RESENHA

Quando paz e tensão coexistem

Irene ou da tensilidade é composto por um único e longo poema, que brinca com as palavras ao retratar o amor e questões existenciais

Na mitologia grega, Irene, a deusa que personifica a paz, é retratada de forma próspera e serena, geralmente segurando uma cornucópia, um cetro e uma tocha. É a partir dessa referência – citada em uma das primeiras páginas – que Danilo da Costa-Cobra Leite, em Irene ou da tensilidade, dá título a um livro que parece explorar, o tempo todo, a coexistência harmônica de figuras opostas. Longe de apresentar uma ausência estática de conflitos, a obra sugere que a paz pode existir mesmo sob pressão – daí a “tensilidade” do título. O conceito estrutura toda a obra, que abre dizendo: “Vejo a dor que causei e o sofrimento que sou e fui”.

Irene ou da tensilidade
Capa do livro, que ilustra a atmosfera instável da obra – Foto: Divulgação/Kafka Edições

Publicado pela Kafka Edições, o livro se apresenta como um único e longo poema em fluxo. O autor evita a clássica divisão formal de livros de poesia e opta por uma estruturação mais fluida, que permite a transição sutil entre temas e intensidades. Danilo explora a experimentação verbal, valendo-se de neologismos como “entrassair” e “olholhar” para tensionar a experiência de quem lê, o que faz do recurso não apenas um efeito estético, mas um elemento importante para a criação da atmosfera da obra. Em alguns momentos, diálogos aparecem em meio aos versos, que, muitas vezes, seguem lógicas pouco rigorosas do ponto de vista da forma ou da semântica. Paradoxos e antíteses são recursos bastante explorados: “dizer ao vazio”, aqui, se torna possível e traduz bem os sentimentos abordados.

O fio condutor do livro é o amor, que a princípio pode parecer acontecer de forma tranquila, como aparece em “E por um segundo existem somente pequenuras tuas”, mas rapidamente é confrontado pelas tensões intrínsecas a ele: “Tudo é pleno de ruídos calados”, diz o eu-lírico. Uma característica importante da forma como o tema é retratado é a presença do cotidiano, seja no hálito de café ou no movimento dos pés sob o lençol. Também associado ao amor, o erotismo aparece como uma forma de fusão (e dissociação) das subjetividades.

A entrega amorosa, porém, caminha lado a lado com a finitude. A morte aparece no texto como destino inevitável da vida, ainda que carregue angústias: “Somos despreparados e estamos tristes ao falarmos disso”. Em um trecho, o eu-lírico explica ao filho a diferença entre o amor e a morte diante de um corpo sem vida.

Irene ou da tensilidade aponta não para um entendimento pleno das questões existenciais, mas para o atravessamento da subjetividade por elas. Danilo convida o leitor a olhar para o que costumamos evitar e a aceitar a dureza da existência. O livro, em tempos cada vez mais marcados pela autocobrança do entendimento de si e da satisfação individual, é um convite para aceitar a tensão. Ao final, o que resta ao eu-lírico é a coragem e a paz de dizer ao outro, em segredo: “Pode morrer, eu deixo”.

Pedro Lukas Costa é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

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