Soberania começa na periferia
O falso patriotismo que pede socorro ao império e o Estado que ainda disputa seu próprio território
Há uma contradição brutal no centro da política brasileira. A extrema-direita que passou anos falando em pátria, bandeira, soberania, família e liberdade agora recorre ao poder de uma potência estrangeira para constranger as instituições do próprio país. Quando perde no voto, desacredita nas urnas. Quando é julgada, ataca o Judiciário. Quando sua maior liderança é responsabilizada por tentativa de golpe, seus herdeiros políticos buscam em Washington aquilo que não conseguiram obter da sociedade brasileira: uma forma externa de manter viva a estrutura interna do golpismo.
Não se trata de divergência diplomática comum. Trata-se de um movimento político mais grave: transformar uma derrota democrática interna em chantagem internacional. Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado, e, em 2026, reportagens internacionais registraram sua permanência em prisão domiciliar enquanto Flávio Bolsonaro buscava interlocução em Washington em meio à disputa sobre tarifas contra o Brasil. Lula acusou a família Bolsonaro de acionar força estrangeira contra interesses nacionais; Flávio negou ter provocado as medidas. Ainda assim, o fato político permanece: a extrema-direita brasileira internacionalizou sua crise porque não conseguiu vencê-la dentro da democracia brasileira.
É nesse ponto que a denúncia de Lula ganha densidade histórica. O presidente reage ao risco de que o Brasil seja empurrado para aquilo que pode ser compreendido como uma forma de intervenção norte-americana sobre a soberania de países latino-americanos. A expressão é forte, mas não nasce do vazio. John Coatsworth registrou, em estudo publicado pela Harvard ReVista, que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos intervieram com sucesso para mudar governos na América Latina ao menos 41 vezes. A história do continente conhece esse método: Cuba, Chile, Guatemala, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Em cada um desses casos, as elites locais descobriram que, quando não conseguem submeter o povo pelo consenso, podem tentar fazê-lo com o apoio da força externa.
Mas a soberania brasileira não está ameaçada apenas de fora. Ela também é corroída por dentro, nos territórios onde o Estado se retirou como direito e retornou deformado como violência, corrupção ou abandono. A milícia é a expressão mais madura dessa tragédia. Ela não é apenas crime organizado. É Estado privatizado. É polícia convertida em mercado. É administração armada da escassez. Cobra por gás, transporte, internet, lote, moradia, segurança, voto e silêncio. Onde a Constituição não chega como serviço público, alguém chega como domínio.
Por isso o Rio de Janeiro não pode ser lido como exceção folclórica. Ele é laboratório nacional. A execução de Marielle Franco e Anderson Gomes revelou a profundidade da captura territorial, política e institucional. Em 2026, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão foram condenados pelo STF pelo assassinato, em caso que expôs relações entre poder político, interesses imobiliários, milícias, agentes de segurança e obstrução investigativa. Marielle não foi morta apenas por incomodar indivíduos. Foi executada porque sua existência política ameaçava um modo de governar territórios: mulher negra, socialista, cria da Maré, denunciava a violência de Estado e os negócios do abandono.
A milícia compreendeu antes de muitos governos uma verdade elementar: território é poder. Quem controla a rua controla a circulação. Quem controla a circulação controla o comércio. Quem controla o comércio controla renda.
Quem controla renda controla voto. Quem controla voto negocia com o Estado. Quando esse circuito se estabiliza, o crime deixa de ser apenas desvio. Torna-se governo paralelo, mercado armado e partido informal do medo.
Os números confirmam a escala da crise. O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado, registrou cerca de 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio em 2024 – 34,9% da população da região.
Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. Isso não é problema de polícia. É crise de soberania interna.

Aqui se unem as duas faces do mesmo impasse. De um lado, uma extrema-direita que aciona Washington contra o Brasil quando perde a disputa democrática. De outro, poderes armados internos que substituem o Estado nos territórios populares. O império pressiona por fora; a milícia captura por dentro. Ambos se alimentam da mesma fragilidade: a incapacidade de fazer da soberania popular uma realidade material na vida do povo.
Por isso, combater o crime organizado não pode significar apenas multiplicar operações policiais. O Brasil precisa de inteligência financeira, rastreamento patrimonial, controle externo das polícias, proteção de testemunhas, responsabilização de agentes públicos e desmonte das redes econômicas do crime. Mas precisa, com a mesma força, de creches integrais, saneamento, urbanização, escola pública viva, saúde da família, CAPS, transporte digno, cultura, esporte e regularização fundiária sob controle democrático. A viatura não substitui a creche. O caveirão não substitui o saneamento. A prisão do soldado não desmonta a economia política do medo.
O debate fiscal entra exatamente aqui. Um Estado que economiza em periferia paga mais caro em violência, encarceramento, adoecimento, evasão escolar, corrupção policial e destruição democrática. A austeridade, quando aplicada mecanicamente aos territórios abandonados, não é técnica neutra. É produção de vácuo. E, no Brasil real, o vácuo nunca fica vazio. Ele é ocupado por quem tem arma, dinheiro, mandato, fé instrumentalizada, influência policial ou todos esses elementos juntos.
Saneamento é segurança. Creche é segurança. Escola integral é segurança. Saúde mental pública é segurança. Transporte público é segurança. Urbanização é segurança. Cultura é segurança. Não porque substituam a lei penal, mas porque retiram do crime a administração cotidiana da escassez. O gasto social estruturante deve ser tratado como investimento em soberania nacional.
A esquerda precisa enfrentar esse tema sem medo. Não pode entregar a segurança pública ao punitivismo da direita, nem esconder a dor popular atrás de fórmulas abstratas. O povo trabalhador quer viver sem bala, sem extorsão, sem milícia, sem facção, sem humilhação policial e sem abandono. Segurança democrática não é concessão conservadora. É condição concreta da liberdade popular.
A soberania brasileira, portanto, não será decidida apenas em Brasília, Washington, Pequim ou nos fóruns internacionais. Ela será decidida também na Maré, em Rio das Pedras, na Baixada, nas periferias de Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Paulo e em cada território onde o povo precisa saber quem manda antes de saber quais direitos possui.
Um país soberano não aceita que famílias derrotadas recorram a potências estrangeiras para constranger suas instituições. Um país soberano não aceita que bairros inteiros sejam governados por mercados armados. Um país soberano não aceita que a democracia exista no discurso, mas desapareça na esquina onde a milícia cobra pedágio da vida.
A extrema-direita revelou seu verdadeiro limite histórico: quando a pátria deixou de servir ao seu projeto de poder, tentou entregar a pátria à pressão externa. Contra isso, não basta indignação. É preciso defender o Brasil por fora e reconstruí-lo por dentro.
Onde o Estado não chega como direito, alguém chega como domínio. Onde a democracia não vira serviço público, o medo se organiza como governo. E onde uma liderança golpista busca socorro no império contra o próprio país, a resposta deve ser firme: o Brasil não é propriedade de família, de milícia, de mercado armado nem de potência estrangeira. O Brasil só será soberano quando seu povo também for.
Flaviano Cardoso é advogado humanista militante sindical bancário na Caixa, pesquisador sobre saúde ocupacional e ativista global.

