Pulp fiction: tempos de Bolsonaro - Le Monde Diplomatique

O CULTO DA ESTUPIDEZ

Pulp fiction: tempos de Bolsonaro

por Leonardo Lusitano
Fevereiro 4, 2019
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Os personagens do governo bolsonarista tentam apresentar suas opiniões, ressentimentos, teorias conspiratórias; sua incompetência combinada com nepotismo, sua violência, ganância e exploração da fé alheia como se fossem atitudes cândidas

Pulp: revista ou livro sensacionalista, que é geralmente publicado e impresso em material de segunda classe. Nada melhor para falar do governo Bolsonaro e de seus personagens do que o termo pulp. Na película de Quentin Tarantino, dois gângsteres estão indo recuperar uma maleta de um sócio que contrariou o chefe do grupo. Enquanto Jules dirige, Vincent conta sobre suas experiências na Europa. Banalidades como o McDonald’s francês dar outro nome ao Quarteirão com Queijo porque franceses não entendem o sistema métrico norte-americano são tratadas como novidades, algo surpreendente, genial. Tarantino é irônico, sarcástico ao não enquadrar o filme com a tela cheia, talvez para dar um ar sensível, mais intenso e até belo a diálogos cheios de senso comum e estupidez. Uma estupidez cultuada nos meios intelectuais.

É exatamente esse enquadramento que o governo eleito busca. Tornar o reino das opiniões e a paixão pela ignorância algo visto como uma estupenda novidade criativa a ser valorizada positivamente e até cultuada. “Vamos desideologizar”, dizem. Na Casa Civil, posto que um dia já foi ocupado por um Darcy Ribeiro, é dito que uma arma em casa tem o mesmo risco que um liquidificador. Damares viu Jesus na goiabeira e teve uma revelação surpreendente: menino veste azul, menina veste rosa. Para o ministro das Relações Exteriores, a esquerda é anti-natalista. Pessoalmente, também prefiro o Carnaval em vez do Natal… Vinho, pernil e rabanada no verão não combinam – assim como cruzada do bem contra o mal depois que a Revolução Francesa fortaleceu o Estado laico…

Nesse enquadramento da ignorância como algo incrível a ser cultuado, um capítulo a parte é o Ministério da Educação. Contrariando a educação como campo científico e qualquer uma de suas linhas de pesquisa, o ministro declarou recentemente que “a ideia de universidade para todos não existe”. Sempre subordinado ao senso comum, o ministro diz ainda que não faz sentido um advogado estudar anos para virar motorista de Uber. Deveria apenas fazer curso técnico. Para o ministro Vélez, a universidade deve ficar reservada a uma elite intelectual. Será que jovens eleitores desse governo concordam com essa atrocidade? Enquanto o programa de governo de Bolsonaro propunha vagamente um regresso aos anos de chumbo, o programa de Haddad, com seus limites, propôs priorizar difundir o padrão das escolas federais para todo o ensino médio, assim como ampliar vagas em universidades públicas.

O acesso a um curso técnico e também à universidade não deve ser oposto. Em algumas profissões, um curso técnico qualifica um jovem para o trabalho e a universidade amplia essa qualificação, assim como existem profissões sem um curso técnico correspondente. Sem contar que universidades não formam apenas para o trabalho mas também para uma cidadania onde direitos civis, políticos, sociais e ambientais estão em pauta. Se a universidade pública fica mais excludente, o governo desestimula jovens de periferias a frequentar universidades. Há um corte de classes cruel aí. E um corte de “gastos” disfarçado que ninguém está vendo. Realmente é uma ideia genial.

É preciso ser o mais óbvio entre os mais ignorantes para ter coragem de dizer isso em público. Lembra o homem que sabia javanês, do Lima Barreto; aquele que fingia saber um idioma e ficou famoso por ser seu único tradutor no Brasil. Temos um Ministério da Educação repleto de opinólogos que fingem ter inventado um idioma, sendo, cada um deles, seu único tradutor. Outro exemplo? O novo secretario de alfabetização, elogiado pelo guru do governo. Para ele, o maior problema no processo de alfabetização é a ideologia. Isso mesmo; é preciso acabar com a ideologia construtivista, substituindo-a pelo método fônico.

Bem que o secretário desse Ministério pulp poderia substituir John Travolta na cena do carro e contar para Samuel L. Jackson que um dos maiores problemas da educação brasileira nada tem a ver com a cognição de muitas crianças afetadas por má alimentação. Que é besteira dizer que o fato de pais abandonarem a família e mães passarem 12 horas por dia trabalhando e se deslocando tenha impacto nos primeiros e decisivos anos de vida infantil. Contar que mesmo que as emoções da criança sejam afetadas pela violência, que mesmo que falte merenda, mesmo que sejam insalubres, que estejam sem ventilador, lotadas, o que faz diferença realmente é combater a ideologia do… construtivismo de Piaget. Desde quando Piaget é marxista? Como se pode observar, um currículo cunhado com muitos méritos em nada difere de opiniões ouvidas na fila do pão. É de envergonhar o povo de Sucupira. Segundo Travolta, na França chamam o Big Mac de Le Big Mac. Genial! Segundo o secretário, é só ignorar o contexto e trocar construtivismo por fonética. Por que esses personagens que estão no poder se perdem no acaso das opiniões? Seria uma estratégia do governo para fazer seus seguidores se sentirem tão representados pelo governo ao ponto de alguém comum, medíocre, que passou a vida invisível, que exerça sua profissão de modo simplório, tenha esperança de ser chamado para ser um ministro da Economia, da Justiça, das Relações Exteriores ou, quem sabe, da Educação? É só isso ou há mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia?

Voltando para o filme de Tarantino, enquanto Travolta e Jackson saem do carro e entram no prédio onde vão executar o traidor, conversam tranquilamente, como se estivessem fazendo algo cotidiano, esperando a fila do mercado ou caminhando na praia. Falam de programas de TV. Sobre como o chefe conheceu a esposa. Ao bater na porta, dizem que é hora de encenar seus personagens. Jackson se desculpa por atrapalhar o lanche dos rapazes. Pergunta que tipo de hambúrgueres estão comendo. Pede para experimentar. A câmera fecha no catchup sendo expremido na carne. Jackson pergunta aos jovens que se associaram ao chefe do crime se sabem como se diz Quarteirão com Queijo em francês. – Royale com queijo. Sabe por quê? O exercício de poder segue apavorando o jovem que antes lanchava. Jackson pede seu Sprite. Enquanto o jovem que lidera o grupo tenta se explicar, Jackson atira em um outro do trio de rapazes: – Tirei sua concentração? Desculpe, continue! O esforço em dar a atitudes cruéis ares de espontaneidade é apenas um modo cínico de ser criminoso. Segue-se um interrogatório agressivo, onde o interlocutor é baleado.

Jackson pergunta se o jovem, já baleado, lê a bíblia. Cita Ezequiel 25:17. “O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas desigualdades do egoísmo e da tirania dos homens maus. Bem-aventurado aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, pastoreia os fracos pelo vale das trevas, pois ele é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o descobridor das crianças perdidas. E derrubarei sobre ti, com grande vingança e furiosa raiva, aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá que o meu nome é Senhor quando eu derramar minha vingança sobre você”.

Os personagens do governo bolsonarista tentam apresentar suas opiniões, ressentimentos, teorias conspiratórias; sua incompetência combinada com nepotismo, sua violência, ganância e exploração da fé alheia como se fossem atitudes cândidas, tomadas por figuras informadas e que cuidam dos assuntos mais importantes para a pátria. Vistos mais de perto, enquadrados como se fossem democratas ilustrados, são personagens de Pulp fiction: derramadores da vingança. Cultuadores da violência disfarçada de novidade. Impressos em material de segunda classe.

 

*Leonardo Lusitano é professor de história no município de Itaboraí, mestre em Letras pela UFRJ e doutorando em Filosofia pela Uerj.



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