Slam, a liberdade é revolucionária - Le Monde Diplomatique

Fazer Literário Periférico II

Slam, a liberdade é revolucionária

por Lara Nunes
19 de novembro de 2022
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Justamente por conta desse ideal de democratização e da valorização da oralidade, o movimento Slam encontra nas periferias do Brasil um terreno fértil para se desenvolver.

Quando Roberta Estrela D’Alva idealizou e fundou o ZAP! – Zona Autônoma da Palavra, organizado junto ao Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, em 2008, no estado de São Paulo, ainda eram desconhecidos os desdobramentos que essa criação poderia alcançar. Tratava-se do primeiro poetry slam do Brasil, uma batalha de poesia falada onde a palavra poética, política e performática era a protagonista. Inspirado no movimento que surgiu em 1986 nos Estados Unidos, o slam estabelece comunidades pelo mundo inteiro, vem sendo construído no Brasil há quase quinze anos e é, para além de uma escola literária em curso, uma força movedora das vozes subalternizadas e periféricas que se contrapõem a um campo literário hegemônico e contestam um projeto de sociedade baseado na exploração e nas opressões.

Mas o que faz com que esse espaço seja tão enérgico e potente? O que há nessas batalhas a ponto de revolucionar tantos cotidianos, quebrar barreiras e torcer conceitos do que se entende canonicamente como lírica? Por que uma competição como essa se firma cada vez mais na linha de frente da poesia marginal contemporânea brasileira?

Para começar, pontuo aqui o que configura um Slam e quais são suas particularidades. Em todo o globo, onde acontece batalha de poesia falada, são três as regras principais: 1) o poema precisa ser autoral; 2) a apresentação não pode durar mais do que três minutos; 3) não é permitido o uso de cenário, figurino, adereço ou acompanhamento musical. Dessa forma, é firmada uma relação estrita entre texto, corpo e voz na construção das apresentações. Ao final de cada performance, um corpo de júri atribui notas de 0 a 10, e o poeta que conquistar a maior pontuação é o campeão ou campeã da vez. Esse júri, em geral, é composto por cinco pessoas escolhidas aleatoriamente no momento da batalha, e as notas não são guiadas por uma lista de critérios, a fim de reforçar que qualquer pessoa é capaz de sentir um poema. Não precisa acessar um repertório prévio, ter lido esta ou aquela obra, ter uma experiência acadêmica ou mesmo saber ler e escrever. Para sentir um poema, só é preciso escutar o poema. Outras regras existem, mas podem se adaptar à dinâmica de cada região para que haja um funcionamento mais livre, de modo que o ideal de democratização da poesia não se perca.

E, justamente por conta desse ideal de democratização e da valorização da oralidade, o movimento Slam encontra nas periferias do Brasil um terreno fértil para se desenvolver. Recorrendo à noção de tempo espiralar, cunhada pela ensaísta brasileira Leda Maria Martins, em que passado, presente e futuro coexistem e coabitam nossas existências, tomo a liberdade de afirmar que, quando o spoken word aterrissou no país, já estavam no balaio as histórias contadas pelos griots em África, as narrativas das sociedades indígenas, os contos, fábulas e parlendas, o repente e a embolada nordestina, o rap, as batalhas de rima, os saraus. Logo, o slam, com toda sua energia e inovação no formato e na maneira de chegar ao público, e sem a pretensão primeira de se firmar como fenômeno dissidente e decolonial, torna-se, no encontro com a tradição oral, mais uma atualização ancestral para contar histórias. Mais do que isso, para contar as nossas histórias, sob nosso ponto de vista, criando as próprias métricas e disseminando, a partir do mote da competição, vivências jovens, negras, indígenas, periféricas, femininas, LGBTQIAP+, PCDs, candomblecistas e tantas outras em suas diversas instâncias.

Nesse sentido, apresento neste texto algumas impressões e discussões sobre as vozes dos Slams no Brasil e sobre como se dá o trabalho coletivo de construção e manutenção de uma batalha, levando em consideração as potencialidades e dificuldades encontradas no caminho, com base na minha experiência como slammer e na coprodução do Slam das Mulé, no município de Camaçari – BA.

Slams no Brasil: a rua como aliada

Apesar de ter sido criado num bar de jazz em Chicago, o Slam adquire um caráter de urbanidade quando desembarca em São Paulo, e essa urbanidade se espalha facilmente pelo território nacional. Depois do ZAP!, que se organizava para acontecer em diferentes espaços, veio o Slam da Guilhermina, fundado em 2012 e realizado periodicamente na praça da estação de metrô Guilhermina-Esperança, Zona Leste Paulistana, inaugurando a tendência de reunir poetas para batalhar na rua e conquistar o público transeunte. Essa tendência foi se alargando regiões afora até chegar na Bahia, e foi assim que eu conheci o movimento e me encantei por ele, numa das primeiras edições do Slam das Mulé, em 2018. A rua teve e tem um valor crucial na dinâmica das batalhas por ser um espaço de transição de pessoas, sempre tem alguém escutando, nem que seja um pouquinho do que o poeta tem a dizer. Seguindo essa lógica, nunca haverá falta de público, pois se é inevitável passar pela rua, será igualmente inevitável passar pela poesia.

Essa mesma rua, com seus becos, ladeiras e encruzilhadas, serve de inspiração para o material textual e performático de cada poeta slammer. O tema é livre, não há restrições de assunto para o poema, mas é importante pontuar que o trabalho desses e dessas artistas é indissociavelmente ligado às questões sociopolíticas, econômicas e interpessoais que lhe atravessam, de modo que as particularidades do seu território não têm como ficar de fora. O povo tem sede de se apropriar dessa rua, onde moram os mais belos e contraditórios signos poéticos, onde gritam as desigualdades e violências, onde fica escancarado o lugar (ou o não-lugar) de cada um. Então, ao encontrar no Slam uma abertura para expressar livremente seus sentimentos e inquietações, surgem os versos de combate, denúncia e desabafo, junto à tentativa de construir uma rede de afeto e acolhimento entre quem fala e quem escuta. Surge também a resistência pelas vias do amor, da comunhão, do abraço, do resgate da autoestima. Em três minutos, o poeta fica do tamanho da rua e ninguém percorre por ele sem se sentir expandido.

Alguns poemas são como gritos que saem direto do coração para o papel, ainda desesperados, sem nenhum tipo de filtro. A título de exemplo, trago um trecho da poeta paraibana Bixarte:

“(…) Na noite passada, ele chegava perto de mim

Ele passava a mão no meu corpo e eu dizia:

Deus, que ele leve meu celular

E que eu não chegue em casa um corpo morto

Pois eu não quero ser o motivo da minha mãe chorar

(…)

Mainha, eu te prometo que eu vou ser muito feliz

O meu nome é Bixarte, eu não sou prostituta,

Sou poeta e atriz (…)”

Bixarte, 2021

Outros são estrategicamente elaborados, com o uso da estética da poesia marginal, muitas vezes influenciada pela cadência do rap, para incluir dados, informações, notícias, fatos históricos e saberes ancestrais, dessa maneira fortalecendo a ideia do slam como ferramenta pedagógica e espaço alternativo de educação. Usam a forma a seu favor para mudar o curso da narrativa fornecida pela educação básica, pelo fundamentalismo religioso, pela mídia e por outros meios de controle social, como é o caso do baiano Sandro Sussuarana, idealizador do Sarau da Onça, neste poema:

“(…) O racismo é sutil, silencioso

Mas ele tá sempre presente

E nem adianta achar que se o “governo”

for de esquerda vai ser diferente

Não vai!

Tá implícito nas linhas da Constituição

Que diz que roubar é crime

Desde que você não seja do alto escalão,

nem branco (…)”

Sandro Sussuarana, 2018

Já alguns poemas apresentam uma lírica da autodefinição e da autoafirmação, o que se dá, nos versos da também baiana Eulina Vitória, a partir da ancestralidade que balança as estruturas ocidentais ao passo que sedimenta as re-existências negras na diáspora:

“(…) sou a menina do vento

menina do vento eu sou

protegida pelas encruzilhadas

vou rodando na gira

nunca paro na vida

tenho dentro de mim uma pomba-gira (…)”

Eulina Vitória, 2022

Há também quem utilize de técnicas e estratégias de escrita e performance – momentos de silêncio e impostação da voz, uso articulado de figuras de linguagem e frases de efeito – para construir um poema na intenção de ganhar o público e os jurados, afinal, ainda se trata de uma competição, e existe todo um circuito no cenário do Slam que envolve diferentes tipos de premiações e participações em campeonatos estaduais, nacionais e mundiais. Mas, seja qual for o caso, a mesma observação é válida: ser slammer é uma aprendizagem calcada na prática e na coletividade. É o frio na barriga antes de começar, os aplausos, risos e lágrimas da plateia, o abraço da slammaster (pessoa que organiza e apresenta o slam) depois da apresentação, a segurança adquirida pela experiência, pelo contato com outros poetas, por formações oferecidas para a comunidade e todos os pormenores que só quem já foi num slam pode sentir. E todas essas camadas são fortalecidas pela rua e pelo povo que faz com que a rua conte sua história.

Slam das Mulé: as donas da rua

Como mencionei no tópico anterior, meu encontro de paixão com o Slam foi num Slam das Mulé, que acontece há quase cinco anos no município de Camaçari – BA. Não foi o primeiro slam criado na Bahia, que já tinha o Slam da Onça desde 2014, o seu Slam das Minas desde 2017, entre outros expoentes, mas foi o primeiro que aconteceu mais próximo a mim, que não moro na capital Salvador e nunca tinha ouvido falar desse tipo de competição. É um slam das ruas, realizado primeiramente na Praça Abrantes, uma praça localizada no centro da cidade, porém estigmatizada e abandonada pelo poder público. Mas é também um slam que caracteriza um movimento crescente na cena literária brasileira: o protagonismo das mulheres.

De acordo com Juliana Valle, idealizadora e slammaster do Slam das Mulé, a vontade de fundar uma batalha de poesia surgiu da percepção de uma falta de espaço para que mulheres poetas e MCs expressassem sua arte nos eventos que eram abertos para a participação de todos e todas. A Praça Abrantes já funcionava como polo cultural alternativo, abrigando treinos de skate e basquete, ensaios a céu aberto de cantores e bandas, grafite nos muros e batalhas de rima, porém muitas meninas não se sentiam confortáveis o suficiente para participar. Pensando nisso, ela decidiu pesquisar e descobriu o mundo dos Slams, em especial os Slams das Minas, que vinham eclodindo pelo Brasil desde 2015 exatamente pelo mesmo motivo. Apesar do largo número de mulheres participantes, eram poucas as que chegavam à final e as chances de ganhar o prêmio eram ainda menores. Tudo fez sentido. Como já existia uma ramificação do Slam das Minas no estado, e Juliana estava envolvida na época com um projeto de rap chamado “As Mulé”, foi batido o martelo sobre o nome e foi assim que a história começou.

No mesmo ano de sua fundação, o Slam das Mulé foi ao Slam BR 2018 (Campeonato Nacional de Poesia Falada) como representante da Bahia através da sua poeta campeã e eu tenho orgulho de ser essa poeta. Com o título de campeã baiana, tive a oportunidade de participar não só do Slam BR, mas também do 1º Torneio Nacional Singulares de Poesia, um campeonato exclusivamente para mulheres, pessoas trans e não binárias, e pude conhecer o potencial transformador de batalhas como essa.

Dentre as dores e delícias dessa estrada, destaco a luta pelo espaço da praça como um dos maiores enfrentamentos na manutenção do projeto, seja este espaço físico ou simbólico. Pensando no espaço físico, estar na lida de um slam era conviver constantemente com a dificuldade em conseguir um ponto de energia ou um toldo para proteger os equipamentos, com a vigilância policial, o estereótipo da marginalidade e com a possibilidade de ter que interromper as atividades no meio da batalha, mesmo estando em território público. O espaço simbólico, por sua vez, nos colocava em conflito com um grupo masculino que se recusava a deixar a quadra livre para realizar o evento, esbarrava com o skate nas poetas, não demonstravam nenhum respeito pelo que estávamos construindo. Além disso, o contexto pandêmico, que abalou o mundo e esvaziou as ruas entre 2020 e 2021, aprofundou esses abismos de modo que o hiato foi inevitável e o Slam das Mulé só restabeleceu seu funcionamento em 2022, mas dessa vez num espaço cultural parceiro, promovendo uma série de ações multiculturais a cada edição.

Aliás, essa é uma característica importante, que não se encerra no Slam das Mulé e nem mesmo nos slams femininos, mas tem uma grande participação deles. As batalhas quase sempre acabam se transformando em eventos multidisciplinares, promovendo discussões, debates, feiras de economia criativa, shows musicais, desfiles, exposições de arte visual e afins, proporcionando arte, cultura, lazer, entretenimento e educação para o seu espaço de atuação. É assim nos Slams das Minas pelo Brasil e é assim no Slam das Mulé. Foi assim na Praça Abrantes, para onde desejamos retornar, e é assim no NaLaje Multiespaço, lugar que abrigou o Slam no retorno pós-pandemia e durante o circuito de 2022. Não à toa, no slam descobri minha face produtora cultural e me tornei membro-organizadora dessa efervescência.

Uma vez de volta aos trabalhos, o Slam será novamente representado no Slam BR, dessa vez pela poeta Natali Mota, e vem erguendo coletivamente a Periferia Brasileira de Letras (PBL) – uma rede literária que reúne coletivos de oito estados do país, alimentada pelo conceito de políticas públicas saudáveis e pela construção de uma agenda política nesta direção. Na PBL, o conceito de saúde é imbricado à luta contra as desigualdades sociais, pois não há saúde possível sem equidade racial e de gênero, educação de qualidade, saneamento básico, direito à cidade, ocupação dos espaços públicos, respeito aos corpos, crenças e identidades. O diálogo com a rua e com as mulheres, então, se mostra extremamente necessário para avançar nas discussões.

 

A liberdade é revolucionária

No percurso deste texto, a palavra esteve no centro. Ela nos convoca à reflexão sobre como e por que nomear as coisas. O que é slam? O que é poesia? O que é liberdade? Como essas coisas estão conectadas e por que é importante lutar por elas? Certamente há mais respostas numa batalha do que aqui nesta leitura, isso é fato, mas já é revolucionário poder escrever sobre essa prática e vê-la tomando outras proporções, invadindo as feiras literárias, produzindo antologias poéticas, sendo incluídas em planos de aula e produzindo uma espécie de cânone alternativo, uma verdadeira periferia brasileira de letras.

A liberdade de escrever sobre si e sobre sua ancestralidade, de levantar bandeiras e questionar verdades, é o que faz dos slams um agente social em plena atividade. A popularização dessa escola só é possível porque as periferias a desejam, as ruas a desejam e não estão dispostas a abrir mão desse território de ensino-aprendizagem, de fala e de escuta. O grito pela liberdade que só existe na luta, e a luta que só é viável com um pouco de poesia.

Kika Sena nos alerta em uma de suas performances mais emblemáticas: “(…) tacaram fogo na minha voz / logo / não puderam me conter (…)”. E não podem mesmo. Não há contenção. O que existe é o desejo de se esparramar por todos os cantos e fronteiras, num exercício de identificação e humanidade, e de tornar a rua efetivamente do povo. E assim dizendo, fica aqui o meu convite. Vamo num Slam?

 

Lara Nunes  é graduanda em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Membro da Periferia Brasileira de Letras (PBL) como representante do Slam das Mulé.

 

Referências:

https://www.periodicos.ia.unesp.br/index.php/rebento/article/view/360

https://gerflint.fr/Base/Bresil9/estrela.pdf

http://www.letras.ufmg.br/literafro/arquivos/autoras/MaeBeataCritica04Pedro.pdf

https://ponte.org/zap-slam-a-primeira-batalha-de-poesia-do-brasil/

https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/11881/7308

https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/slam-e-voz-de-identidade-e-resistencia-dos-poetas-contemporaneos/

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/index.php?p=30895

https://www.brasildefato.com.br/2017/12/27/slams-movimentam-as-periferias-de-salvador-ba

 

Esta série, Fazer Literário Periférico, é uma parceria Le Monde Diplomatique Brasil, Periferia Brasileira de Letras e Radar Saúde Favela – Fiocruz, cuja equipe é composta por Fábio Araújo, Fábio Mallart, Emerson Baré, Mariane Martins, Luciene Silva, Paulo Roberto Ribeiro e Taís de Amorim.
Leia aqui os demais textos da série Fazer literário Periférico:
O fazer literário não se restringe as letras impressas em livros
Bibliotecas comunitárias, mulheres e participação social


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