Quem cuida de quem cuida das crianças e adolescentes nas periferias?
A regulamentação das redes sociais para proteger infâncias e adolescências ganhou força. Mas, é urgente pensar em espaços de acolhimento e formação para agentes municipais, referências comunitárias e famílias que atuam com juventudes às margens dessa discussão
Felizmente, a PL 2.628 vem ganhando popularidade. O projeto de lei, que busca obrigar plataformas digitais a enfrentar o abuso contra menores na internet, avançou no Senado após a repercussão do vídeo do influenciador Felca denunciando páginas que lucram com a exploração sexual de crianças e adolescentes.
Ainda assim, restam muitas dúvidas sobre sua real capacidade de proteger infâncias e adolescências dos perigos online. Sabemos que as redes sociais tornam as novas gerações mais vulneráveis. Mas como equilibrar proteção e curiosidade, segurança e liberdade de experimentar?
Essas e outras perguntas foram discutidas por agentes municipais, referências comunitárias e famílias na 1ª edição do Elos de Proteção, iniciativa dedicada ao combate à violência sexual e online. A roda de conversa reuniu pouco mais de 60 pessoas na Baixada Santista e contou com a mediação de Natally Suzanne, idealizadora do Instituto Reeducando com Afeto.
O encontro foi um primeiro passo para construir uma rede de salvaguarda baseada em três eixos fundamentais trabalhados pelo Instituto Elos: potencial, pertencimento e protagonismo. Mais do que conceitos, são práticas que estreitam relações humanas e oferecem caminhos para que comunidades se fortaleçam diante de cenários desafiadores.
Em Santos, essa metodologia, que sustenta o Elos de Proteção, está inserida no atual ciclo de ações das políticas públicas dedicada ao ECA na cidade: a série de encontros integra o Conexão Elos, projeto realizado desde abril graças a um fomento concedido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). São meses de experiências em espaços seguros de afeto, acolhimento e construção com adolescentes de 12 a 18 anos atendidos pela rede intersetorial de Garantia de Direitos. Enquanto os adolescentes vivem experiências fora da tela, ciclos de conversa como o Elos de Proteção ampliam o aprendizado para a formação dos adultos responsáveis pela salvaguarda das novas gerações não só em Santos, mas em toda a Baixada Santista.

Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rede potente, mas invisibilizada
É famoso o provérbio africano: “É preciso toda uma aldeia para criar uma criança”. Mas as redes locais de salvaguarda a crianças e adolescentes enfrentam diversas dificuldades pelo país afora, expondo uma faceta cruel do que escolhemos visibilizar ou não quando pensamos em juventudes brasileiras. Raramente ampliamos a lente para as periferias.
Quando olhamos para quem atua diretamente com crianças e adolescentes, percebemos uma rede potente, mas marcada pela sobrecarga. Na tentativa de ampliar o cuidado às famílias periféricas, referências comunitárias também buscam fortalecer seus territórios, mas enfrentam precariedades atravessadas por desigualdades de gênero e raça. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Elos traçou o perfil dessas lideranças na Baixada Santista: 78% são mulheres, 70% se autodeclaram negras e 96% não têm renda pessoal. São elas que, mesmo sem apoio adequado, sustentam práticas de proteção e cuidado que muitas vezes substituem ou complementam a ação do Estado.
Sobra demanda e resta pouco tempo para formação continuada e para o cultivo da rede de proteção como comunidade de transformação. É nesse vazio que surgem alternativas que oferecem perspectivas que não podem faltar na equação do cuidado.
Além do Instituto Elos, o trabalho desenvolvido por Naah Suzanne, no projeto Reeducando com Afeto, leva saúde emocional e parentalidade positiva para as periferias. Por meio de rodas de conversa de orientação parental, acolhimento emocional para idosos, formação continuada de educadores sociais e oficinas de educação emocional para crianças, adolescentes e suas famílias – sem esquecer as formações específicas para educadores e profissionais do cuidado – o Instituto ensina, na prática, o que significa ser visto e acolhido, mostrando como isso pode transformar a saúde emocional, física e mental mesmo na vida adulta.
Todos os conteúdos formativos do Reeducando com afeto têm como base os estudos de ACE’s (Experiências Adversas na Infância) promovendo e disseminando amortecedores de estresse para a prevenção de doenças e para a redução de danos com apego seguro e neurociências.
Incluir as famílias nos debates de cuidado a quem cuida é essencial, pois a estrutura do estado desconsidera as violências que cuidadores das famílias, escolas, conselho tutelar e outras organizações de cuidado estão submetidos sem poder escolher, ficando constantemente sem saída e sem suporte para lidar com as próprias necessidades.
De 2021 até 2024 o Reeducando com Afeto já acessou mais de 4 mil famílias com suas ações e eventos comunitários. Essas iniciativas mostram algo que o Estado não pode ignorar: a contribuição da sociedade civil para qualificar políticas públicas, trazendo atenção às dimensões de raça, gênero, classe e território que precisam estar no centro.
É preciso, sim, regulamentar as redes sociais. Mas é igualmente urgente cuidar de quem cuida: fortalecer conselhos tutelares, formar equipes de saúde e assistência, garantir espaços comunitários seguros. Promover formação de pais e famílias para incluí-los no cuidado externo aumentando sua participação social. A informação também promove proteção e mesmo com os riscos nas telas, temos ainda riscos na vida real, como a criminalidade, tráfico e outros muito presentes em comunidades de classe social mais baixa e vulnerabilidade.
O discurso de proteção digital poderá se traduzir em proteção real e sistêmica, com a cara e as complexidades das famílias e juventudes brasileiras, quando todos nós, incluindo o poder público, trabalhamos pela defesa das infâncias e adolescências. Fortalecer vínculos, criar espaços seguros, valorizar os cuidadores e construir redes em que todos se sintam pertencentes, este é o caminho mais seguro.
Todo cuidador precisa ser cuidado também.
Natasha Gabriel, arquiteta e Urbanista, é designer de metodologias, projetos e programas, co-fundadora do Instituto Elos, onde exerce atualmente a função de Diretora Pedagógica e de Projeto.
Pamela Gaino, educadora, é facilitadora de projetos para juventudes do Instituto Elos, e coordenadora do Conexão Elos, projeto que acontece em Santos a partir do fomento concedido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA)
Naah Suzane, neurocientista, é fundadora do Projeto Reeducando com Afeto, e especialista em emoções, mediadora de conflitos e educadora parental em educação positiva.

