Resgate histórico de uma trajetória notável
O Conselho Universitário da UNILA aprovou título de doutor honoris causa ao presidente do Brasil por seus esforços em prol da formação acadêmico-científica de lideranças latino-americanas
Lula da Silva ganhou inúmeros títulos Dr. Honoris Causa pelas Universidades no Brasil e no mundo. Mas nos atrevemos a dizer que talvez o mais orgânico deles seja o que iremos concedê-lo agora na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Um visionário e apaixonado pela educação pública e pela integração latino-americana, quando foi homenageado com o título de Doutor Honoris Causa em Paris, pela Universidade Paris 8, durante visita de Estado à França em 6 de junho de 2025, Lula mencionou a UNILA:

“Eu queria lembrar vocês que eu também sonhava em ter dois tipos de universidades no Brasil. Eu sonhava que a gente deveria ter uma universidade latino-americana, uma universidade que discutisse a cultura latino-americana, com professores latino-americanos, com estudantes latino-americanos, com funcionários latino-americanos. E criamos a Unila (universidade latino-americana), na cidade de Foz de Iguaçu, no estado do Paraná, que, se Deus quiser, estará pronta em 2026. Ela ficou parada durante todo o período do golpe contra a Dilma (Rousseff, ex-presidenta do Brasil) e durante o golpe anterior, mas nós agora estamos investindo R$ 800 milhões para que a gente possa terminar de construir uma universidade que é um sonho meu; de estabelecer uma cultura latino-americana para dirigentes latino-americanos. E somente com a juventude é que a gente pode começar isso”.
Lula certamente se orgulha desses 15 anos de UNILA, tanto por sua proposta inclusiva, mas também por seu caráter latino-americano e inovador.
Uma universidade “com cara de povo” e voltada para uma das regiões mais injustas e desiguais do mundo, mas também com uma riqueza e beleza singulares, especialmente por nossa cultura ao mesmo tempo una e diversa. A canção Latinoamérica, de Calle Treze, nos representa muito nesse sentido.
Em seu primeiro discurso de posse presidencial em 2003, de forma emocionada Lula da Silva disse:
“O Brasil é grande. Apesar de todas as crueldades e discriminações, especialmente contra as comunidades indígenas e negras, e de todas as desigualdades e dores que não devemos esquecer jamais, o povo brasileiro realizou uma obra de resistência e construção nacional admirável. Construiu, ao longo dos séculos, uma Nação plural, diversificada, contraditória até, mas que se entende de uma ponta a outra do território. Dos encantados da Amazônia aos orixás da Bahia; do frevo pernambucano às escolas de samba do Rio de Janeiro; dos tambores do Maranhão ao barroco mineiro; da arquitetura de Brasília à música sertaneja. Estendendo o arco de sua multiplicidade nas culturas de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e da região Centro-Oeste. Esta é uma Nação que fala a mesma língua, partilha os mesmos valores fundamentais, se sente que é brasileira. Onde a mestiçagem e o sincretismo se impuseram, dando uma contribuição original ao mundo. Onde judeus e árabes conversam sem medo. Onde toda migração é bem-vinda, porque sabemos que, em pouco tempo, pela nossa própria capacidade de assimilação e de bem-querer, cada migrante se transforma em mais um brasileiro”.
Também argumentou:
“Nossa política externa refletirá também os anseios de mudança que se expressaram nas ruas. No meu Governo, a ação diplomática do Brasil estará orientada por uma perspectiva humanista e será, antes de tudo, um instrumento do desenvolvimento nacional. Por meio do comércio exterior, da capacitação de tecnologias avançadas, e da busca de investimentos produtivos, o relacionamento externo do Brasil deverá contribuir para a melhoria das condições de vida da mulher e do homem brasileiros, elevando os níveis de renda e gerando empregos dignos”.
E concluiu:
“A grande prioridade da política externa durante o meu Governo será a construção de uma América do Sul politicamente estável, próspera e unida, com base em ideais democráticos e de justiça social (…) Cuidaremos também das dimensões social, cultural e científico–tecnológica do processo de integração. Estimularemos empreendimentos conjuntos e fomentaremos um vivo intercâmbio intelectual e artístico entre os países sul-americanos. Apoiaremos os arranjos institucionais necessários, para que possa florescer uma verdadeira identidade do Mercosul e da América do Sul. Vários dos nossos vizinhos vivem, hoje, situações difíceis. Contribuiremos, desde que chamados e na medida de nossas possibilidades, para encontrar soluções pacíficas para tais crises, com base no diálogo, nos preceitos democráticos e nas normas constitucionais de cada país. O mesmo empenho de cooperação concreta e de diálogos substantivos teremos com todos os países da América Latina (…) A democratização das relações internacionais sem hegemonias de qualquer espécie é tão importante para o futuro da Humanidade quanto a consolidação e o desenvolvimento da democracia no interior de cada estado”.
Sobre o Brasil, mas que se aplica a toda América Latina e em consonância com a missão da UNILA, afirmou:
“O Brasil pode dar muito a si mesmo e ao mundo. Por isso devemos exigir muito de nós mesmos. Devemos exigir até mais do que pensamos, porque ainda não nos expressamos por inteiro na nossa história, porque ainda não cumprimos a grande missão planetária que nos espera. O Brasil, nesta nova empreitada histórica, social, cultural e econômica, terá de contar, sobretudo, consigo mesmo; terá de pensar com a sua cabeça; andar com as suas próprias pernas; ouvir o que diz o seu coração. E todos vamos ter de aprender a amar com intensidade ainda maior o nosso país, amar a nossa Bandeira, amar a nossa luta, amar o nosso povo”.
Também foi muito salutar a sua visão sobre o Sistema Internacional em seu discurso na abertura da 59ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro de 2004:
“Os antigos súditos converteram-se em devedores perpétuos do sistema econômico internacional. Barreiras protecionistas e outros obstáculos ao equilíbrio comercial, agravados pela concentração dos investimentos do conhecimento e da tecnologia, sucederam ao domínio colonial. Poderosa e onipresente, uma engrenagem invisível comanda à distância o novo sistema. Não raro, ela revoga decisões democráticas, desidrata a soberania dos Estados, sobrepõe-se a governos eleitos, e exige a renúncia a legítimos projetos de desenvolvimento nacional. Manteve-se a lógica que drena o mundo da escassez para irrigar o do privilégio.”
O caminho até 2025 foi complicadíssimo e não alcançamos esses objetivos ainda, mas, como diria Eduardo Galeano, “para que serve a utopia? Justamente para continuar caminhando”.
A criação de uma universidade latino-americana
A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) é uma instituição de educação superior criada no Brasil por iniciativa do Presidente Lula em 2010. Cabe relembrar que autores como Celso Furtado tinham uma grande preocupação com a questão do subdesenvolvimento relacionado à cultura. Para Celso Furtado: “A primeira condição para liberar-se do subdesenvolvimento é escapar da obsessão de reproduzir o perfil daqueles que se auto intitulam desenvolvidos. É assumir a própria identidade. Na crise de civilização que vivemos somente a confiança em nós mesmos poderá nos restituir a esperança de chegar a bom porto”.
Em consonância, a UNILA tem uma grande responsabilidade, pois representa a possibilidade do aprofundamento de um pensamento próprio mais adequado às nossas necessidades.
Sublinhando os desafios, estamos imersos num debate que possui a “antiga” Universidade como referência a superar. Nas palavras de Souza Santos, “numa sociedade desencantada, o reencantamento da Universidade pode ser uma das vias de simbolizar o futuro”.
A ex presidenta Dilma Rousseff, durante a instalação da cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada em Caracas, Venezuela, em 2 de dezembro de 2011, ressaltou a importância estratégica da UNILA:
“Trata-se da primeira universidade plurilíngue e multicultural dedicada à região. Ela deverá especializar-se em cursos de graduação e pós-graduação relacionados à temática da integração da América Latina e do Caribe (…) o Brasil é um país grande, mas só será um grande país se for capaz de construir com seus vizinhos uma integração que transforme nossa região e desenvolva suas potencialidades econômicas e sociais. E que é preciso avançar no processo de fortalecimento de criação de um projeto de crescimento solidário, no qual a prosperidade de um país produz também a prosperidade de todos”.
Portanto, entendemos que a UNILA tenha por missão contribuir com a integração por meio do conhecimento compartilhado e da cooperação solidária, assim como descrito em seu projeto de criação ao campo das Relações Internacionais, mas que se estende aos demais cursos da UNILA, conforme seu documento fundador, de 2009:
“Em tal ensejo, estruturada no bilinguismo, na interdisciplinaridade e na interculturalidade, a UNILA torna-se espaço privilegiado para a construção de conhecimento em Relações Internacionais e Integração. Ao oferecer ensino público, gratuito e de qualidade para estudantes oriundos de diferentes países latino-americanos, a Universidade situada na tríplice fronteira Brasil-Argentina-Paraguai representa o anseio de institucionalização da pesquisa em Relações Internacionais, aprofundando a autonomia do campo e simbolizando a virada interpretativa do mesmo, associando-o aos desafios latino-americanos e à busca da integração em novas bases cognitivas”.
Uma perspectiva adicional a essa é dada por Ingrid Sarti, docente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional – PEPI, da UFRJ, que participou da Comissão de Implantação da UNILA:
“As elaborações do pensamento crítico sobre o potencial sul-americano produzido dentro e fora do continente baseiam-se nos projetos de desenvolvimento e integração que passam a ser adotados como estratégia-chave de inserção regional no sistema mundial pelos governos progressistas eleitos em democracias representativas consolidadas neste milênio. O interesse que essas experiências ainda em construção despertam reside justamente no caráter inovador e inacabado de sua proposta, que distingue o projeto de integração vigente dos modelos tradicionais adotados na Europa e, anteriormente, na América Latina. É nele que se depositam as expectativas de uma alternativa ao capitalismo, em cada Estado, que autorize a inserção soberana da região na nova ordem mundial, sob a perspectiva de um processo contra hegemônico”.
O então Ministro da Educação, Fernando Haddad, na ocasião da posse da Comissão de Implantação da UNILA, em março de 2008, propôs como objetivo da referida instituição de ensino superior o atendimento às demandas do ensino universitário para o século XXI. “Tal Universidade deve vislumbrar um modelo inovador de gestão de forma a promover a integração Latino-Americana por meio do conhecimento”. Haddad ressaltou também que, quanto mais ousado e coerente fosse o projeto, maior seria a chance de sucesso e maior a possibilidade de que a instituição pudesse oferecer rapidamente ao continente uma experiência que realmente servirá de exemplo para outras áreas de cooperação. Assim, pretende-se “criar, efetivamente, na educação, um novo paradigma, para que outros setores possam também se adequar aos novos tempos”
Como vemos, esse Título Honoris Causa talvez seja o mais orgânico e merecido para um brasileiro e latino-americano que ousou sonhar e colocar em prática um novo modelo de sociedade, mais igualitária, através da educação para o Brasil e para a região latino-americana. E mais do que isso, trazer a esperança que possamos construir nosso futuro de forma solidária e autônoma frente a um mundo cada vez mais egoísta e conflitivo.
Terminamos com parte do discurso de abertura da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, em 23 de setembro de 2025, em que Lula proferiu em seu terceiro mandato como presidente do Brasil:
“Este ano, o mundo perdeu duas personalidades excepcionais: o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, e o Papa Francisco. Ambos encarnaram como ninguém os melhores valores humanistas. Suas vidas se entrelaçaram com as oito décadas de existência da ONU. Se ainda estivessem entre nós, provavelmente usariam esta tribuna para lembrar:
Que o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis;
Que os únicos derrotados são os que cruzam os braços, resignados;
Que podemos vencer os falsos profetas e oligarcas que exploram o medo e monetizam o ódio; e
Que o amanhã é feito de escolhas diárias e é preciso coragem de agir para transformá-lo”.
Fábio Borges é economista, doutor em Sociologia, diretor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política (ILAESP) e professor do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL), ambos da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).
Paula Regina dos Santos é bióloga, especialista em Ensino de Ciências, que trabalha atualmente como técnica de Química nos Laboratórios de Ensino da UNILA, no Parque Tecnológico de Itaipu.
Roldy Julien é jornalista, técnico em Meio Ambiente e Turismo, internacionalista, mestrando em Relações Internacionais (UNILA) e presidente da Associação dos Migrantes, Indígenas e Refugiados de Foz do Iguaçu (AMIRF).

