Venezuela, o Corolário Trump e a (nova?) ordem internacional
O sequestro de um chefe de Estado e o bloqueio do controle popular sobre recursos naturais representam práticas neocolonizadoras e violam o princípio da autodeterminação dos povos

O sequestro de um chefe de Estado e o bloqueio do controle popular sobre recursos naturais representam práticas neocolonizadoras e violam o princípio da autodeterminação dos povos
Liberty-washing: a prática de invocar seletivamente a linguagem da liberdade, da restauração democrática ou do Estado de direito para legitimar ações coercitivas no exterior, desconsiderando a soberania, as restrições do direito internacional ou liberdades comparáveis no próprio país
O presidente dos EUA violou gravemente o Direito Internacional ao realizar uma operação militar em território venezuelano, caracterizada como crime de agressão por ferir a soberania de um Estado independente e a Carta da ONU
Ao contrário do imaginário difundido, a política externa norte-americana jamais esteve intrinsecamente comprometida com a promoção da democracia
A violência ocupa um lugar central na história recente das sociedades latino-americanas, não apenas como fenômeno material, expresso em índices de criminalidade e letalidade, mas como experiência social permanente, mediada por discursos, imagens e afetos. Mesmo quando não vivida diretamente, ela se impõe por meio da mídia, do consumo cultural e da circulação incessante de narrativas que associam crime, medo e ordem pública
A Doutrina Monroe volta com força na América Latina, acompanhada agora do chamado Corolário Trump. Objetivos dos Estados Unidos: restaurar sua dominação continental, conter a influência chinesa e colocar a região a serviço das prioridades internas definidas pela Casa Branca. Transformadas em vassalas, as direitas locais ganham terreno e se regozijam
Em Trump 2.0, a política para o hemisfério deixa de buscar consenso externo e passa a servir à mobilização interna, à guerra cultural e ao cálculo eleitoral permanente
Em 30 de setembro, o secretário de Defesa norte-americano – agora rebatizado de secretário da Guerra – pregou, diante de várias centenas de oficiais superiores, a urgência de uma revolução cultural contra um suposto relaxamento reinante em suas fileiras: diversidade, obesidade, falta de treinamento. Um desfile fracassado em Washington, algumas semanas antes, teria provocado sua ira?
A política doméstica e externa norte-americana reside hoje no jogo da força bruta e de um modo tirânico de governança
Considerando a paz sob uma perspectiva multidimensional, como justificar – sem resvalar no delírio ou na alucinação – a pretensão de uma pessoa como Donald Trump ao Prêmio Nobel da Paz?