Síndrome de Estocolmo entre trabalhadores da Disney de Paris - Le Monde Diplomatique

O SONHO GERENCIAL NÃO ENCONTRA RESISTÊNCIA

Síndrome de Estocolmo entre trabalhadores da Disney de Paris

por Pierre Souchon
1 de agosto de 2015
compartilhar
visualização

As revelações do LuxLeaks sobre elisão fiscal e contas secretas em Luxemburgo deram projeção às práticas de sonegação de imposto da Disney. Constrangedoras, as informações são ocultadas no parque de diversões de Marne-la-Vallée, onde prospera a visão de uma empresa consensual, reunida em torno de valores comuns.Pierre Souchon


No jardim dessa casa de Marne-la-Vallée, na região de Paris, uma dezena de pessoas está ocupada com o primeiro churrasco da nova primavera. “Quase todos os moradores do bairro trabalham na Disney. Principalmente na chefia”, indica Olivier.1 Atualmente motorista-entregador, o ex-funcionário da Disneylândia de Paris divide a residência, minúscula, com três camaradas: o nível dos aluguéis na cidade nova impede que esses jovens prestadores de serviços assumam sozinhos o aluguel de um apartamento pequeno. Enquanto as cervejas vão se esvaziando, Raphaël acende um cigarro. Esse pai de família foi contratado pela Disneylândia na época da abertura do parque de atrações, em 1992. “Somos 15 mil cast members [‘membros da trupe’];2 há quinhentas funções. É uma cidade dentro da cidade. Eu faço vários serviços: paisagismo, limpeza, segurança… Essa variedade de empregos é ótima, uma verdadeira riqueza. Que outra empresa poderia oferecer algo assim?”

Quando entrou na transnacional norte-americana, com seu diploma de colegial, Raphaël tinha 20 anos. “Éramos uma família, milhares de jovens contratados, vindos de toda a Europa e do mundo inteiro. No fim de semana, nos campos aqui ao lado, fazíamos festas techno inacreditáveis. Esquadrões de CRS [Polícia de Manutenção da Ordem (N.T.)] apareciam regularmente aos domingos com os cachorros… Era cassetete para todo lado!” Seus olhos brilham: “Isso gerava situações bizarras… Na véspera, a menina que fazia a Bela Adormecida no alto do carro de desfile estava louca de ecstasy em posições pouco convencionais… E, de repente, com uma supermaquiagem, ela estava encantando as crianças!”.

“É exatamente isso a Disney”, acrescenta Soraya, que também entrou na época de criação do parque. “Balada dentro, balada fora, espírito de equipe! Há uma convivência extraordinária… Além disso, vivemos momentos fora do comum.” Como lembramos que nenhum membro da direção se infiltrou no churrasco para vigiar as palavras dos funcionários, ela se defende: “Mas a Disney é realmente excepcional! Eu assisti à visita do George Bush pai, em 1994! Um pouco depois foi o rei do Marrocos que veio. Ele observou os cast members do seu carro oficial. Quando passou perto de mim, disse: ‘Salam aleykoum!’. Eu dei bom dia, e ele parou para conversar comigo em árabe! Não podemos viver algo assim em outro lugar”.

No entanto, a excepcional Disney se preocupa principalmente com o cuidado metódico, obsessivo, de apagar as relações de trabalho tradicionais: “Nós todos trabalhamos seguindo o mesmo script, falamos a mesma linguagem do show business Disney”, reivindica o livreto “Você fala a língua da Disney?”.3 “Recebemos um público, e não uma multidão. Nosso público é composto por visitantes, e não clientes. Não temos policiais ou guardas, mas cast members de segurança. Vestimos fantasias, e não uniformes.” Diretora de comunicação da Disneylândia Paris, Cathy Pianon deixa de lado qualquer tipo de ceticismo: “Para nós, há um consenso. Muitos de nossos cast members chegaram no começo da aventura. Eles podem ter trabalhado na manutenção do maquinário há vinte anos e serem chefs de cozinha hoje. Eles construíram o parque, é o projeto de vida deles”.

Mais de três quartos dos altos funcionários de fato vieram da promoção interna. Inclusive, a empresa se vangloria de contar com 86% de contratos de duração indeterminada, dos quais a esmagadora maioria em período integral com salários de cerca de 2.150 euros brutos. Na Disneylândia Paris, os velhos antagonismos do mundo do trabalho teriam desaparecido e só sobreviveriam na cabeça de alguns marxistas toscos: “Trabalhamos todos para o sonho, e todo mundo é fã da marca”, continua Pianon. “As lógicas de oposição são válidas nas empresas onde existe um abismo, onde se começa como operário especializado e se termina como operário especializado. Isso é o filme Tempos modernos, não a Disney.” Não sabemos se ela submeteu essa análise a Saïdou, malinês de 42 anos e funcionário de uma empresa de limpeza terceirizada da Euro Disney. Ele vem todos os dias de Chartres para fazer cinco horas de faxina.

 

Chaveiros, canecas e pelúcias gigantes

Depois de provar as linguiças, Olivier nos levou de carro a um hospital vizinho. Sua amiga Stéphanie está se recuperando de uma operação. No seu quarto, impossível escapar dos chaveiros, canecas, pôsteres e pelúcias gigantes da Disney: “É uma paixão! E você não pode imaginar a que ponto o pessoal do trabalho me apoiou”, diz exaltada a funcionária da empresa, feliz porque a atriz norte-americana Angelina Jolie foi anunciada como uma das próximas visitantes do parque. Brigada com uma parte de sua família, Stéphanie por outro lado recebeu os votos de melhoras do presidente da Euro Disney, Philippe Gas,4 cujo cartão-postal estrelado enfeita sua cama: “Cara Stéphanie, estou feliz de saber que você está melhorando. Pensamos muito em você”.

Visitante regular de sua amiga acamada, Sophie se instala no quarto. Costureira na Disneylândia, ela considera seu trabalho “magnífico”: “Trabalhamos num negócio alucinante, ainda que para alguns vá longe demais: eles colecionam tudo, os bonequinhos, as pelúcias, os filmes… Também não dá para exagerar”. Pegando seu telefone, ela exibe em sua tela durante mais de meia hora as fotos de suas últimas realizações, assim como os novos canteiros de flores representando leopardos e leões. Quando zombamos gentilmente de sua definição de “exagero”, um homem de cerca de 40 anos de terno e gravata bate na porta. Membro da direção da Euro Disney, ele pertence ao círculo próximo de Gas. Sua visita de cortesia quase acaba mal, pois, ao vê-lo, Stéphanie, abalada pela emoção, perde o controle e chora por muito tempo. Para ser educado, o visitante não tem nada de particular a dizer e rapidamente vai embora. “Em que outra empresa você teria um apoio desses? É simplesmente mágico”, balbucia Stéphanie, que mal se recuperou do choque.

Durante uma parte de seu tempo livre, de seus fins de semana ou de suas férias, ela é voluntária na Disneylândia, como cerca de seiscentos dos seus colegas – os voluntEARS, anglicismo do vocabulário comum na casa. Ela ajuda na decoração, ou então mostra o parque para jovens carentes: “Eles nunca foram a lugar nenhum. É o passeio deles, sua aventura; ficam fascinados. É muito bonito de ver”. Ela seria voluntária no fim de semana se trabalhasse em uma fábrica? “Ah, nunca!”, replica. “Mas aqui é a Disney, é… outra coisa. É magia, é sonho.”

Para os clientes, esse sonho tem um preço: em razão do pedido insistente de seus dois filhos, fascinados pelo recente desenho animado Frozen, Muriel levou as crianças para passar o último réveillon na Disneylândia. “Economizei metade do ano, colocando meus bônus na poupança”, explica a operária temporária vinda da região de Oise. “Com as entradas, a alimentação, a hospedagem e os transportes, gastei mais de 500 euros – sem contar as lembrancinhas. Mas as crianças estavam em êxtase, e ainda falam a respeito… É verdade que a Disney é um conto de fadas.”

Agora estamos convencidos: os cast members que entraram jovens na empresa, com um espírito festivo, beneficiam-se de promoções internas em uma atmosfera de sonho, onde uma mesma comunidade de interesses reúne 15 mil pessoas sob a bandeira da magia. Mesmo assim, fomos verificar junto aos sindicatos. Ainda que todos sejam representados na Disneylândia, apenas a Confederação Democrática do Trabalho (CFDT), a mais combativa, aceita nos receber. “As pessoas evoluem no mundo maravilhoso da Disney”, confirma Djamila Ouaz, delegada sindical. “Esse discurso da direção sobre o sonho funciona muito bem, é nosso principal obstáculo. Os funcionários só vêm nos procurar quando estão com as costas na parede.” Delegado também, Benoît Gallopain lamenta essa “síndrome de Peter Pan, com funcionários que permanecem crianças em suas mentalidades e aceitam dizer ‘Entrem, por favor’ no parque há 25 anos”.

Se acreditamos nos dois, o reverso da moeda seria feito pelas contratações de amigos, funcionários muito qualificados com empregos flexíveis e ganhando o salário mínimo, discriminações étnicas, funcionários terceirizados explorados… Mas quando interrogamos os militantes a respeito de seus objetivos, Gallopain evoca mais “uma gestão de carreiras, a regulamentação no respeito do ser humano: vantagens para o empregador”. Ele garante que um sindicalismo ofensivo na Disneylândia se choca com a “chantagem do emprego, já que nos lembram sem parar a dívida colossal detida pelo parque, e que nos valeu diversas recapitalizações”. Ele lamenta inclusive a falta de apoio das estruturas nacionais de sua central, que seria mais do que útil em uma empresa na qual a tradição sindical é inexistente e a luta deve ser inventada: “Diante de nós, temos a Walt Disney Company. Eles funcionam com uma Ferrari, e a gente com um Fiat 500…”. Apesar da adversidade, alguns aguentam. Gari na época da abertura do parque, Daniel Royedo, na casa dos 40 anos, foi condenado a permanecer na parte de baixo da pirâmide por causa do seu engajamento sindical. Aparentemente, não resolveu: “A única coisa que me preocupa é defender o trabalhador”.

 

“Se tiver uma revolução…”

A filha mais velha de Raphaël puxa o pai pela camisa: “Estou estressada, papai… Temos de ir”. Léa participa no final da tarde das fases classificatórias do campeonato francês de cheerleading– ela é uma pom-pom girl. No ginásio Olympe de Gouges, da cidade vizinha, Serris, cerca de quinhentas pessoas encorajam as equipes, compostas em sua quase totalidade por adolescentes: “Let’s go, Savigny, let’s go! Let’s go, Charenton, let’s go!”. A performance é inteira em inglês: “Fight! Win!” (“Lutem! Ganhem!”). A Federação Francesa de Futebol Americano administra o esporte importado do outro lado do Atlântico: “Nas comunas do Val da Europa, funciona cada vez mais, e é graças à influência da Disney”, alegra-se Anne, a mãe de Léa, que também trabalha no parque desde sua inauguração. Primeiro como recepcionista, ela se tornou senior manager: “É uma empresa fantástica”, garante, com mais entusiasmo ainda depois que a equipe de sua filha foi classificada.

De volta à casa de Olivier, no começo da noite, brindamos a essa vitória, ao mesmo tempo que assistimos distraidamente à BFM-TV. A extrema direita acabou de ganhar em catorze cidades no segundo turno das eleições municipais. Olivier e seus amigos nunca votaram: “Os políticos são todos podres, bandidos”. Todos dizem “detestar o sistema”; os jornalistas também, “que manipulam e dizem o que querem”: “Se houver uma revolução, vamos participar”.

Às vezes, a Euro Disney é manchete dos jornais econômicos. Perdendo velocidade, apesar do seu status de primeiro destino turístico europeu, o parque de diversões teve de ser recapitalizado em cerca de 1 bilhão de euros.5 A direção pode assim insistir sobre a moderação dos salários, mais do que nunca necessária diante das dificuldades. Ela, no entanto, se mostra bem menos loquaz quando a Disney atrai a atenção de um consórcio internacional de jornalistas investigativos: para evitar uma carga de impostos muito alta nos Estados Unidos e na Europa, o gigante norte-americano colocou em ação um dispositivo fiscal sofisticado em Luxemburgo, completado por uma entidade nas Ilhas Cayman, que permitiram que ela fizesse economias substanciais, com uma taxa de impostos de menos de 1% entre 2009 e 2013.6 O fisco francês perdeu na operação cerca de 16 milhões de euros. A estratégia da Disney parece clara: secar a filial de Marne-la-Vallée seria algo metodicamente organizado com a finalidade de uma otimização fiscal. Procuramos em vão os rastros de tais informações nos panfletos ou nos jornais dos sindicatos da empresa. “As revelações do LuxLeaks devem ser lidas”, suspira Gallopain. “Os sindicalistas não fazem isso…” Seria uma bela oportunidade, no entanto, para quebrar o mito da empresa reunida por um “sonho” e por um “consenso” – a não ser o consenso dos amantes da sonegação de impostos no Grande Ducado de Luxemburgo.

No final das contas, apenas Pianon evoca a dimensão “alienadora” do seu trabalho: “Eu não faria toda a minha carreira profissional na Disney”. Ela ocupou diferentes cargos na Vinci, Vivendi, Veolia: “É preciso se mexer, não ficar muito tempo onde quer que seja, qualquer que seja a empresa, para manter seu livre-arbítrio”.

Pierre Souchon é colaborador do Le Monde Diplomatique (França).



Artigos Relacionados

ELEIÇÕES 2022

Voto útil: o chamado ao primeiro turno em 2022

Online | Brasil
por Luísa Leite e Alexsandra Cavalcanti
CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA

Uma escolha nada difícil

Online | Brasil
por Guilherme Antonio de A. L. Fernandes
CENÁRIO LATINO-AMERICANO

Os desafios da “nova Onda Rosa” na América do Sul

Online | América Latina
por João Estevam dos Santos Filho
AUTOCRATIZAÇÃO

Erosão democrática no Brasil de Bolsonaro

Online | Brasil
por Carolina Azevedo
GUILHOTINA

Guilhotina #185 - José Celso Cardoso Jr. e Monique Florencio de Aguiar

DEMOCRACIA AMEAÇADA

Três dimensões para pensar a eleição mais importante da Nova República

Online | Brasil
por João Rafael Gualberto de Souza Morais
Qual é o plano?

A guerra às drogas precisa parar. Os presidenciáveis estão preparados para essa conversa?

por Juliana Borges
O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Cozinhas Populares apontam caminhos para a soberania alimentar

por Campanha Periferia Viva