Tomar o poder sem perder a alma - Le Monde Diplomatique

DILEMAS DA ESQUERDA GREGA

Tomar o poder sem perder a alma

por Baptiste Dericquebourg
3 de junho de 2013
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Como passar do status de principal força de oposição para o de maior partido de um país? Raras são as formações políticas da esquerda radical europeia que estão a ponto de discutir essa questão. É, contudo, sobre isso que se debruça o Syriza, na Grécia, depois que foi deixado às portas do poder pelas eleições de 2012Baptiste Dericquebourg

Em julho de 2013, o Syriza terá seu primeiro congresso enquanto partido unificado. Impulsionado pelas eleições legislativas de maio e junho de 2012 à posição de corifeu da oposição de esquerda à política da Troika, a Coalizão da Esquerda Radical goza de uma posição única na Europa. Com ela, uma força política progressista se encontra às portas do poder. Mas esse avanço ambíguo, ao mesmo tempo vitória e derrota diante dos conservadores da Nova Democracia, também o confrontou com os problemas da ampliação de sua base eleitoral e militante, e da busca por alianças. Problemas ainda mais urgentes porque, para a direção do Syriza, o governo tripartite saído das urnas em junho de 2012 não deveria durar mais do que alguns meses, e novas eleições já deveriam ter acontecido.

No dia seguinte às eleições legislativas, o chefe do grupo parlamentar Syriza, Alexis Tsipras, deu início a uma polêmica ao declarar: “Nestes tempos de crise, a resistência e a solidariedade são necessárias, mas a solidariedade é mais importante”. Foi o ponto de partida da linha “solidariedade” promulgada pela direção, que consiste em desenvolver em todos os lugares ações a fim de que nenhum cidadão seja privado do acesso ao alimento, aos medicamentos, a um teto etc. Principal partido membro da coalizão, o Synaspismos orientou particularmente os esforços de seus adeptos para a constituição de bancos solidários de medicamentos.

Os objetivos dessa nova estratégia eram múltiplos. Por um lado, ocupar os novos adeptos. Com uma média de idade relativamente alta (principalmente no seio do Synaspismos), sem entrada forte nos meios operários e agrícolas nem contato sindical, o Syriza não tinha uma real tradição militante. Pelo contrário: o Partido Comunista (Kommounistiko Komma Elladas, KKE) controla um dos três principais sindicatos, a Frente Militante de Todos os Trabalhadores (Panergatiko Agonistiko Metopo, Pame), e o Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok) utiliza as outras centrais com fins clientelistas. “Até meados de 2012, o Syriza não tinha ainda realizado uma ação concreta”, recorda-se uma militante. “Sendo duas coisas completamente diferentes querer agir e saber como fazê-lo.” Tentando dessa forma rivalizar com as iniciativas extremamente midiáticas do partido neonazista Aurora Dourada, que organizava então sopas populares “para os gregos” e doações de “sangue grego”, e se colava em diversas ações de solidariedade espontâneas, a coalizão esperava estabelecer o contato com aqueles que a crise havia distanciado da política.

Mas colocar a solidariedade na frente da conflitualidade desenvolve a imagem de um partido “remédio contra a crise”, longe do perfil radical que deveria distinguir o Syriza do antigo eleitorado do Pasok, em ruptura com seus hábitos. Na esperança de obter maioria parlamentar, o partido refletiu para conquistar a classe média que surgiu depois do fim da ditadura dos coronéis em 1974. Necessariamente esquemático, o retrato-padrão de um membro desse eleitorado se caracterizaria pelos seguintes traços: mais conservador, relativamente velho, proprietário de um imóvel comprado a crédito, exercendo uma profissão ligada ao turismo, à construção ou à função pública e violentamente desestabilizado pela crise atual, mas ainda assim muito ligado ao pertencimento da Grécia à União Europeia.

Diante do discurso dos “dois extremos”, associando Aurora Dourada e Syriza, repetido à exaustão nas mídias, a coalizão desejou, então, tranquilizar as pessoas. Tsipras apoiou publicamente todos os movimentos de greve, mas adotou um tom comedido diante das ações que julgava “radicais” e tomou distância daquelas que inspiravam os partidos de extrema esquerda e os grupos anarquistas. Assim, durante a evacuação violenta da Villa Amalias, uma ocupação ateniense, em dezembro e janeiro passados, ele se absteve de condenar a ação da polícia.

O Syriza quer alimentar a possibilidade de uma aliança com a centro-esquerda, até mesmo mais que isso. Nenhuma pesquisa lhe deu, por enquanto, a esperança de chegar sozinho ao poder; seria, então, o caso de encontrar aliados que pudessem dar credibilidade à ideia de uma coalizão governamental. Mesmo que pretenda reunir “toda a esquerda”, a organização está, na realidade, isolada. O KKE recusa qualquer discussão com “oportunistas” que aceitam as regras da União Europeia e sua moeda única. À sua direita, a Esquerda Democrática (Dimar), uma cisão social-democrata do Syriza resolutamente a favor da União e do euro, fez sua entrada num governo que corrobora o memorando da Troika.

Nessas condições, formar um governo não significaria necessariamente tomar o poder. Por enquanto a direção busca ultrapassar a oposição esquerda-direita por meio da constituição de uma frente antimemorando suscetível de unir, por exemplo, os Gregos Independentes, um partido de direita nacionalista e conservador, mas que se opõe aos memorandos. Desde março, Tsipras afirma desejar um governo de união nacional, tendo como “coração” a esquerda e o Syriza. Falando claramente: tendo uma maioria sem excluir a direita.

Essa estratégia vai de encontro a uma forte oposição no seio da coalizão. Sua asa esquerda muito rapidamente criticou uma estratégia “eleitoreira”. Ela deseja, ao contrário, ver emergir um “Syriza das lutas”, que possa aumentar seu eleitorado ao levar os cidadãos vítimas da crise para suas posições. Assistimos então nestes últimos meses a um duplo movimento: enquanto a coalizão se transformava em partido unificado, cimentava-se uma “asa esquerda” em desacordo com o que ela entende como uma virada para a direita. Durante as conferências pan-helênicas da coalizão, que em dezembro de 2012 lançavam as bases de um partido unificado, uma moção dissidente totalizando 25% das vozes reuniu a corrente de esquerda do Synaspismos e a Esquerda Operária Internacionalista (DEA), entre outras. Ela reivindicava a constituição de um governo “unicamente de esquerda”, uma posição clara a respeito da anulação dos memorandos e da dívida, e a palavra de ordem “nenhum sacrifício em nome do euro”. A tendência majoritária prefere dizer: “O euro não justifica todos os sacrifícios”.

A crise do Chipre e a publicação pelo Partido Progressista do Povo Trabalhador (Anorthotiko Komma Ergazomenou Laou, Akel), partido irmão do Syriza, de um estudo que propunha a saída da moeda única como resposta às medidas da Troika exacerbaram ainda mais as críticas internas contra uma posição globalmente favorável ao euro. Parece, portanto, cada vez mais irrealista imaginar que a Grécia vá obter da Alemanha e do Banco Central Europeu (BCE) a liberdade para levar adiante o programa econômico do Syriza no seio da zona do euro. A tendência minoritária não bloqueará a unificação da coalizão em partido nos meses seguintes, mas obriga a esquerda radical a precisar seu programa político e sua estratégia.

Será preciso dissipar a suspeita de um duplo discurso. O programa de compromisso inicial, vago em seus termos e em seus objetivos, deixava a cada um dos partidos membros uma relativa liberdade de interpretação. Desde junho de 2012 essa situação deu lugar às declarações mais contraditórias e desorientou uma parte do eleitorado. No dia 5 de dezembro de 2012, Tsipras afirmou diante da Câmara de Comércio Heleno-Americana que a anulação dos memorandos era necessária. Quatro dias depois, o deputado de Chania, membro do Syriza, explicou que o objetivo era chegar a uma “renegociação dos acordos de empréstimo e a uma mudança da política econômica interior conduzida unilateralmente”, sem maiores precisões.1 Quando, no dia 17 de abril, Tsipras evocou uma “suspensão” dos memorandos, uma polêmica imediata, no interior e no exterior da coalizão, o obrigou a se desculpar pela “falha” e a reafirmar sua vontade de “anulá-los”.

As mesmas contradições aparecem sobre a questão da dívida: que proporção do valor total uma conferência internacional deveria anular? Qual seria a sorte reservada aos bancos? O próprio programa (que mesmo os funcionários do partido consideram vago, prometendo sem cessar novas propostas mais convincentes) revela essa ambiguidade: mesmo proclamando uma vontade revolucionária de ultrapassar o capitalismo, o conjunto das medidas propostas tende mais para uma política de impulso keynesiana, com o apoio do Estado aos pequenos produtores, agricultores ou artesãos. Prometem a nacionalização das empresas de importância estratégica, mas não excluem novas privatizações. Quanto aos objetivos ecológicos, eles ainda permanecem no estágio dos princípios gerais: é verdade que pregar a diminuição do crescimento em um país em plena recessão provocaria protestos.

Enfim, Tsipras empregou ao longo destes últimos meses uma intensa atividade para fazer conhecer e reconhecer seu partido como um interlocutor político sério no exterior. Se algumas dessas viagens, para a Argentina, por exemplo, foram vistas como sinais em favor da anulação da dívida, a que o levou aos Estados Unidos e a entrevista com o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, foram julgadas mais preocupantes.

Em função disso, o Syriza é atacado por ser ao mesmo tempo muito à esquerda e muito à direita. A coalizão radical deve constantemente afrontar o medo de seus eleitores – e principalmente da juventude urbana – de vê-lo se transformar em um novo Pasok: os socialistas chegaram ao poder em 1981 com um programa radical do qual praticamente não realizaram nada. Vítimas da crise, alguns jovens, hostis ao Pasok “de seus pais”, parecem decepcionados pela cautela do Syriza ao longo das lutas destes últimos meses.

A história recente da coalizão revela duas das principais dificuldades que deve enfrentar a esquerda quando ela se aproxima do poder. A primeira: como conduzir uma política resolutamente de esquerda num contexto em que a soberania nacional está entravada? O problema de uma reconquista da soberania nacional diz respeito, claro, às relações com a União Europeia e com o BCE, e os meios extremamente limitados dos quais dispõe um governo da zona do euro para enfrentar as transferências ou o desmoronar de seu sistema bancário.2 Ao se pronunciar pela permanência no seio da zona do euro – as dificuldades a serem superadas tanto em caso de saída forçada como na hipótese de saída voluntária pareciam grandes –, o Syriza se obrigou a encontrar meios para tornar sua política aceita por seus parceiros e adversários, como na ocasião da conferência internacional sobre a dívida dos países do sul da Europa que ele conclamou.

Segundo desafio: o das mobilizações populares, que poderiam servir de base para a reconquista da soberania nacional. As mudanças políticas na América Latina se apoiaram em uma intensa mobilização da população. A estratégia atual do Syriza se apoiaria em um sustentáculo desse tipo em caso de vitória eleitoral?

Baptiste Dericquebourg é Professor de Letras Clássicas em Atenas.



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