A ENGENHARIA DA INDIGNIDADE

Por que a ciência prova que o modelo de transporte de SP falhou (e como o SUM 5.0 é a solução)?

A crise do transporte coletivo no Brasil decorre de um modelo rodoviarista que, em São Paulo, submete estudantes a uma lógica de mercado voltada ao menor custo operacional

Em janeiro de 2026, a juventude das periferias de São Paulo enfrenta um paradoxo cruel: a cidade é o motor econômico do país, mas o caminho até a escola ou ao trabalho é uma corrida de obstáculos. Enquanto o senso comum diz que “não há verba”, a realidade técnica revela uma escolha política. A crise do transporte público coletivo no Brasil não é um acidente, mas o resultado de um sistema rodoviarista que, historicamente, priorizou o transporte sobre pneus em detrimento de sistemas de alta capacidade (Vasconcellos, 2012), consolidando a percepção do carro individual como símbolo latente de sucesso financeiro e ascensão social.  

O modelo atual de São Paulo, baseado em uma lógica de mercado que chamamos de Logística 4.0, trata o estudante como “massa” ou “carga viva” a ser movimentada pelo menor custo operacional possível. A eficiência, medida por planilhas de custo (KPI Operacional), ignora a dignidade humana. O jovem perde tempo de vida no trânsito porque a falha do sistema não é técnica; como argumentamos em pesquisa, ela é ontológica: falha em sua missão humana. A miopia da Logística 4.0 revela-se quando o transporte público cumpre horários rastreados por algoritmos, mas falha em sua missão humana de garantir o bem-estar coletivo. 

Crédito: Fernando Stankuns/Wikimedia

O fator tempo e a desigualdade estrutural  

O tempo de deslocamento médio em grandes cidades brasileiras pode ultrapassar duas horas (ANTP, 2020). Para o jovem da escola pública, esse tempo é um custo de oportunidade elevado, um roubo do tempo de estudo, lazer e descanso. Esse “pedágio de vida” é um marcador de classe social, uma forma de exclusão que impede o acesso à faculdade ou ao primeiro emprego.  

O urbanista Vasconcellos (2012) já alertava que a rede de transporte deve ser dinâmica para evitar a exclusão das periferias. A ausência de um alinhamento entre os diferentes órgãos gestores impede uma análise sistêmica que integre a gestão do trânsito com a função social do transporte, criando uma miopia que impede a democratização do espaço viário, impactando negativamente a produtividade urbana e a qualidade de vida. 

O nó do dinheiro: a ilusão da falta de verba e a solução do sum 

A raiz do problema é o financiamento. O sistema depende de quantas pessoas passam na catraca, gerando um desequilíbrio severo com as gratuidades e os custos fixos elevados. O Le Monde Diplomatique Brasil insiste nesta pauta: a solução é desvincular o custo do serviço da capacidade de pagamento do cidadão.  

A proposta do Sistema Único de Mobilidade (SUM) surge como a arquitetura institucional necessária, inspirada no SUS (Sistema Único de Saúde). A PEC 25/2023, defendida por Luiza Erundina (2023), propõe um fundo nacional que garanta o custeio operacional, abastecido por impostos sobre combustíveis e veículos. O dinheiro existe, mas está sendo usado de forma ineficiente.  

Em nossas pesquisas, demonstramos que a reengenharia fiscal é a chave, como evidenciado nas Tabelas 2 e 3 da nossa pesquisa de 2025: 

Imposto/Receita  Incidência Atual  Proposta SUM: Vinculação 
IPVA  Propriedade de veículos  Financiamento do Passe Livre e Fundo Metropolitano 
ICMS  Combustíveis, peças  Desoneração da tarifa, partilha via fundos 
ISS  Apps, transporte municipal  Financiamento cruzado: individual subsidia o coletivo 
Taxas Estac.  Zona Azul / Uso do solo  Investimento direto na infraestrutura do transporte coletivo 

 

O imposto sobre a propriedade de veículos de luxo (IPVA) hoje é uma receita geral. No modelo SUM, esse imposto seria vinculado e usado para financiar o passe livre do estudante ou a tarifa módica. A reestruturação do ICMS sobre insumos (combustíveis e peças) poderia ser partilhada via fundos metropolitanos para reduzir o custo do quilômetro rodado.  

A ausência de um financiamento sustentável que desonere a tarifa torna a crise do setor um fenômeno estrutural e recorrente. 

Logística 5.0: a ciência a favor da vida e da soberania urbana  

A tecnologia não é neutra. O modelo de Logística 5.0 que propomos transcende a eficiência da máquina (4.0) para focar na resiliência da vida. O passageiro deve ser o núcleo do “pacote” logístico, não a “massa” a ser transportada. 

Nossa pesquisa integra Engenharia Elétrica, Gestão Pública e Sociologia para provar a interdependência entre quatro pilares (Informação, Energia, Massa, Pacote).  

  • Energia (Resiliência e V2G):A eletrificação da frota e a tecnologia Vehicle-to-Grid (V2G) não são apenas ambientais, são sobre soberania urbana e resiliência sistêmica. Conforme o relatório da IEA (2025), a convergência entre o transporte eletrificado e a infraestrutura de energia redefine a soberania urbana, permitindo que a logística atue como um amortecedor de crises, garantindo o funcionamento de hospitais em cenários de apagão.  
  • Informação(Soberania de Dados): O poder na sociedade em rede reside na capacidade de programar os fluxos (Castells, 2011). Os dados gerados pelo seu deslocamento não podem ser proprietários de empresas privadas. A Logística 5.0 exige protocolos de interoperabilidade baseados em Open Data e segurança cibernética robusta para evitar o “extrativismo de dados”.  
  • Massa (Dignidade Urbana):O planejamento de linhas e itinerários deve se ajustar à vida real da periferia, garantindo a fluidez e a ausência de externalidades negativas como poluição e superlotação (Banister, 2008). A Logística 5.0 busca a escala humana, não o gigantismo logístico. 

Conclusão a logística como ética do movimento e o papel do jovem em 2026  

A gestão pública da mobilidade deve ser compreendida como um tema transversal, onde o Estado reassume o protagonismo estratégico. A prestação do serviço à população não pode submeter-se estritamente às lógicas de mercado das concessionárias.  

Propomos a classificação da logística urbana como uma Infraestrutura de Suporte à Vida (ISV), no mesmo nível de saneamento básico. O SUM 5.0 é a arquitetura institucional que garante o direito social à mobilidade.  

A Tarifa Zero ou Módica não é uma utopia, é um imperativo ético para a sobrevivência urbana em 2026. O sistema de ônibus urbano deve superar seu impasse e retomar sua relevância como indutor de desenvolvimento urbano, produtividade e equidade social.  

O futuro da ciência do fluxo reside na orquestração de movimentos que respeitem a escala humana. A Logística 5.0 define-se como a ética do movimento: um compromisso técnico e social que transforma a circulação de massa e energia em suporte fundamental à soberania coletiva. O seu papel, jovem estudante, é cobrar essa transparência radical. 

 

Eduardo Facchini é Doutor em Ciência pela USP Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Mestre em Comunicação, Administração e Educação pela Universidade São Marcos. Administrador de Empresas, tecnólogo em Logística Empresarial. Pós graduado especialista em Administração em Marketing e Gestão Pública. Atua como professor e consultor técnico na área pública e privada nos setores de Administração, Gestão da Mobilidade Urbana e Logística. 

Mariana Domingues Facchini é mestra em Arquitetura e Urbanismo – Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

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