisição de recursos naturais, a fim de fortalecer seu abastecimento de energia e minerais, principalmente no continente africano. Ela entra agora em nova fase, focada nos países ocidentais. “A internacionalização dos grupos tornou-se uma prioridade nacional”,4 aparecendo com todas as letras nas metas oficiais do governo, como destaca a pesquisadora Geneviève Barré. Essa decisão estratégica no mais alto nível do Estado conjuga-se à determinação dos empresários de prosseguir em sua ascensão global.

Após a crise de 2007-2008, os investidores institucionais chineses perderam a confiança no sistema financeiro norte-americano, que era sua referência. Perceberam que comprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos para reciclar parte de seus enormes excedentes financeiros – as reservas cambiais variam entre US$ 3 trilhões e US$ 3,5 trilhões, em média, desde 2010 – não constituía uma segurança econômica no momento em que as taxas de juros flertavam com o nível zero. Soou o sinal da diversificação, incluindo a compra de dívidas europeias.

As famílias mais ricas e as empresas mais vigorosas acentuaram o movimento. Para as primeiras, colocar fundos no exterior é a melhor maneira de proteger seu patrimônio e precaver-se contra eventuais investigações em tempos de luta contra a corrupção. Assim se forjou discretamente uma nova “Chinatown” no coração de Paris. Ela não tem nada a ver com aquela que vemos no 13º distrito, com seus imigrantes e pequenos comerciantes. Essa nova Chinatown está instalada no Triângulo Dourado (avenidas Champs-Elysées, Montaigne e George V).5

Os grupos – públicos ou privados, uma fronteira nem sempre fácil de definir – também são vorazes. Eles “têm cada vez mais dinheiro”, conforme nos explicam no Comité d’Échanges Franco-Chinois (CEFC – Comitê de Trocas Franco-Chinesas), em Paris. O crescimento febril das últimas décadas permitiu aos chineses acumular colossais tesouros de guerra. E uma parte do dinheiro derramado pelo Banco Central para lutar contra a desaceleração (quantitative easing) encontra-se com mais frequência no exterior do que no investimento interno.

É impossível detalhar todas as operações realizadas em território francês, mas podemos discernir três razões principais: ganhar fatias de mercado por meio da obtenção de uma rede de distribuição, dominar uma marca e adquirir tecnologia ou know-how gerencial. “Não queremos aumentar o volume de negócios a qualquer custo, mas construir a marca Haier”,6 diz o diretor da filial francesa da número um do mundo em eletrodomésticos. O objetivo é o mesmo para a empresa de aparelhos de telecomunicações Huawei, criada em 1987 por um ex-coronel do Exército Popular e hoje a terceira maior do mundo. A companhia desembarcou na França em 2003 e estabeleceu parceria com a Bouygues e a SFR para difundir seus celulares, que avançaram muito. Além disso, como explica Yan Yufen, secretário-geral da Câmara do Comércio e Indústria Chinesa, a França oferece “mão de obra altamente qualificada e crédito fiscal para pesquisa (CIR) a todas as empresas”. A Huawei instalou quatro centros de pesquisa e desenvolvimento, e criou 734 postos de trabalho – sem que saibamos quanto dinheiro público embolsou.

Transformado em “fábrica do mundo”, o Império do Meio carece cruelmente de marcas capazes de seduzir os consumidores chineses mais abastados. Daí seu frenesi de aquisições de marcas de vestuário de luxo (Cerutti, Sonia Rykiel, Maje etc.); cosméticos (Marionnaud); produtos de prestígio, como os grands crus de Bordeaux, dos quais controla uma centena; e alimentos, especialmente leite em pó, já que o rótulo made in France permite vender a preço de ouro. E, claro, turismo de alto padrão (ver boxe).

São as aquisições de empresas industriais, porém, que estão no topo (43,2% do IED, de acordo a Business France), embora elas raramente façam soar as sirenes da mídia. Isso é notável no setor de energia: o fundo soberano CIC assumiu o controle de 30% da GDF-Suez (agora Engie), conseguindo acesso às tecnologias de tratamento de gás liquefeito; a Petrochina comprou a refinaria Lavera; a Taihai Yantai, uma das líderes do setor nuclear civil, comprou duas especialistas em transformação de metais e caldeiras para o setor nuclear (Manoir Industrie e CTI); além da parceria entre a Electricité de France (EDF) e duas empresas chinesas para a construção de reatores EPR em Hinkley Point, no Reino Unido.

Focadas em alta tecnologia, infraestrutura, transporte e produtos químicos, mas sem esquecer outros setores sempre que surgem oportunidades, as incursões realizam-se principalmente por meio da compra de empresas em dificuldade – mas não podres. Em plena tormenta financeira na Peugeot, a gigante de automóveis Dongfeng adquiriu 14% do capital da companhia, obteve direito de observação no centro de pesquisa em Xangai e continua de olho nos 14% detidos pelo Estado francês.7 À beira da falência, a maior fabricante francesa de máquinas de perfuração de túneis, a Neyrpic Framatome Mécanique (NFM), passou para o controle do grupo Northern Heavy Industries (NHI), que conta com um enorme mercado na China, cujas cidades crescem como cogumelos. Uma das joias francesas dos motores marítimos, a Baudoin, que vinha perdendo velocidade desde sua aquisição pelo fundo de investimento francês Axa Private Equity, foi comprada pela Weichai. Há ainda os tratores McCormick, comprados pela número dois chinesa Yto, que repatriou para seu país parte do know-how para produzir tratores de baixo e médio padrão, e relançou a fabricação francesa. Essas empresas conseguiram superar as dificuldades. Em outras palavras, as produções consideradas úteis pelos investidores chineses seriam indignas do gênio francês?

A falta de visão industrial de longo prazo é notável no caso da Rhodia, que teve suas duas fábricas e seu centro de pesquisa, abandonados pela Rhône-Poulenc, passados para o controle da ChemChina. “A chegada dos chineses [em 2007] nos preocupou”, reconhece Jean Granjon, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), o principal sindicato da empresa, transformada na Bluestar Silicones. “Especialmente porque no início seu projeto era reconstruir de forma idêntica a planta de Saint-Fons na China. Até o momento, isso não aconteceu.” Oito anos depois, ele é obrigado a constatar: “A ChemChina investiu, ao passo que a França e a Rhône-Poulenc não faziam isso havia anos. Ao contrário dos antigos proprietários, há um projeto industrial de desenvolvimento de silicones e a ambição de tornar a Bluestar Silicones o terceiro player do mundo”. Atualmente, vigora uma repartição do mercado: a produção de alto padrão das fábricas francesas é vendida na França e na Europa; a produção chinesa, na China e nos países emergentes. Mas será sempre assim? Quem paga a orquestra decide a música. Quanto ao grande empresário Ren Jianxi, embora membro do Partido Comunista Chinês, é bastante improvável que ele seja sensível ao internacionalismo proletário e à solidariedade para com os trabalhadores franceses.

 

Valls vende a desregulamentação

Para os assalariados, a chegada do capital chinês não mudou a vida cotidiana. “Nós nunca vemos os proprietários, que deixam os líderes locais à vontade, e continuamos lidando com os mesmos métodos de gestão de antes, extremamente duros”, destaca Granjon. É verdade que o número de empregos subiu (820 pessoas, contra 790 oito anos atrás), mas a carga de trabalho se intensificou, e, em julho, um trabalhador morreu em um incêndio. A nacionalidade não fez diferença para o caso. Tanto ontem como hoje, “o trabalho é feito em detrimento da segurança”, avalia o sindicalista.

Outras aquisições se transformaram em pesadelo: Zhang Guohua, que fez promessas fabulosas aos empregados para controlar a líder europeia da madeira compensada Plysorol, então em liquidação, cobiçava na realidade seu tesouro de guerra, 600 mil hectares de floresta no Gabão – o processo por abuso de bens sociais ainda está em curso; a Shanghai Electric Group (SEG), que comprou a fabricante de impressoras offset e rotativas Goss International, apressou-se a fechar uma das fábricas francesas (Montataire) após truques jurídico-financeiros para evitar o pagamento de licenciamentos. Essas práticas inaceitáveis não são uma especialidade chinesa. Mas o que importa é quanto a França é capaz de proteger sua indústria.

No entanto, as operações são conduzidas com o incentivo das próprias autoridades francesas. A aquisição da Rhodia foi assinada na presença dos então presidentes da República Jacques Chirac e Hu Jintao. Foi no Élysée, sob os aplausos de François Hollande, que a Peugeot abriu seu capital para a Dongfeng. Em sua viagem para Xangai em janeiro de 2015, Manuel Valls estava dedicado a “vender a França”, declarando, como homem de esquerda convicto: “A imagem de que é impossível operar na França é falsa”. E completou: “A proteção do emprego é maior na Alemanha do que na França”,8 como se ele não tivesse nada a oferecer além da desregulamentação do trabalho. Aliás, isso não impediu que os chineses comprassem, em julho, a maior fabricante alemã de robôs, a Kuka, e a gigante suíça dos pesticidas e setor agroalimentar, a Syngenta.

Do ponto de vista chinês, esse enorme apetite é compreensível: é a forma de adquirir tecnologias mais rapidamente do que investindo em seu próprio país. Surpreendente é o laissez-faire dos líderes franceses (e europeus) – parece que eles abriram mão definitivamente de qualquer ambição industrial inovadora.

BOX

Dos palácios ao Aeroporto

Sócio do Club Med há muitos anos, o conglomerado de Xangai Fosun acabou por absorvê-lo. E tenta adquirir, na sequência, a Compagnie des Alpes e suas concessões nas maiores estações de esqui (Les Arcs, La Plagne, Serre Chevalier). Seu objetivo? Atrair a clientela chinesa no próprio país, onde o turismo explodiu e um Club Med deve abrir em breve; e no exterior, onde 120 milhões de chineses passaram férias em 2015, particularmente na França, principal destino no Ocidente.

A França é um campo de batalha para os operadores chineses. Além do consórcio Fosun, o grupo hoteleiro Jin Jiang adquiriu a Louvre Hôtels (Kyriad, Campanile, Première Classe) e levou, para surpresa geral, 15% da Accor (Mercure, Ibis, Novotel), sem esconder seu desejo de ir mais longe; a Kai Yuan conseguiu o hotel cinco estrelas Marriott da Champs-Élysées, em Paris; a companhia Hainan Airlines conseguiu uma parte da Pierre et Vacances e levou 10% do capital da Center Park, e também adquiriu a companhia aérea de baixo custo Aigle Azur, depois a Servair, filial de restauração da Air France.

Mais espetacular ainda, a Casil Europe1 apropriou-se do Aeroporto de Toulouse-Blagnac, perto das pistas de teste da Airbus. Ela não só aproveitou a privatização do aeroporto para levar 49,9% do capital, como ainda Manuel Valls e Emmanuel Macron concederam-lhe um pacto de acionistas fora das normas, que permite aos proprietários chineses, minoritários, comandar.2. Seguros de si, os acionistas chineses ainda quiseram apropriar-se de uma parte dos fundos do aeroporto (70 milhões de euros), alegando, menos de um ano após sua chegada, o pagamento de 20 milhões de euros em dividendos.

1 A Casil Europe é majoritariamente constituída pelo grupo chinês Symbiose (que inclui o Shandong High Speed Group e o Friedman Pacific Investment Group) e pelo grupo canadense SNC Lavalin.

2 Revelações de Laurent Mauduit, “La scandaleuse privatisation de l’aéroport de Toulouse-Blagnac” [A escandalosa privatização do Aeroporto de Toulouse-Blagnac], 28 nov. 2014. Disponível em: www.mediapart.fr



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