Superando o determinismo quantitativo
Por outro lado, ao definir o “como” conhecer, é necessário definir também o conceito de “alcance”. Ou seja, até onde vai o conhecimento? O que significa verdadeiramente conhecer? Quando posso afirmar que realmente conheço um objeto?
Um dos maiores problemas epistemológicos nas ciências reside na pretensão de aplicar um mesmo conjunto de princípios para investigar e validar hipóteses sobre objetos ontologicamente distintos. No estudo dos fenômenos humanos, as abordagens quantitativas dominaram as ciências sociais por décadas, oferecendo uma ilusão de objetividade e precisão. Ao aplicar modelos baseados em variáveis mensuráveis e padronizadas, a realidade humana não é apenas reduzida ou simplificada, mas muitas vezes transformada em algo diferente. Como aponta Zizek (2006) “a realidade não é um conjunto homogêneo de objetos, mas uma pluralidade de planos que exigem distintas abordagens epistemológicas”.
Por outro lado, ao definir o “como” conhecer, é necessário definir também o conceito de “alcance”. Ou seja, até onde vai o conhecimento? O que significa verdadeiramente conhecer? Quando posso afirmar que realmente conheço um objeto? Segundo Foucault, o conhecimento está sempre condicionado pelos marcos históricos e sociais que estruturam o acesso à realidade. Conhecer nunca é um ato neutro, mas sempre uma construção situada dentro de um contexto, com determinados significados, limites e estruturas de poder. Por exemplo, ao tentar conhecer um objeto como uma mesa, acaso posso afirmar que “conheço” esse objeto sem saber quem a fabricou e com qual propósito? A mesa, embora seja um objeto material, não é apenas uma estrutura de elementos organizados; ela requer um agente humano para existir e adquirir significado dentro de um contexto de uso. Ela é dotada de uma função mediadora e carrega um propósito e uma intencionalidade impostos por seres humanos. Sua existência, portanto, está ligada a uma vontade, a um conceito que transcende o puramente material. Em contraste, uma pedra, embora também seja um objeto material, não precisa de um agente humano para existir, sua existência é resultado de forças naturais, e carece de uma função que foi subjetivamente definida.
Nesta linha de pensamento podemos identificar três dimensões distintas do conhecimento: a que se relaciona com objetos naturais que possuem existência própria, a relacionada a objetos cuja existência depende de uma mediação, e os seres humanos, ou seres com capacidade teleológica. Cada uma dessas dimensões opera dentro de um contexto lógico específico, e embora o ser humano também seja um objeto material, o
Sujeito-Pessoa é marcado pela transitoriedade, e pela busca constante de sentido e propósito. Os átomos e as estruturas básicas da matéria são muito mais duráveis e não possuem um sistema consciente-inconsciente que sustente sua existência, muito menos autonomia para mudar sua própria condição e entorno de maneira contingente. Em consequência, o ser humano não pode ser reduzido apenas à sua dimensão natural-material, pois a dimensão simbólica que ele constrói por meio da linguagem, da comunicação e da interação lhe permite operar em um plano (realidade) completamente diferente ao de outros objetos.
Nas palavras de Edgar Morin “o ser humano é uma realidade complexa, um sujeito de interpretação constante, não redutível a um objeto quantificável”.
Para tornar essa dimensão ainda mais complexa, a consciência constitui apenas uma parte da realidade humana. A neurociência1 já demonstrou que a maior parte da atividade cerebral de um ser humano é inconsciente. Essa condição, junto à dimensão simbólica, é o que torna o estudo dos seres humanos, seus comportamentos, interações, significados e história, algo fundamentalmente distinto do estudo de objetos não humanos. Assim, as ciências sociais exigem uma abordagem que reconheça essa complexidade existencial e a operacionalize em seus estudos. Isso implica superar os limites de uma compreensão baseada em categorias fixas, por meio da análise qualitativa e da interpretação de significados.
Como Imre Lakatos expressa em sua obra sobre os programas de pesquisa científica, as metodologias não devem ser universalmente aplicadas, mas sim adaptadas ao objeto de estudo em questão. Nesse sentido, as ciências sociais exigem uma abordagem diferente, multidimensional e mais probabilística, capaz de abordar a pluralidade de significados, intenções e contextos que constituem a experiência humana. Esta reflexão abre as portas para uma epistemologia mais rica e não menos rigorosa, que permita integrar métodos de pesquisa que transcendam as abordagens tradicionais de quantificação e exatidão, e possam operar dentro da complexidade e ambiguidade dos fenômenos humanos. Neste sentido, a física quântica e seus conceitos de indeterminação, incerteza, aproximação, superposição, entrelaçamento e não-localidade oferecem uma nova perspectiva para abordar o estudo da realidade humana, com uma abordagem mais adequada à sua natureza dinâmica, multifacetada e multidimensional.
A limitação dos modelos quantitativos
Os modelos quantitativos pressupõem que todos os fenômenos, inclusive os humanos, podem ser convertidos em dados precisos e assim analisados estatisticamente para encontrar padrões e relações causais. Com a ilusão de manter a objetividade e evitar considerações “subjetivas”, tudo aquilo que resiste à quantificação ou à serialização é simplificado ou descartado. Como resultado, ao contrário da pretendida “clareza” na observação e análise, essa abordagem acaba produzindo uma dupla distorção da realidade. Ao efetuar um recorte no objeto tratado, descartando ou sintetizando suas qualidades, altera-se sua constituição; em seguida, o fenômeno ou processo do qual o objeto faz parte também se vê alterado. A realidade não pode ser compreendida completamente por meio de modelos unívocos que tentam reduzi-la a uma simples medição; o próprio Sujeito é subjetivo e inevitavelmente transfere esta condição à realidade que habita. Como nos explica o psicanalista e filósofo Zizek, não apenas o presente é fruto da interpretação, mas o passado, a história já inscrita, é permanentemente reinterpretado e ressignificado. Assim, é essa qualidade da realidade humana que impede que ela seja observada e compreendida quantitativamente.
Talvez o maior limite epistemológico aqui seja o fato de lidarmos sempre com um “objeto-sujeito” intrinsecamente incompleto na sua estrutura simbólica e psicológica2, o que inviabiliza um conhecimento total e definitivo, e nos obriga a conviver com esse “não-Todo”. Qualquer tentativa de ignorar esta incompletude resulta em si uma manipulação subjetiva. Em termos mais específicos, ao tentar medir o imensurável, a abordagem quantitativa perde aspectos essenciais do objeto de estudo, como as intenções, as emoções, as narrativas e os contextos nos quais os sujeitos operam, mas sobretudo, os princípios de sua interação e transformação. Por exemplo, um estudo que mede a “felicidade” de uma população por meio de questionários com respostas predeterminadas está reduzindo um conceito complexo, fluido e ontologicamente relativo ao sujeito a uma simples medida ou categorização, eliminando assim a possibilidade de compreender as diferenças individuais na experiência da felicidade, a qual, sabemos bem, depende de fatores culturais, sociais e pessoais (multidimensionais). Dessa forma, a quantificação não apenas perde a essência do fenômeno, mas o distorce, outorgando-lhe características que não possui.
O desastre epistemológico da psicologia norte-americana
A psicologia norte-americana, especialmente em sua vertente comportamentalista (behaviorista), exerceu uma influência profunda e majoritariamente prejudicial sobre a epistemologia das ciências sociais, ao instituir uma concepção reducionista do ser humano. Priorizando o comportamento observável e mensurável como único objeto legítimo de estudo, esta corrente relegou a um segundo plano, ou acabou eliminando, dimensões fundamentais da existência humana, como o inconsciente, a subjetividade e a linguagem, em uma operação que pode ser qualificada tanto de empobrecimento epistemológico quanto de distorção ideológica. O modelo conceitual do comportamentalismo, ao rejeitar a complexidade simbólica do sujeito, converte-se em uma forma de violência psicológica que reduz o ser humano àquilo que é estritamente quantificável, uma espécie de “desquartejamento” que acaba produzindo uma mistificação daquilo que se pretende conhecer.
O paradigma comportamentalista, representado por figuras como J. Watson e B. Skinner, construiu e impôs uma psicologia centrada exclusivamente na relação estímulo-resposta, despojando o sujeito de toda interioridade, motivação simbólica ou história pessoal. O desastre sobreveio quando essa concepção se estendeu aos estudos sociais em geral, que passaram a replicar seus princípios teóricos, métodos de observação controlada, experimentação repetível e análise estatística, transferindo acriticamente uma lógica de laboratório para o estudo de realidades humanas e sociais. Esta “hipertrofia” da abordagem quantitativa ignorou as emoções, os desejos, as narrativas e as contradições constitutivas do sujeito, tal como já nos alertava a epistemologia crítica desde o início do século XX.
As descobertas de Eric Kandel, neurocientista e Prêmio Nobel, contradizem radicalmente esta visão empobrecida construída pelo comportamentalismo norte-americano. Kandel demonstrou que a mente humana não é um sistema mecânico linear, e que está profundamente moldada por processos inconscientes complexos e pela plasticidade cerebral, nos quais a memória e a experiência subjetiva participam ativamente na estruturação do pensamento e do comportamento.
A ideia de que o inconsciente tem uma base biológica concreta reforça, a partir da neurociência, o que a psicanálise já havia postulado: que o sujeito é atravessado por forças que escapam à sua vontade consciente e que não podem ser compreendidas nem domesticadas por métodos positivistas.
Neste mesmo sentido, as contribuições de Jacques Lacan permitiram entender o sujeito não como uma entidade fechada e coerente, mas como um efeito da linguagem e do desejo, constituído na falta e sempre em relação a um Outro simbólico. Lacan adverte que qualquer tentativa de objetivar o sujeito sem considerar sua constituição a partir do significante (palavras, símbolos e relações) não é apenas uma redução metodológica, mas uma falsificação ontológica. Assim, a psicologia comportamentalista não apenas ignorou o sujeito, mas produziu uma imagem falsa dele, isto é, um sujeito sem desejo, sem conflito e sem história.
Essa deformação conceitual produziu consequências concretas. A sociedade norte-americana, moldada em grande parte por psicologias e pedagogias baseadas em falsas concepções do ser humano, exibe hoje uma crise de proporções alarmantes: taxas crescentes de ansiedade e depressão, o maior consumo de drogas per capita, medicalização da infância, aumento da violência armada, isolamento social e uma progressiva perda do laço comunitário. Em vez de compreender o ser humano, o modelo epistemológico comportamentalista, com toda sua influência nos estudos sociais, contribuiu para produzir um sujeito alienado, instrumentalizado, dissociado de si mesmo e dos outros; um ser concebido como objeto manipulável e previsível, reduzido a um conjunto de respostas a estímulos, muito útil para o mercado, mas absolutamente inadequado para lidar com a vida social, a criatividade, o sofrimento, ou a história. A atual disfunção social norte-americana não se deve apenas à sua conjuntura política e a seus mecanismos de controle social (pedagogia, redes, segurança), mas ao contrário, a conjuntura e tais mecanismos são o resultado de décadas de uma abordagem epistemológica irreal e perversa, incapaz de compreender a realidade humana, e aproveitada para exercer distintas formas de dominação ideológica.
Resumindo este desastre social, o comportamentalismo reduziu o sujeito a respostas observáveis; o positivismo extremo impôs como critério de verdade apenas o empiricamente verificável; e o funcionalismo anulou a contradição, o conflito e o desejo, concebendo a sociedade como um sistema auto-regulado; não por acaso, similar à concepção neoliberal dos mercados.
A necessidade de uma epistemologia qualitativa, probabilística e reflexiva
A subjetividade, a cultura e a história são elementos essenciais que devem ser considerados em qualquer investigação sobre a experiência humana. Por outro lado, todo processo social é marcado pela incerteza, a ambiguidade e a flexibilidade. Devido a estes princípios básicos, uma epistemologia qualitativa e probabilística representa uma forma possível de compreender os fenômenos sociais em profundidade, superando o reducionismo das concepções quantitativas e positivistas. Trata-se de uma abordagem que privilegia a particularidade em vez da universalidade e que procura compreender antes de generalizar. Uma epistemologia social assim formulada valoriza a análise interpretativa e reflexiva, buscando entender a multiplicidade de significados que os seres humanos constroem em suas interações sociais. Esta abordagem se enriquece integrando conceitos da epistemologia da complexidade e da física quântica.
A complexidade não se limita a um conjunto de variáveis mensuráveis, mas está relacionada com a interação de múltiplos fatores, dimensões e níveis de análise. Paradoxalmente, encontramos na física quântica valiosos recursos conceituais para uma epistemologia social. Enquanto as abordagens quantitativas tradicionais buscam padrões e leis fixas, a física quântica nos convida a pensar a realidade como algo repleto de incertezas, ambiguidades e sobreposições. Tomemos, por exemplo, o princípio da incerteza de Heisenberg, que estabelece que não é possível conhecer com precisão, simultaneamente, ambas as propriedades complementares de uma partícula, como sua posição e seu momento. Esse princípio desafia a concepção clássica de que é possível conhecer o mundo com total precisão se dispusermos das ferramentas adequadas para medi-lo. No plano social, esse princípio pode ser utilizado como metáfora para a complexidade inerente aos fenômenos humanos.
Nas ciências sociais, a tentativa de obter medidas exatas de fenômenos complexos, como a “felicidade” ou a “justiça”, está fadada a ser incompleta. Assim como na física quântica não é possível conhecer com exatidão todas as propriedades de uma partícula ao mesmo tempo, na pesquisa social, não é possível reduzir as experiências humanas a variáveis que possam ser completamente mensuradas e explicadas. Os fenômenos sociais são marcados pela ambiguidade, pela contradição e pela natureza dinâmica dos contextos em que ocorrem. Isso nos remete à noção de dialética como processo ontológico da realidade, ao indicar que os fenômenos humanos não são estáticos nem plenamente objetiváveis, mas sim marcados por contradições internas e mudanças constantes. A partir deste princípio a realidade não é apreendida como um conjunto fechado de fatos observáveis, mas como um processo em devir, onde as tensões entre opostos (como liberdade e opressão, ou felicidade e alienação) geram movimento e as condições de possibilidade para sua transformação. Desse modo, a impossibilidade de uma medição definitiva reflete essa lógica do devir, ou seja, o conhecimento não é acumulativo nem neutro, mas historicamente situado, conflituoso e em permanente reelaboração.
Outro princípio útil da física quântica é o da superposição, ideia que desencadeou todo tipo de debate filosófico em relação à natureza da realidade. A superposição quântica estabelece que uma partícula pode existir em múltiplos estados ao mesmo tempo, até que se realize uma observação. Este fenômeno desafia nossa intuição clássica, já que na física tradicional as entidades se supõem em um único estado definido em todo momento. Embora isso tenha sido demonstrado matematicamente, trata-se de um fenômeno ainda não observável, apenas calculável e previsível. Diante dessa ideia, existem duas posições opostas dentro da física. Por um lado, a corrente de Heisenberg (interpretação de Copenhague) sustenta que a superposição é uma propriedade real dos sistemas quânticos. Em contraste, a corrente de Einstein e Bohm propõe que a superposição não é mais que uma solução temporária para um problema não resolvido, argumentando que deveria haver uma explicação mais completa que não dependesse da observação para definir o estado.
Uma explicação alternativa, que se conecta com a epistemologia social, estabelece que a superposição não se deve a uma única partícula que está em múltiplos estados, mas sim à existência de duas partículas interativas em estados distintos e que, ao serem observadas, se fundem em um único estado. Essa interpretação postula que aquilo que percebemos como um estado quântico múltiplo é, na verdade, o resultado da interação de duas partículas menores que, ao serem observadas “aparecem” como uma unidade ou se fundem como resposta ao mecanismo de observação. Desde uma perspectiva filosófica, pode-se especular que as partículas subatômicas, ou até mesmo um nível inferior da realidade ainda não observável, possuem uma ontologia semelhante à do sujeito humano, ou melhor, que nós herdamos. Ou seja, a relacionalidade seria constitutiva da própria natureza desses objetos, de modo similar ao sujeito humano, cuja realidade se constitui por meio de suas relações.
Mas para além da “verdade quântica”, na dimensão social a superposição é um fenômeno claramente observável; todo sujeito pode estar em dois estados distintos simultaneamente, pois esses dependem de uma rede de relações dinâmicas, que é constitutiva do próprio sujeito. Essa ideia sugere que a relacionalidade poderia ser uma qualidade constitutiva de uma dimensão física básica, além do nível subatômico conhecido. Uma proposta interessante nesse sentido é a de Karen Barad, feminista intelectual, física e filósofa, que, a partir de sua teoria do realismo agencial, sustenta que os fenômenos quânticos não são eventos que acontecem a entidades já constituídas, mas, ao contrário, são constitutivos dos próprios objetos. Em sua abordagem, não é a “observação” que produz os objetos, mas a “intra-ação”, um conceito que rejeita a existência de entidades separadas antes de sua relação. Segundo Barad, as entidades, sejam objetos ou sujeitos, emergem como resultado dessas intra-ações. Isso implica uma ontologia relacional radical, ou seja, que a realidade não é composta por coisas que depois interagem, mas por fenômenos que se constituem mutuamente em seu devir. Assim, o fenômeno não é algo que “afeta” o objeto, mas a condição mesma de sua constituição e existência. Essa postura redefine profundamente o que entendemos por objetividade, agência e materialidade.
Zizek aproxima-se destas questões a partir de uma perspectiva hegeliana, sugerindo que a superposição e o entrelaçamento quântico podem oferecer uma metáfora para repensar a dialética, na qual objetos e sujeitos não existem de maneira isolada, mas estão constituídos por suas relações e contradições internas. Isto é um conceito-chave para pensar e compreender a natureza da realidade e da subjetividade. Fenômenos sociais como as identidades de gênero, crenças políticas ou relações de poder são distorcidos quando reduzidos a um único estado ou definição. Por isso, em vez de ver esses fenômenos como entidades fixas e definidas, resulta epistemologicamente mais consistente vê-los como superposições de diversos estados, experiências, significados e interpretações. Assim como o processamento quântico considera múltiplos estados possíveis simultaneamente, o pensamento crítico sobre o social precisa aprender a conviver com ambiguidades, paradoxos e trajetórias múltiplas.
Como consequência deste princípio de superposição, surgem a indefinição e a aproximação, princípios que a lógica da computação quântica adotou como fundamentos operacionais, assumindo que certos problemas não se resolvem mediante certezas absolutas, mas a partir de probabilidades e aproximações funcionais e sucessivas. Esta modalidade lógica, que renuncia ao determinismo clássico, mostra-se especialmente pertinente para as ciências sociais, onde as respostas definitivas raramente existem. Diante de realidades complexas em que as soluções não são únicas nem lineares, a aproximação torna-se uma forma legítima, e muitas vezes a única, de compreender a dimensão humana.
Entrelaçamento e não-localidade: a conexão de fenômenos a distância
O entrelaçamento quântico (entanglement) é outro fenômeno fascinante no qual duas ou mais partículas subatômicas compartilham um estado comum, de tal forma que o que acontece com uma delas afeta instantaneamente a outra, independentemente da distância que as separe! Esse efeito foi originalmente formulado como um paradoxo por Einstein, Podolsky e Rosen, que acreditavam que tal comportamento evidenciaria uma falha ou incompletude na teoria quântica. No entanto, as denominadas Desigualdades de Bell demonstraram que as previsões do entrelaçamento não podem ser explicadas apelando a variáveis ocultas locais, ou seja, a mecanismos tradicionais que preservam a causalidade espaço-tempo clássica. Constatações empíricas posteriores levaram a uma conclusão ainda mais disruptiva: o princípio da não-localidade.
Primeiramente, nos experimentos realizados por Zeilinger, foi possível eliminar as ambiguidades técnicas dos testes anteriores. Depois, Pan conseguiu entrelaçar átomos individuais presos a longa distância, confirmando novamente a impossibilidade de uma explicação baseada unicamente em interações locais.
Em ambos os experimentos, ficou demonstrado que, no nível mais fundamental, a realidade física não se rege apenas pela lógica local clássica, mas por relações que parecem operar em outra dimensão compartilhada, além do espaço e tempo convencionais. Dado que os experimentos descartaram toda possibilidade de predefinição ou comunicação entre partículas, a explicação mais plausível é que o entrelaçamento ocorre em outra dimensão mais fundamental e ainda não observável. Essa virada na física contemporânea não apenas transforma nossa compreensão do mundo material, mas também oferece outra nova chave epistemológica para as ciências sociais. A não-localidade pode ser uma poderosa metáfora para entender como as ideias, as práticas e os movimentos sociais se propagam e afetam diferentes partes do mundo sem estarem necessariamente em contato direto. Por exemplo, o fenômeno da migração não pode ser compreendido apenas a partir das condições locais do lugar de origem ou de destino, mas deve ser considerado dentro de uma rede global de fatores econômicos, políticos e sociais que se desenvolvem e interagem em múltiplos lugares simultaneamente.
Esta perspectiva traz importantes implicações metodológicas, pois propõe que conhecer um fenômeno, humano ou físico-natural, requer algo mais que observação, quantificação e verificação singular, já que seu significado depende também (ou é constituído por) um campo mais amplo que inclui o simbólico, o compartilhado e o não local. Longe de ser uma extrapolação forçada, esta analogia respalda o que as ciências sociais críticas, e mesmo a psicanálise, vêm sustentando há décadas: que o sujeito e o social não se constituem, ao mesmo tempo, a partir da individualidade e da relação.

Reformulando a quantificação
Ainda que este artigo exalte a dimensão qualitativa da pesquisa social, não podemos ignorar a importância dos métodos quantitativos, que, quando bem utilizados, podem enriquecer a análise e a compreensão de alguns fenômenos. Para isso, assim como no caso da objetividade, é necessário reconhecer as limitações da quantificação, entendendo que enquetes e modelos estatísticos não são “verdades” nem “causas”, mas ferramentas acessórias que ajudam a construir o conhecimento. São diversos os pensadores que hoje, à luz da evidência empírica, nos alertam sobre tais limitações. Por exemplo, para Bruno Latour “os números são construções sociais mobilizadas em contextos de poder”; Alain Desrosières opina que “a estatística é um artefato que negocia entre o real e o legível”.
Estas perspectivas se evidenciam na Inteligência Artificial, na qual os modelos matemáticos que geram as respostas não possuem um “conhecimento”, mas sim mecanismos para manipulá-lo. Sem os milhões de livros processados durante seu “treinamento”, os modelos de IA não poderiam responder quase nada. Assim o explicam Bender e Gebru quando afirmam que “os modelos de linguagem não compreendem o mundo, apenas predizem tokens com base em distribuições de probabilidade”. Em consequência, o uso da estatística deve estar consciente da incerteza inerente aos dados e deve ser acompanhado de uma reflexão crítica sobre que tipo de significado social pode ser extraído dos números, ou, em termos mais precisos, qual é a lógica pela qual convertemos fatores sociais em números. Por exemplo, quando se mostra a evolução da taxa de desemprego, em que medida suas variações refletem a realidade das famílias e sua capacidade de consumo? Se as enquetes perguntam qual é o candidato preferido em uma eleição, em que número aparece a verdadeira preferência do eleitor?
Retomando a noção quântica de incerteza e da aproximação, empregar modelos probabilísticos é particularmente útil na pesquisa social porque permite representar os fenômenos humanos não como algo fixo e determinado, mas como um conjunto de possibilidades inter-relacionadas que evoluem com o tempo. Ao contrário dos modelos deterministas, que buscam estabelecer relações causais diretas e universais, alguns modelos probabilísticos permitem incorporar a variabilidade, a indeterminação e a incerteza nos resultados, oferecendo uma representação mais realista dos fenômenos sociais. Em vez de buscar um “resultado correto”, o pesquisador pode considerar diversas hipóteses e cenários possíveis, reconhecendo que os fenômenos sociais são fluidos e mudam segundo o contexto. Foi com esta abordagem, junto a um modelo inovador de pesquisa integrada, que a ARTEBRA conduziu seus estudos mais recentes sobre violência doméstica e escolar, alcançando um alto grau de precisão nas projeções e explicações causais.
Estas reflexões apontam para a necessidade de uma epistemologia social “qualitativamente” distinta dos modelos tradicionais, que esteja construída a partir de uma concepção realista dos fenômenos humanos. Os pesquisadores sociais devem estar preparados para lidar com a incerteza, as ambiguidades e a incompletude, esse “não-Todo” que define a realidade como algo inacabado num constante devir. Por este caminho, reconhecendo a natureza multidimensional dos fenômenos humanos e a interdependência dos contextos, é possível construir uma epistemologia que nos permita uma compreensão mais precisa da realidade social.
Alejandro Vaillant Valdes é Diretor de Pesquisa Social e Produção Cultural na Associação Cultural ARTEBRA há mais de uma década. É Mestre StS em Educação e Tecnologias, Mestre em Docência e Gestão do Ensino, Bacharel em Serviço Social, e Bacharel em Análise de Sistemas. Autor de vários livros, incluindo: Educação e Desenvolvimento Social, Sociocomunicação, e Epistemologia da Civilidade.
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