MARXISMO

A Revolução de Fevereiro e o encantamento de Gramsci

Antonio Gramsci, como um importante intérprete dos movimentos políticos do início do século, explica-nos os movimentos manifestados nessa luta

A Revolução de Fevereiro na Rússia foi um marco significativo no cenário europeu da Primeira Guerra, assinalando a queda do czarismo e do modelo autocrata russo. A insatisfação popular com a entrada da Rússia na guerra, os altos impostos cobrados pelo regime do czar Nicolau II e a situação de extrema miséria que assolava os mais pobres insurgiu a revolta popular. Recebendo apoio da própria cavalaria do governo, os camponeses, os funcionários industriais e os soldados russos, insatisfeitos e acabrunhados pelas mazelas sociais e econômicas crescentes, se uniram e foram às ruas lutar por seus direitos.

O resultado disso tudo foi a restituição do conselho de trabalhadores (os sovietes), que ajudou no comando de um governo provisório, e, por fim, Nicolau II abandonou o trono. Somente em Outubro de 1917, os Bolcheviques assumiram o comando e constituiram o socialismo na Rússia, a partir da tomada de poder das mãos dos Mencheviques – que acreditavam na burguesia como o grupo mais competente para governar após a queda do Czar, além de uma revolução moderada, diferente dos bolcheviques, que defendiam uma radical mudança na sociedade e a revolução socialista armada. Os Bolcheviques seguiram o modelo de organização preconizada por Lênin, na defesa por um partido interventor e centralizador nos espaços de militância do proletariado e dos espaços de discussão.

O tema da relação de Gramsci com o leninismo e o bolchevismo vem sendo debatido há anos, mas, hoje, um quarto de século após a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), pode-se recapitular com maior abrangência literária e histórica o que representou essa mudança no cenário mundial. Gramsci, como um importante intérprete dos movimentos políticos do início do século, explica-nos os movimentos manifestados nessa luta. Com efeito, sugere-se que, isolando o tema da Revolução Russa, é possível ver mais precisamente a formação das principais categorias do pensamento político de Gramsci, por conseguinte seu encantamento com o modelo apresentado.

O filósofo Antonio Gramsci (Wikimedia Commons)
O filósofo Antonio Gramsci (Wikimedia Commons)

Nos primeiros meses de 1917, Antonio Gramsci, então escritor do jornal socialista de Turim, Il Grito del Popolo, e colaboracionista da edição piemontesa do jornal Avanti! – curiosamente, o mesmo jornal em que Benito Mussolini fora editor e três anos antes havia sido expulso –, sofria com a falta de notícias da Revolução de Fevereiro na Rússia, que era coberta de modo parcial por meios de comunicação e agências de Paris e Londres, limitando-se por poucos artigos.

A necessidade de obter informações abrangentes e confiáveis faz com que o Partido Socialista Italiano (PSI) pedisse ao deputado Oddino Morgari, por telegrama, que se dirigisse até Petrogrado para fazer contato com os revolucionários. A viagem, entretanto, não aconteceu. A excitação do jovem Gramsci com os eventos que ocorriam na Rússia era notável, ao ponto dele considerar que esse movimento abalaria e mudaria as relações internacionais como um todo, e que a força do proletariado russo poderia inflar diretamente os trabalhadores italianos diante da guerra. 

Leia também “Odeio os indiferentes: escritos de 1917” de Antônio Gramsci, com tradução de Álvaro Bianchi e Daniela Mussi (Editora Boitempo, 2020)

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Segundo Silvio Pons, da Università degli Studi di Roma “Tor Vergata”, o autor italiano dá crédito sem reservas à ação de Lenin e dos bolcheviques, não os vendo como utópicos, mas como realistas. Para Gramsci, eles atuaram como “organizadores da consciência de massa e portadores de ordem no caos russo”, além de aderir “à ideia e à prática da ditadura do proletariado como instituto de garantia da liberdade”. 

Gramsci não tem uma visão positiva do pós-guerra, pelo contrário, adotando uma postura pessimista se a Europa não tomasse novos rumos para reconstrução. Mesmo fugindo de determinismos, Gramsci considera a perspectiva da reconstrução europeia pela possibilidade de direção de uma nova classe, construtora de uma ordem mundial unificadora, que, em outras palavras, seria a “substituição radical do Estado democrático-parlamentar por um sistema de Conselhos operários e camponeses” (L’Ordine, Nuovo, 2 Ago. 1917). Essa revolução, na visão do autor, não poderia ser interrompida e deveria superar o mundo burguês. 

Ainda que em 1917 o conhecimento acerca das ideias bolcheviques fosse escasso, segundo os Professores Álvaro Bianchi (UNICAMP) e Daniella Mussi (USP) “Gramsci viu em Lênin e nos Bolcheviques a encarnação de um programa de renovação de uma revolução ininterrupta. Uma revolução que ele queria que se tornasse real também na Itália”. Em seus cadernos escritos na prisão, reafirmam os professores, Gramsci constrói “uma teoria da política na qual a força e o consenso não são elementos separados e na qual o Estado é concebido como o resultado histórico de processos de forças entrelaçadas, processos nos quais raramente produzem condições vantajosas para os grupos subalternos”. 

A Revolução Russa foi vista para o autor italiano como um importante instrumento das massas para a emancipação da classe trabalhadora. Mesmo após sua prisão e mudança de perspectiva em seus escritos, tentando encontrar novos horizontes e perspectivas na luta contra o capitalismo – através de uma “revolução passiva”, sem armas –, não se descarta a referência histórica e pragmática que a Revolução de Fevereiro significou para o autor. 

Desse modo, Gramsci, sobretudo, considera os diversos elementos sociais e históricos que envolviam aquele contexto italiano e amplia de maneira singular os conceitos marxistas e as categorias. Por mais que a “revolução passiva” tenha se formado durante seus escritos na prisão, não seria prudente afirmar que houve um distanciamento ou um desencanto por parte do autor, mas uma revisão gradativa que leva em consideração os eventos que se sucediam, deixando possibilidades abertas sem esquecer-se das forças historicamente determinantes.

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