ELEIÇÕES 2026

Quando o crime organizado chega ao poder

E se o crime organizado realmente governar o Brasil?

O Direito Penal moderno abandonou a ideia de que o crime é apenas uma conduta isolada e passou a enxergar essas estruturas como verdadeiras “empresas do crime”, que operam sob a lógica do mercado. As administrações tributárias em todo o mundo têm atuado para combater o crime organizado onde ele busca uma aparência lícita para transformar dinheiro sujo, proveniente do tráfico de drogas, por exemplo, em dinheiro “limpo” que circula em uma empresa, como um posto de gasolina, dentre outros.

Crédito: Magnus Manrik/Wikimedia Commons

No Brasil, Auditores-Fiscais da Receita Federal têm investigado e examinado a contabilidade de pessoas físicas e jurídicas para combater a sonegação, a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro do crime organizado, e o fazem utilizando cada vez mais inteligência.

 

E se o investigado for um político?

 

O estado do RJ é pródigo em ter políticos com larga ficha criminali. Os ex-deputados Domingos Brazão e Chiquinho Brazãoii foram condenados por comandar organização criminosa e pelo assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes.

 

O ex-deputado estadual TH Joiasiii, preso em 2025, está detido em uma penitenciária de segurança máxima em Brasília por envolvimento com o Comando Vermelho, tráfico de armas e de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção.

 

Nesta semana, no dia 15 de outubro, a PF deflagrou a Operação Carne e Unha, que prendeu o segundo deputado estadual mais votado do RJ Márcio Canella, do União Brasil, e o delegado Marcus Amim, ex-presidente do Detran e ex-secretário estadual de Polícia Civil no governo de Cláudio Castro, do PL, todos bolsonaristas de primeira ordem.

 

Lembra do caso das rachadinhas no gabinete do deputado estadual Flávio Bolsonaro, hoje senador pelo RJ e candidato à Presidência da República pelo PL? Pesa contra ele a acusação de apropriação de recursos públicos administrada por Fabricio Queiroz e posterior lavagem de dinheiro por meio de uma franquia de loja de chocolate. Há também suspeitas sobre a origem dos recursos para a compra de imóveis adquiridos com dinheiro vivoiv, meio utilizado para burlar a fiscalização da origem do dinheiro ou para sonegar impostos.

 

ABIN Paralela e o caso das rachadinhas

 

Em 2020, o então presidente Jair Bolsonaro participou pessoalmente de reunião realizada com o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República e as advogadas de Flávio Bolsonaro, Luciana Pires e Juliana Bierrenbach. De acordo com o relatório da PF sobre a ABIN Paralelav, a reunião buscou formas de evitar o avanço das diligências da Receita Federal e da Polícia Federal para comprovar o esquema das rachadinhas. Para a PF, o presidente da República e seu ministro-chefe da segurança institucional (GSI) utilizaram as instituições de Estado contra três auditores da Receita Federal responsáveis pelas diligências e pela investigação das rachadinhas com o objetivo de encontrar “podres e relações políticas desses servidores da Receita” para chantageá-los e desacreditar o trabalho realizado.

 

Joias sauditas – intimidação a auditores

 

Em 2021, o então ministro de Estado de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, foi selecionado para inspeção de rotina na alfândega do Aeroporto de Guarulhos, onde foi encontrado um conjunto milionário de joias não declaradas.

 

A norma determina que todo o presente dado ao governo brasileiro ou de caráter pessoal ao presidente em exercício seja informado e entregue à autoridade competente.

 

O que fez o governo Bolsonaro? Enviou um militar armado em um jato da FABvi para tomar as joias, sem êxito, pois os servidores da Receita Federal retiveram as joias e cumpriram o que determina a lei.

 

Operação Carbono Oculto – sem um único tiro

 

Em 28 de agosto de 2025, já no governo do presidente Lula, foi deflagrada a Operação Carbono Oculto pela Receita Federal, pelo Ministério Público Federal, pela Polícia Federal e por Polícias e ministérios público dos estados. A operação desmontou um esquema de lavagem de dinheiro que causou perdas de R$ 46 bilhõesvii ao PCC (Primeiro Comando da Capital), no coração financeiro do Brasil, a Faria Lima.

 

A Operação Carbono Oculto revelou que as empresas REAG Investimentos e Entre Investimentos tiveram papel central na lavagem de dinheiro do PCC a partir do setor de combustíveis. A Entre Investimentos foi utilizada pelo banqueiro Daniel Vorcaroviii para enviar R$ 61 milhões a um fundo nos Estados Unidos, a pedido de Flávio Bolsonaro, para supostamente financiar o filme Dark Horse.

 

Fica a pergunta: se Jair Bolsonaro tivesse sido eleito em 2022, a Operação Carbono Oculto teria existido? Considerando a interferência na Polícia Federal da família Bolsonaro denunciada até pelo ex-juiz suspeito Sergio Moroix, tirem suas conclusões.

 

O próximo governo

 

O presidente Lula tem dito que a autonomia e independência dos órgãos de inteligência e segurança pública estão asseguradas no seu atual governo, como estarão no próximo.

 

O candidato Flávio Bolsonaro declarou que, se eleito, vai cancelar por decreto presidencial mais de mil normas técnicas da Receita Federalx. Normas que foram úteis para a RFB investigar, comprovar e alcançar banqueiros, empresários e políticos envolvidos com o crime organizado, incluindo o Fundo nos Estados Unidos que recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro. O candidato Flávio Bolsonaro já anuncia a interferência direta na área técnica da Receita Federal e da Polícia Federal. Favorecendo qual interesse?

 

Fica a pergunta: E se o crime organizado governasse um país? E se esse país fosse o Brasil?

 

Tire suas conclusões na hora do voto, e lembre-se, você está definindo quem irá governar o Brasil pelos próximos quatro anos.

 

 

 

Márcio Cruz é sociólogo e mestre em Ciências Sociais com ênfase em Ciências Políticas pela PUC-SP. Sócio-diretor da consultoria Usideias.

 

 

 

 

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