SÃO PAULO CONTRA SEUS HABITANTES

Território de lucro, não de vida

A violência infligida aos animais não humanos é completamente ignorada quando decorre de decisões urbanísticas

A cidade de São Paulo avança sobre si mesma como um organismo que se devora. Um predador autofágico. O concreto substitui o verde com a velocidade de uma engrenagem faminta que não reconhece limites nem consciência.

A exploração imobiliária converte terras pulsantes de vida em mercadorias lucrativas, apropriadas por grupos que lucram com a escassez que eles próprios produzem.

Nesse movimento destrutivo, centenas de espécies são lançadas ao limite extremo da sobrevivência, confinadas a perímetros cada vez mais exíguos e instáveis, empurradas a um limiar em que já não há margem possível, apenas a vertigem da última fronteira.

A capital paulista abriga remanescentes da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta. Localidades como o entorno do Parque Estadual da Cantareira, do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga e das margens da Represa Billings ainda guardam fragmentos florestais que sustentam aves endêmicas, anfíbios sensíveis à alteração hídrica, pequenos e maiores mamíferos, insetos polinizadores e répteis que dependem de microclimas estáveis.

Crédito: Governo do Estado de São Paulo

O que para o mercado representa glebas subutilizadas é para esses seres maravilhosos habitat, refúgio, rota de dispersão e espaço de reprodução.

A lógica especulativa intensiva antecipa movimentos de infraestrutura pública, influencia alterações de zoneamento, pressiona planos diretores e converte setores periféricos em ativos projetados para valorização futura.

O solo deixa de ser território de existência plena para tornar-se reserva de lucro. O impacto ultrapassa a supressão de árvores e se manifesta na ruptura de corredores ecológicos, no isolamento genético de populações da fauna, na contaminação de cursos d’água e na impermeabilização extensiva que intensifica enchentes, soterrando ninhos, tocas e sistemas de abrigo subterrâneos ou de superfície, invisíveis ao olhar dos gananciosos.

A violência infligida aos animais não humanos é completamente ignorada quando decorre de decisões urbanísticas. O desmatamento autorizado por licenças ambientais frágeis gera sofrimento concreto e mensurável, ainda que diluído na formalidade da linguagem burocrática.

Ninhos com filhotes esmagados por tratores não entram em estatísticas. Bandos desalojados que passam a disputar restos de alimento nas margens do município são estigmatizados como pragas. A morte pulverizada, cotidiana, torna-se ruído de fundo do retrocesso travestido de progresso. Um avanço que se ergue sobre a própria devastação.

O Plano Diretor Estratégico de São Paulo, reformulado em diferentes gestões, incorporou instrumentos que deveriam ordenar o crescimento e preservar zonas de proteção. Contudo, sucessivas pressões para flexibilização demonstram como a cidade é capturada por coalizões que priorizam adensamento e verticalização sem considerar a complexidade ecológica.

O crescimento sobre regiões de mananciais, mesmo com restrições formais, ocorre por meio de regularizações posteriores e mudanças normativas. Cada exceção consolida uma regra implícita que favorece o capital imobiliário.

Os animais que habitam esses locais não são abstrações. Jaguatiricas já foram registradas na Cantareira. Macacos bugios resistem em espaços florestais. Corujas, gaviões, saracuras, serpentes e uma infinidade de invertebrados sustentam cadeias tróficas que mantêm o equilíbrio ambiental. Quando um loteamento avança sobre um contorno de mata, não há apenas supressão vegetal, há quebra de vínculos ambientais construídos ao longo de centenas, milhares de anos.

A ética que estrutura o urbanismo dominante permanece centrada no proveito humano imediato. Tratam a natureza como passível de substituição, como se a plantação de mudas em outro ponto pudesse recompor sistemas complexos já estabelecidos. A ideia de que vidas são intercambiáveis denuncia uma hierarquia moral que legitima expropriação contínua.

Há ainda um componente social inseparável desse quadro. A especulação encarece o solo, expulsa populações vulneráveis para áreas empobrecidas e ambientalmente frágeis e intensifica ocupações precárias. Depois, essas comunidades são responsabilizadas pela degradação que resulta de um modelo estruturalmente excludente.

A fauna silvestre torna-se vítima dupla. Sofre com a expansão formal do mercado e com a precariedade imposta às periferias. O impacto sobre a biodiversidade é físico, e estrutural, afetando diretamente cadeias tróficas e a própria resiliência dos ecossistemas urbanos.

São Paulo já perdeu a maior parte de sua cobertura original. Restam frações dispersas, pressionadas por vias expressas, condomínios fechados e centros logísticos. A impermeabilização supera amplamente a capacidade natural de drenagem.

Eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, agravam deslizamentos e inundações que também atingem animais domésticos, domesticados e silvestres. A crise climática global encontra na nossa metrópole um laboratório de injustiça ambiental.

A cidade precisa ser reinterpretada como espaço compartilhado, não como máquina de valorização fundiária. Reconhecer animais como sujeitos morais implica rever políticas que autorizam a destruição sistemática de seus habitats. Significa incorporar corredores ecológicos efetivos, limitar adensamentos em zonas sensíveis, ampliar unidades de conservação urbanas e garantir fiscalização rigorosa.

A discussão excede a esfera instrumental do planejamento e alcança o núcleo normativo que orienta nossa forma de habitar o mundo. Enquanto o solo for tratado como mercadoria suprema, tudo o que vive continuará subordinado à lógica da rentabilidade. A metrópole não pode assegurar seu desenvolvimento sobre a eliminação de espécies.

Há quem argumente que desenvolvimento e preservação podem coexistir sem conflito. Essa conciliação exige mais do que discursos. Requer cisão com a naturalização da apropriação como motor inevitável do crescimento. Exige colocar limites claros ao poder de transformar paisagens em ativos financeiros. A cidade que ignora seus habitantes, humanos e não humanos, empobrece sua própria possibilidade de futuro.

A biodiversidade urbana não é ornamento. Todas as espécies possuem direitos intrínsecos e desempenham inclusive papéis essenciais no equilíbrio climático, hídrico e sanitário, regulando processos vitais e equilibrando os sistemas naturais.

São Paulo precisa decidir se continuará avançando como divisa de expropriação ou se assumirá um pacto ético com todas as formas de vida que ainda resistem. A resposta não está apenas nas leis. Está na disposição de confrontar interesses consolidados e reconhecer que a cidade não pertence exclusivamente às pessoas que a negociam.

 

Silvana Andrade é jornalista e presidente da Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda).

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