Petróleo e paranoia - Le Monde Diplomatique

TEORIAS PARA EXPLICAR A QUEDA NOS PREÇOS

Petróleo e paranoia

por Pierre Rimbert
1 de abril de 2015
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A espetacular queda do preço do petróleo desde junho de 2014 tem empolgado os amantes de teorias maiúsculas. Os dados do problema? O preço do barril, que desde 2011 girava em torno de US$ 110, caiu em março de 2015 para um patamar entre US$ 50 e US$ 60Pierre Rimbert


E o gênio teve uma ideia. Pensando no Irã e na Venezuela, Thomas Friedman, colunista do The New York Times, concebeu, em 2009, a “Primeira Lei da Petropolítica” – com maiúsculas: “Nos países ricos em petróleo, o preço do petróleo bruto e o passo das liberdades seguem sempre em direções opostas”.1 Atenção, esclarece Friedman, uma física particular aplica-se a alguns gentis países com uma bela produção do recurso: “Reino Unido, Noruega e Estados Unidos, por exemplo, escapam à Primeira Lei da Petropolítica”.

Embora sem soprar grandes ventos de liberdade sobre Riad ou Moscou, a espetacular queda do preço do petróleo desde junho de 2014 tem empolgado outros amantes de teorias maiúsculas. Os dados do problema? O preço do barril, que desde 2011 girava em torno de US$ 110, caiu em março de 2015 para um patamar entre US$ 50 e US$ 60. Os analistas previram caos no Oriente Médio e retração da produção norte-americana para sustentar o preço; e quebraram a cara. Em primeiro lugar, o crescimento, em desaceleração na China e nulo na Europa, limitam a demanda por hidrocarbonetos. Em segundo, a oferta global cresceu mais que o esperado: salto de produção na Líbia no verão local, manutenção das exportações iraquianas, frenesi de extração nos Estados Unidos, onde a exploração de gás de xisto bate recordes. Redução da demanda, aumento da oferta: a queda dos preços parece ditada pela aritmética do mercado. No entanto, ela também se inscreve num contexto geoestratégico que suscita especulações sobre as intenções ocultas dos atores desse drama.

A começar pela Arábia Saudita, líder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que na década de 1980 assumiu o papel de regulador do preço mundial. Ali al-Naimi, ministro saudita do ouro negro, observa impávido a degringolada dos preços; em uma reunião da Opep no dia 27 de novembro, ele recusou-se até mesmo a reduzir as metas de produção do cartel. Dissecada com lupa, essa passividade logo foi alvo de interpretações impressionantes. Em 10 de outubro, a agência de notícias turca Anadolu transmitiu a avaliação de um analista saudita segundo a qual, oficialmente, seu país vende petróleo a preço de banana para conservar sua fatia de mercado, mas oficiosamente “A Arábia Saudita quer que o Irã ceda na questão nuclear e que os russos repensem o apoio ao regime sírio.” Muito rapidamente, o influente site de informações Zero Hedge associou a transmissão turca à existência de um “acordo secreto” entre sauditas e norte-americanos: em sua visita a Riad, no dia 11 de setembro de 2014, o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, teria aceitado uma participação maior de seu país na luta contra o presidente sírio, Bashar al-Assad; em troca, o rei Abdallah teria endossado a campanha de bombardeio ocidental contra a Organização do Estado Islâmico e comprometido a Arábia Saudita em uma guerra de preços contra a Rússia e o Irã, dois aliados do regime sírio.2

Mas a falta de entusiasmo dos norte-americanos para derrubar Al-Assad fez os analistas reorientarem a hipótese. “[O governo Obama] quer dobrar Teerã a respeito do programa nuclear. Quer que Putin bata em retirada no leste da Ucrânia. […] Com a ajuda de seu aliado saudita, os Estados Unidos baixam os preços, inundando de petróleo bruto um mercado já saturado. Como russos e iranianos são exportadores de petróleo, fica mais fácil negociar com eles”, escreve Larry Elliott, jornalista econômico do The Guardian (9 nov. 2014). No caso, descobrir quem se beneficia com o crime não ajuda muito a encontrar o culpado: China e Índia, grandes consumidores de hidrocarbonetos, são os primeiros a se favorecer com o preço baixo.

Mas o petroleocentrismo, na análise das relações internacionais, não carece de fundamentos históricos. No século XX, os dirigentes franceses, britânicos, alemães, norte-americanos e russos trabalharam incansavelmente, nos bastidores ou em público, para controlar essa energia fluida e flexível. Os fluxos de hidrocarbonetos reorientaram o comércio, reconfiguraram o sistema monetário, redesenharam muitas fronteiras. Tantas fortunas, golpes de Estado, ditaduras e intervenções militares fermentaram à sombra das torres de perfuração que a interpretação petrocausal impõe-se como escrita automática. O petróleo fascina e “desperta toda sorte de fantasmas sobre seu suposto papel na agitação política e na eclosão de conflitos armados”.3

Assim, a queda dos preços de 2014-2015 repetiria o cenário do “contrachoque” do petróleo de 1985-1986: na época, a Arábia Saudita abriu as válvulas e fez os preços despencarem. O movimento fora ditado pelos Estados Unidos, a fim de estrangular a economia soviética, já sem fôlego pela corrida armamentista. Três décadas depois, Putin não descarta que a história se repita. “Há quem fale de uma conspiração entre Estados Unidos e Arábia Saudita para punir o Irã, deprimir a economia russa e abalar a Venezuela”, disse em dezembro. Mas logo amenizou sua afirmação: “Mas também pode ser uma batalha entre produtores tradicionais e produtores de gás de xisto” (Tass, 18 dez. 2014).

Isso porque o colapso do preço alimenta um segundo cenário: o de uma manobra saudita contra os norte-americanos. Em 28 de novembro, um despacho de Viena, onde a Opep se recusou a sustentar o preço, relata que “o ministro saudita do petróleo disse aos colegas da Opep que eles devem lutar contra o boomnorte-americano de gás de xisto” (Reuters, 28 nov. 2014). O inimigo não estaria, portanto, na Sibéria ou em Teerã, mas em Dakota. “A Arábia Saudita acha que a lei do mercado acabará dobrando os pequenos yankees, que produzem a custos três vezes superiores aos da Península Arábica”, detalhou o Le Monde(22-23 de fevereiro de 2015).

Essa hipótese desdobra-se em outras duas. Para Jacques Attali, “a queda do preço do petróleo destemidamente determinada pela Arábia Saudita, contra a vontade e os interesses norte-americanos” (L’Express, 19 fev. 2015), sancionaria a pusilanimidade militar-diplomática dos Estados Unidos. No outro polo do espectro ideológico francês, o economista Jacques Sapir questiona: “Podemos nos perguntar se não há um acordo tácito entre Arábia Saudita e Rússia para expulsar, ou pelo menos limitar, um novo ator no mercado de hidrocarbonetos”.4

Após o cenário da aliança entre Estados Unidos e Arábia Saudita para arruinar os russos e o das intrigas sauditas – e russas? – para enfraquecer os norte-americanos, uma nova interpretação surgiu: “A América matou a Opep”, disse Eduardo Porter, do The New York Times(22 jan. 2015); desde 1973, os Estados Unidos tentam libertar-se de sua dependência em relação ao cartel, subvencionando maciçamente a pesquisa de tecnologias responsáveis pelo boomdo petróleo. Para o famoso consultor Daniel Yergin, a Opep, incapaz de elevar os preços diante do fluxo de gás de xisto, teria “passado sua responsabilidade de regulador do mercado” para os Estados Unidos (The New York Times, 25 jan. 2015).

Em matéria de política energética, hipóteses contraditórias não necessariamente se anulam – a maioria dos participantes destaca-se na arte do jogo duplo. Algumas coisas são certas: seis meses de petróleo em liquidação animaram as empresas de transporte e os países pobres em recursos fósseis; afligiram as nações produtoras mais frágeis (sobretudo na África); adiaram indefinidamente a perspectiva de uma economia livre do carbono; e desestabilizaram as multinacionais do petróleo que haviam apostado na perenidade dos preços altos para alargar ainda mais as fronteiras geográficas e geológicas da extração.5

Pierre Rimbert é jornalista, autor de Libération, de Sartre à Rothschild (Paris, Raisons d’Agir Édition, 2005).



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