Um paralelo entre o metanol e a maconha prensada
No último mês ganhou destaque na imprensa brasileira, casos de mortes e pessoas sendo internadas em estado grave após ingerirem bebidas alcoólicas
O Brasil tem na caipirinha – mix de cachaça, açúcar e gelo – um dos seus cartões de visita. A cerveja é uma “paixão nacional”, que gerou a maior cervejaria da América Latina, a Ambev[1]. Segundo o Centro de Informações sobre Álcool (CISA)[2], em relatório publicado em 2024[3], metade dos brasileiros bebem álcool em suas variadas apresentações, sendo o número de uso abusivo uma crescente, e pouco se vê políticas de redução de danos ou prevenção, além do já conhecido “beba com moderação”.
No último mês ganhou destaque na imprensa brasileira, casos de mortes e pessoas sendo internadas em estado grave após ingerirem bebidas alcoólicas, nos estados de São Paulo, Ceará, Pernambuco, Bahia, Paraná etc.[4], com mais de 100 casos registrados por contaminação com metanol. Até o momento cogitou-se que a contaminação poderia ser fortuita, por conta de processos de destilação clandestinos, que pode originar esta substância. Mas devido ao volume de casos, tanto a polícia Federal, quanto a polícia Civil suspeitam de uma atuação deliberada de organizações criminosas no uso dessa substância para higienização, antes dos whiskeys, vodkas, cachaças e gins “batizados” serem envasados em alambiques e destilarias clandestino para a venda direta a donos de bares e adegas.
Independentemente das causas, é importante perguntar: o que poderia ter gerado um problema de saúde pública dessa magnitude em um mercado regulado? Os órgãos responsáveis, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e suas representações nos estados, não fiscalizaram adequadamente essa cadeia produtiva? Infelizmente, as evidências indicam que toda essa “ressaca” não é fruto do acaso. Os sucessivos cortes orçamentários atingiram em cheio esses órgãos.
Segundo dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop), do Ministério do Planejamento, nos últimos 10 anos quase 70% do orçamento da ANVISA foi cortado, prejudicando diretamente as fiscalizações. Em 2008, foi criado o Sistema de Controle de Produção de Bebidas (SICOBE), ligado à Receita Federal, para controle dos lotes de fabricação, rastreamento de lacres, rótulos, identificação das garrafas etc.
Em 2016, no governo de Michel Temer (MDB), sob a égide neoliberal de “desburocratização”, este sistema foi desativado, prevendo que os fabricantes apenas deveriam comunicar planilhas com autodeclaração da produção. Embora fosse um instrumento fiscal, sua existência inibia fraudes em produção de bebidas fermentadas, como cerveja, mas também fiscalizou bebidas destiladas.
Este texto busca traçar um paralelo com a situação das pessoas que querem ter prazer e bem-estar através de psicoativos como a maconha. Nesse caso, em vez de regulação precária, o que impera é a proibição administrativa do de seu uso com finalidade que não seja medicinal.

Embora não haja registro de morte pelo uso do famoso “prensado”, muito se fala acerca da sua qualidade, que é “misturado com amônia”. Ocorre que ela não nasce assim. Conforme a reportagem da Agência Pública Como nasce o Prensado[5], do repórter Mathias Maxx, a maconha que vem do Paraguai é plantada clandestinamente naquele país, sendo colhida muitas vezes pouco madura, armazenada ainda úmida, sob o sol etc. Isso faz com que proliferem fungos e a decomposição da matéria produza amônia.
O percentual de “maconheiros”, aqui entendidos como quem faz uso com finalidade recreativa, no Brasil é cerca de 7% da população, segundo o 3º Levantamento sobre Uso de Drogas pela População Brasileira (FIOCRUZ, 2019). Todas essas pessoas estão expostas a um mercado ilícito que deveria ser regulado, tanto por questões de proteção à saúde, uma vez que a exposição a droga de péssima qualidade é sabidamente prejudicial, quanto em termos de orçamento público, para investimento em políticas públicas em saúde e redução de danos, com investimentos oriundos da tributação das drogas alcoólicas e naturais.
Espera-se que um antídoto[6] importado possa refrear os danos da falsificação das bebidas com etanol, mas nada substituirá um debate sério sobre regulamentação das drogas e investimentos em saúde pública.
Ítalo Coelho de Alencar é advogado especialista em Lei de Drogas, ex-presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas do Ceará (2021-2023) e mestrando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará.
[1] https://exame.com/invest/ guia/quais-sao-as-maiores-empresas-do-brasil/
[2] https://cisa.org.br/sua- saude/informativos/artigo/item/541-metade-dos-brasileiros-adultos-consome-alcool-e-1-em-cada-5-admite-exagerar-de-acordo-com-datafolha
[3] https://cisa.org.br/images/ upload/Panorama_Alcool_Saude_CISA2024.pdf
[4] https://oglobo.globo.com/ brasil/noticia/2025/10/04/crise-do-metanol-mapa-interativo-mostra-evolucao-dos-113-casos-que-ja-chegam-a-32-cidades-de-sete-estados.ghtml
[5] https://apublica.org/web- stories/como-nasce-o-prensado/
[6] https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-10/padilha-antidoto-contra-metanol-esta-garantido-em-toda-rede-de-saude

