Qual o futuro do bolsonarismo? - Le Monde Diplomatique

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

Qual o futuro do bolsonarismo?

por Vários autores
28 de setembro de 2022
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Este artigo finaliza com uma série de pistas e questões que surgem das análises anteriores, particularmente no que se refere à progressiva hegemonia de valores e práticas de um populismo neoliberal de direita; às mudanças em relação ao discurso do candidato; à religiosização e moralização do discurso; à ressignificação da liberdade; ao uso estratégico das mídias sociais e da emoção, do medo e das fake news. E, por fim, procura responder à pergunta: quais as expectativas para o futuro do bolsonarismo?

 

Este artigo encerra a trilogia que analisou a campanha eleitoral em curso. No primeiro deles – ‘Deus, pátria, família e liberdade: problemas e soluções no discurso do candidato Bolsonaro’ – foram reconstruídas as questões e elementos que compõem o Marco de Diagnóstico e o Marco de Prognóstico da referida candidatura[1]. No segundo – ‘Deus, pátria, família e liberdade: estratégias discursivas do candidato Bolsonaro’ a análise se deslocou para construir o Marco Motivacional, isto é, entender como acontece a mobilização de seus eleitores, o “seu povo”.

O texto em pauta – ‘Deus, pátria, família e liberdade: qual o futuro do bolsonarismo?’ finaliza com uma série de pistas e questões que surgem das análises anteriores, particularmente no que se refere à progressiva hegemonia de valores e práticas de um populismo neoliberal de direita; às mudanças em relação ao discurso do candidato; à religiosização e moralização do discurso; à ressignificação da liberdade; ao uso estratégico das mídias sociais e da emoção, do medo e das fake news. E, por fim, procura responder à pergunta: quais as expectativas para o futuro do bolsonarismo?

Manifestação na Av. Paulista contra Bolsonaro em 29 de maio de 2021. (Foto: Allan White/Fotos Públicas)

 

Olhando para a eficácia do discurso populista de direita de Bolsonaro

O principal objetivo da citada trilogia foi entender a construção, expressão e eficácia do discurso da candidatura do atual presidente Jair Bolsonaro, que se coloca como representante de toda a insatisfação vinculada aos governos FHC, Lula, Dilma e Temer, apresentando-se como antagônico, apolítico e antimainstream (seguindo as orientações das assessorias de lideranças populistas de direita como o ex-presidente Trump).

Neste momento é importante destacar algumas reflexões e pistas que surgem da análise realizada.

 

a) A progressiva hegemonia de valores e práticas de um populismo neoliberal de direita. A partir de 2019, acompanhando o discurso do presidente e atual candidato, observa-se no país o crescimento do individualismo, do privado e da meritocracia como valores essenciais, que se contrapõem aos direitos e interesses coletivos; a aposta no combate à violência, utilizando-se mais violência; que apenas a família e o mercado são credenciados para apoiar às pessoas, retirando-se a responsabilidade dos acordos construídos pela Constituição de 1988, das políticas públicas e do Estado; que o medo, a intolerância, o ódio e os preconceitos se sobressaem nas relações sociais, diminuindo-se o espaço para a promoção da fraternidade, da igualdade e da liberdade, principalmente para os que mais precisam de compensação; e que mortes, como a de Bruno, Dom, Marcelo Arruda[2] e outras, de menor espaço na mídia, se multiplicam Brasil adentro.

 

b) As mudanças em relação ao discurso do candidato em 2018: a delegação de responsabilidades (ou culpa), a predominância do Eixo Moral/Individual e a religiosização e moralização do discurso. Comparado com o período eleitoral de 2018, o atual presidente manteve grande parte de suas Práticas Discursivas organizadas ao redor de bandeiras de costume e valores ultraconservadores e contra o “comunismo”. Nota-se, até agora, que alguns temas pontuais, anteriormente destacados, como a ‘Escola sem partido’ ou a ‘Diminuição da idade penal’, perderam relevância. Ao mesmo tempo, após sua experiência de governo, novas Estratégias foram ganhando destaque, sobretudo ao delegar a responsabilidade por falhas ou fracasso do governo a questões conjunturais, como a pandemia de Covid-19, que teriam comprometido o desempenho da economia nacional. Nesse momento, a delegação de culpa por problemas no país ao PT, comum no início de seu governo, cede espaço para promessas de que somente em sua nova gestão teria oportunidade de governar de forma plena. Ao mesmo tempo procura atrair eleitores através da mobilização do medo de se retornar ao que existia.

Mas uma das mudanças que têm se manifestado tanto durante o governo do presidente como nas Práticas Discursivas do atual candidato é a ideologização e religiosização do discurso como Estratégia Discursiva principal que extrapola do Eixo Moral/Individual para os outros. Com efeito, a análise – ontológica e ôntica – dos elementos que compõem o universo bolsonarista possibilitou que fossem identificados três Eixos articuladores desses elementos: o Moral/Individual, o Político/Ideológico e o de Governança/Gestão. Paralelos a essa composição, foram compostos os Marcos de Diagnóstico e de Prognóstico. Em cada Eixo buscou-se identificar os diferentes elementos principais. O que chamou a atenção nessa análise foram principalmente dois aspectos.

Primeiro, no Eixo Moral/Individual foi encontrado, hoje, como Ponto Nodal, os Defensores da Família Cristã articulando os outros elementos, como TradicionalistasDeus/JesusHomens e MulheresCidadãos de BemDefensores da liberdade de expressão e de culto Militares e Policiais Povo armadoLíderes religiosos conservadores. A construção de Defensores da Família Cristã como Ponto Nodal – o significante central para a articulação do conjunto – expressa uma mudança em relação ao discurso do candidato Bolsonaro em 2018, em que essa centralidade era ocupada pelo significante “cidadãos do bem”. A religiosização e a moralização que significa a construção como Ponto Nodal do seu discurso de Defensores da Família têm sido eficientes, já que, como as pesquisas eleitorais apontam, o candidato tem conseguido ampliar significativamente o número de aderentes das igrejas evangélicas em relação à eleição de 2018.

Ao mesmo tempo, foi identificado um segundo aspecto significativo de mudança em relação ao discurso de 2018. O Eixo Moral/Individual e a religiosização e moralização de seu significante central se expandem para os outros Eixos transformando-se no ‘carro-chefe’, do qual emana a solução para todos os Problemas que atravessam o Brasil. Se colonizam assim os outros Eixos, produzindo uma grande religiosização e moralização do conjunto de soluções apresentadas. O tom religioso inunda várias agendas que normalmente não são tratadas a partir da dimensão religiosa com seus componentes e tons. Tenta-se assim expandir para os outros Eixos (Político/Ideológico e Governança/Gestão) a eficiência dessa religiosização da Prática Discursiva mostrada no Eixo Moral/Individual, puxando também a recepção desse discurso para o debate político com os outros candidatos, pelo lado emocional e moral, em detrimento da análise racional das questões políticas e de governo.

 

c) A ressignificação da liberdade como Significante Vazio. Em paralelo ao transbordamento da dimensão religiosa, tanto na esfera nacional como internacional, o discurso dos populistas de direita de outros países transformaram a “liberdade” em elemento central de todas as Práticas Discursivas que se fazem presente também aqui. A defesa da “liberdade” é utilizada para simbolização das diferentes cadeias de equivalência de Jair Bolsonaro; liberdade em relação à moral individual, à liberdade de comprar armas, à liberdade religiosa e à liberdade de expressão total individual, mesmo que essa possa contribuir para reforçar opressões contra minorias ou defender ideias negacionistas das ciências; liberdade em relação à política ideológica, que está relacionada à meritocracia, à diminuição do papel do Estado no provimento de direitos sociais e à diminuição do investimento público, e como um valor que estaria ameaçado em caso de vitória dos seus inimigos, os comunistas; liberdade em relação à gestão e governança, referente à defesa de maior poder ao presidente para executar ações, a crítica aos limites institucionais e a crítica ao Poder Judiciário.

O discurso de Bolsonaro constrói assim liberdade como Significante Vazio, ou seja, um termo que se desvirtua de seu sentido original adquirindo múltiplas acepções, e que se articula com as diferentes cadeias de equivalência. Essa utilização pode ser entendida como uma Estratégia para articular os diferentes setores de apoio de candidato, como é possível verificar na figura abaixo: certo segmento religioso que demanda políticas relacionadas à moral individual, um segmento empresarial que possui a defesa das políticas de diminuição do papel do Estado na economia; um segmento de fãs incondicionais do presidente, que gostaria de conceder a ele mais poder do que o permitido em um governo democrático[3].

Depois de 50 anos de neoliberalismo, pode-se refletir até onde o valor da liberdade já não faz parte do senso comum, não se restringindo somente aos estratos sociais superiores, mas a toda a sociedade. Isso estaria relacionado com o espaço ocupado pelas mídias sociais e o individualismo. A liberdade imposta pelo neoliberalismo, associada ao individualismo e ao advento das mídias sociais, gera a possibilidade de expressão de todos os sentimentos, mesmo aqueles agressivos, de uma forma ilimitada em que não há espaço para remorsos.

Ao se observar os populistas de direita e seu apreço a liberdade conceituada anteriormente, surge a pergunta se isto é paradoxal do ponto de visto político, pois como se poderia articular e conciliar liberdade com autoritarismo? Talvez uma resposta poderia se encontrar no fato de que o significado de liberdade, pelas articulações com princípios com individualismo e hierarquia tão caros ao neoliberalismo, e presentes nas cadeias de equivalência que conformam o discurso destes populistas de direita, passa a estar fundado num status diferente de “minha liberdade” (a liberdade do ‘nós’) em comparação à “liberdade dos outros” (do ‘eles’). A relação de liberdade não é recíproca. A liberdade dos outros é secundarizada em relação à minha/‘nós’. E os outros (‘eles’) têm a obrigação de garantir minha/nossa liberdade, seja por aceitação consensuada ou submissa, seja por imposição autoritária do reconhecimento dessa desigualdade estrutural da “liberdade” que estabelece a supremacia liberdade do ‘nós’.

 

d) As mídias sociais e as mudanças na ação coletiva. O uso das mídias sociais pelos discursos políticos dos populistas de direita num contexto de hegemonia neoliberal expressaria – e também produziria – mudanças na própria ação coletiva. A segmentação predomina a partir da articulação de ações específicas para diferentes nichos, bolhas ou grupos identitários, que passam a estar articulados pela narrativa populista de direita com os seus significantes. Segundo Habermas, existiria uma esfera pública na qual diferentes grupos privados manifestariam seus interesses individuais e, por meio do diálogo, se construiria um consenso do público. Com as mídias sociais em um contexto neoliberal, essa construção é relativizada. Já não seria preciso uma construção de um consenso do público. O lugar desse consenso passa a ser ocupado pelo Significante Vazio que une por meio da liderança populista essas diferentes agendas individuais. Não é mais necessário negociar essas agendas individuais para ter uma unificação, já que ela está dada pela prática populista e pelo líder.

Assim, o projeto político se segmenta passando a ser uma soma de componentes individualizados. No momento populista, o projeto político deixa de ser apenas racional, incorporando como elementos constituintes o emocional, a fé, as paixões. Não se necessitaria da preponderância do componente racional para unir e articular os grupos, o que acontece pela definição construída e consensuada de um interesse coletivo com o entendimento do público de forma propositiva através de uma lógica dialógica. Através do antagonismo e da emoção, a figura do líder passa a ser o símbolo do coletivo. No caso do discurso de Bolsonaro, o antagonismo é contra aqueles que impedem a realização de suas demandas, bem como a paixão promove a identidade de ‘nós’ e suas Práticas Discursivas. Desse modo, não é preciso um projeto coerente, negociado e consensual para construir/promover uma ação coletiva, já que ela passaria a ser um agregado de ações diversas que respondem a demandas específicas de diferentes grupos que encontram na figura do líder o elo do coletivo. As mídias sociais são um território que permite totalmente esse tipo de ação, uma vez que elas não buscam o consenso, mas sim o antagonismo, a confrontação e o reforço da identidade.

 

e) Uso estratégico das mídias sociais. As eleições presidenciais no Brasil têm sido acompanhadas pela mídia estrangeira, sobretudo por sua relação com a ampliação das redes e da força dos grupos de extrema direita internacionais. Após o enfraquecimento desses grupos em alguns países da América Latina e nos Estados Unidos com a derrota de Trump, o Brasil passou a ser visto como essencial para a manutenção de suas pautas na agenda internacional de organismos como ONU e OMS . A ampliação das ameaças às instituições e às eleições decerto remontam ao cenário eleitoral estadunidense de 2019, o que poderia indicar como a agenda nacional tem sido influenciada por tais redes internacionais e, ao mesmo tempo, representar uma possível antecipação dos resultados sobre as eleições. Enquanto Bolsonaro busca se apresentar como antissistema e não tradicional, a influência que sofre de outros governos aponta para os limites e o não ineditismo de sua estratégia.

Assim ocorre em outros países, os ambientes virtuais têm sido essenciais para a mobilização e comunicação entre os principais grupos de apoiadores de Bolsonaro, utilizando-se de diversas plataformas para alavancar seus espaços de influência política. A extrema direita em todo o mundo se fortaleceu nesses espaços desde os mais mainstreams até os mais alternativos, na busca por conquistar novas pessoas. No período eleitoral, é nítido como as mídias sociais se tornaram chave para dialogar com apoiadores antigos ou atrair novos.

Neste contexto, se manifesta claramente a importância do uso estratégico das mídias sociais pelo presidente. Como visto, este uso compreende a reação a pronunciamentos de figuras públicas famosas ou a antagonistas; a elaboração de uma estratégia para cada plataforma, uma vez que a popularidade entre os diferentes estratos sociais varia entre elas; e a melhor utilização das mídias sociais para conseguir maior engajamento. Moldadas pelas interações entre usuários e algoritmos, cada uma dessas plataformas possui funcionalidades distintas, que são apropriadas de modos diversos. Isso faz com que variadas culturas de utilização surjam em cada plataforma, e que, pensando no discurso político, o mesmo conteúdo precise ser traduzido de um ambiente para outro, de acordo com as gramáticas comumente utilizadas em cada espaço.

Bolsonaro usa de forma mais eficaz as mídias sociais por captar todas as potencialidades que ela tem para segmentar os grupos e não tentar construir uma diluição da radicalidade de cada agenda porque tem que negociar uma agenda comum. Isso permite manter a radicalidade de cada uma, privada ou específica, sem a necessidade de construir um elemento consensual e moderador. Ao contrário, Bolsonaro se apresenta como o líder dos diferentes segmentos que compõem a sua base de forma paralela. Ele não precisa mediar nada, pode radicalizar, pode corresponder às expectativas de radicalidade de cada uma das agendas.

 

f) Uso estratégico da emoção, do medo e das fake news. O discurso do bolsonarismo, assim como os de outros populismos de direita, faz muito bom uso do componente emocional, o qual subordina ao racional. Nesse espaço do emocional, continua tendo eficácia a operação do medo, que em 2018, no discurso do candidato, apontava para evitar o perigo comunista que exacerbaria as mazelas que o país estava sofrendo num contexto de agudização da crise internacional. Em 2022, a operação do medo passa a destacar também o risco de voltar ao passado de corrupção, ao mesmo tempo que denuncia que as promessas de criar algo novo por parte de seus opositores não passam de uma falácia. Não existe alternativa ao governo que ele lidera, com sua equipe dos melhores ministros da história do país e o apoio do “povo” emblematizado nos defensores da família cristã, os defensores da liberdade de expressão e da propriedade e os militares e parlamentares patriotas.

Para despertar emoções e particularmente medo, se manifesta a utilização intensiva nas mídias sociais de fake news. Este predomínio das fake news se associa ao fenômeno da pós-verdade. Os critérios foucaultianos para o discurso da verdade já não se aplicam. O conteúdo de fato das mensagens depende do crédito dado a quem enuncia, e não de critérios de verdade disciplinares que possam ser acionados em processos rigorosamente estabelecidos. O enunciador – com a fidelidade que lhe brinda o público enunciatário – garante tal caráter ao conteúdo.

O outro mecanismo que constrói verdade é o da repetição do conteúdo da mensagem. Por meio do uso intensivo de robôs e outros instrumentos e técnicas que agem nas mídias sociais, os seguidores recebem sistematicamente miríades de mensagens que repetem conteúdos específicos, abrindo caminho para o reconhecimento deles como fato verdadeiro. Assim, a verdade vem a ser confirmada quando passa a ser explicitamente expressa – e também repetida – nas Práticas Discursivas do líder Bolsonaro, como um dos mais importantes influencers, com o número muito maior de seguidores entre os diversos candidatos de ambas as eleições, a de 2018 e a de 2022.

 

g) Quais as expectativas para o futuro do bolsonarismo? São muitas as possíveis respostas para essa pergunta. Aqui apresenta-se uma delas. Antes, porém, mostramos o estado da arte do bolsonarismo, no quesito apoio popular, considerando o período 2018/2022. Para tanto, cabe lembrar que o atual presidente alcançou no primeiro turno da eleição de 2018 46,03% de votos válidos. Buscamos analisar o histórico disponibilizado a seguir e sinalizar que a apuração dos dados foi limitada ao mês da publicação – setembro de 2022.

Como o leitor pode observar no gráfico acima, destacam-se duas questões: em primeiro lugar, diferentemente de 2018, falta espaço para a ‘novidade’ no pleito atual. Não obstante o empenho nesse sentido, como observado pelos esforços de construir a candidatura da ‘terceira via’ – explicitamente buscada pela grande mídia, apoiada por parcela da elite e testada com variados nomes – tais movimentos foram amplamente ignorados pela opinião pública.

A segunda questão refere-se a capacidade do presidente em conservar – ou recuperar  – sua base, revelada pela comparação das pesquisas FSB de 18/ago/2019, onde Bolsonaro atinge 35% de intenção de voto, e de 21/ago/2022, onde alcança 36%, apesar do desmonte e estrangulamento financeiro das políticas sociais que ocorrem no período de seu governo. Vitorioso em 2018, Bolsonaro se manteve fiel ao ‘seu povo’, informando-o e em relação direta com seus apoiadores, principalmente os militares de direita, financistas, ruralistas e religiosos conservadores, apresentando um novo estilo de poder, desde o discurso de posse, passando pela formação inicial de seu ministério, até a caracterização de um ‘governo de oposição’, em postura de permanente campanha.

A explicitação de suas bases parlamentares, ancorada no Centrão, a incapacidade de responder às questões sanitárias e econômicas relacionadas à Pandemia Covid-19 e o ronco de barrigas pela fome que se alastrou pelo país, deterioram a condição de mito, mártir e Messias. Mas ao mesmo tempo a utilização do Auxilio Brasil, a aprovação de vales específicos como os dos caminhoneiros e taxistas, o corte de impostos estaduais sobre os combustíveis e a alocação discriminada de recursos para bases de parlamentares através do orçamento secreto, entre outras benesses que ferem a lisura do contexto eleitoral, junto com empenho de seu núcleo duro, onde se destaca, recentemente, a primeira-dama vêm surtindo efeito sendo o candidato que mais tem subido nas pesquisas.

Em relação à manutenção da ‘tropa unida’, os dados coletados pelo Instituto Datafolha, nos dias 30 de agosto e 1 de setembro, com margem de erro de 2 pontos, traduz em números a manutenção da base supracitada, indicando a presença de apoiadores nas seguintes faixas da população: até 2 salários mínimos, 25%; de 2 a 5 salários mínimos, 36%; de 5 a 10 salários mínimos, 37%; mais de 10 salários mínimos, 48%. Na definição por sexo, encontra-se os seguintes números: 28% da preferência feminina e 37% da masculina. Quando a análise é baseada nas regiões do país, a candidatura em pauta alcança 37% na Centro-Oeste; 24% no Nordeste; 39% na Região Norte; na Sudeste, 35%; e na Região Sul, 35% das intenções de votos.

Mesmo com o índice de rejeição ultrapassando a metade dos consultados e a necessidade de moderar críticas e comportamentos para ampliar a base de apoio, Bolsonaro seguiu reproduzindo os Eixos, conteúdos e performances de suas Práticas Discursivas. Com isso, obtém, por exemplo, resultados expressivos entre os Evangélicos – 48% – nas regiões Norte e Centro-Oeste, e no eleitorado com mais renda.

Portanto, as análises realizadas ao longo deste artigo permitem concluir que o discurso apresentado pelo bolsonarismo é uma prática exitosa em construir e articular, por via de Repertórios Moralista, Iliberal e Autoritário, um ‘povo’ para apoiar – paradoxalmente – os interesses: (i) de pensamentos e comportamentos patriarcais e racistas; (ii) das elites rentistas; e (iii) de ruralistas associados ao mercado internacional e à primarização da economia. O padrão básico deste discurso conseguiu ser vitorioso em 2018 e se coloca, no processo eleitoral em curso, com o apoio popular expressivo, utilizando meios tradicionais de comunicação, mas, principalmente, complexos esquemas de redes virtuais, articulados com ações presenciais, governamentais e religiosas, que se revelaram capazes de desarticular os demais projetos que disputam a hegemonia no centro e na direita, para enfrentar as alternativas progressistas.

Com efeito, é preciso reconhecer que o velho ideário da elite, que subordina o Brasil desde a chegada dos colonizadores e, mais recentemente, impede ou interrompe as perspectivas republicanas e de integração sul-americana, tem em 2022, assim como em 2018, o atual presidente como seu representante mais exitoso. Com ele, juntamente com as continuidades autoritárias do passado, a militarização do governo em paralelo com a expansão das milícias e o armamento da população se dá também a renovação do ideário conservador por meio da moralização e religiosização das Práticas Discursivas do populismo de direita neoliberal, com novas formas de organização mediante o uso estratégico das mídias sociais e a articulação com a extrema direita internacional. Venha a ser governo ou não em 2023, as reflexões que surgem da análise política do seu discurso implementada neste artigo apontam que o bolsonarismo, a partir de outubro, tem tudo para prosseguir sendo um protagonista de importância na disputa política pela hegemonia.

 

*Bruna Figueiredo Gonçalves e Henrique Duarte são doutorandos em Ciências Sociais pela UFFRJ, Alex Luiz Barros Vargas é doutor em Políticas Públicas Comparadas pela UFRRJ, Renan Alfenas de Mattos é doutorando em Sociologia pela UFF e Mariana Fernandes é advogada e mestranda em Ciências Sociais pela UFRRJ.

 

Essa matéria faz parte da série “Deus, pátria e família”. Os texto anteriores são ‘Estratégias Discursivas do candidato Bolsonaro’ e ‘Problemas e soluções no discurso do candidato Bolsonaro’.

 

[1] Tanto os artigos anteriores quanto o atual são baseados na Teoria do Discurso, de Laclau e Mouffe, com as releituras de novos aportes de Balsa e Cesarino, articulados com a perspectiva de Marcos interpretativos de Lackoff e Iñigo Errejon, e o olhar sobre mídias sociais, psicopolitica e novas técnicas de poder de Han.

[2] O episódio do assassinato de Marcelo Arruda é ilustrativo do potencial fratricida que Práticas Discursivas baseadas em ódio são capazes de arregimentar e promover.

[3] BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2019.



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