Ultraconservadores e Campanha da Fraternidade: lógica do confronto

Diálogo

Ultraconservadores e Campanha da Fraternidade: lógica do confronto

por Ana Claudia Teixeira e Brenda Carranza
4 de março de 2021
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Como em outras situações cotidianas de polarização política, a campanha tornou-se palco de um verdadeiro campo de batalha

Há mais de cinquenta anos a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão colegiado da igreja católica, propõe à sociedade brasileira refletir sobre temas nevrálgicos que permeiam as mais diversas realidades do país. Conhecida como Campanha da Fraternidade, essa iniciativa aponta horizontes de atuação para serem discutidos pela extensa geografia católica, durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa cristã.

No ano de 2021, setores católicos ultraconservadores reagiram, questionando se a iniciativa representava verdadeiramente o catolicismo, e atacaram seu caráter ecumênico[1]. Como em outras situações cotidianas de polarização política, a campanha tornou-se palco de um verdadeiro campo de batalha. Seus idealizadores tinham por objetivo ressaltar a importância do diálogo. Longe disso, o efeito foi o oposto. Setores ultraconservadores acusaram a campanha de ser uma infiltração da “extrema esquerda revolucionária” na igreja católica com o objetivo de defender a ideologia de gênero, as minorias, denunciar o feminicídio e o racismo. O tom conspiratório da narrativa desses segmentos tem desencadeado nas redes sociais inúmeras agressões misóginas à presidenta do Conselho Nacional de Igreja Cristãs (Conic), Romi Bencke, e deflagrado um boicote para que nenhum católico entregue o seu dinheiro no momento da coleta para a Campanha da Fraternidade Ecumênica. Essa arrecadação costuma ser destinada às ações solidárias. Diante dos ataques, a CNBB viu-se obrigada a publicar uma nota de esclarecimento e diversas organizações sociais manifestaram seu apoio à campanha.

Cartaz da Campanha da Fraternidade (Divulgação CNBB)

Mas, qual é o epicentro das reações hostis? Os números 67 e 68 do documento base, que constituem um alerta sobre as faces da violência que sofrem setores vulneráveis no país. Tais trechos destacam quem são as pessoas atingidas pelo sistema de violência. O documento afirma que “as mulheres, em especial as negras e indígenas, são impactadas em todas as dimensões de sua existência. Observar esta realidade evidencia a necessidade de discutir as questões de gênero (…) outro grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e criação de inimigos é a população LGBTQI+.”

Frear a possibilidade de que a sociedade brasileira discuta essas temáticas tem ocupado, nos últimos anos, o ativismo político de setores cristãos no Congresso Nacional. Qualquer tentativa dos movimentos sociais em debater direitos reprodutivos, sexuais e sociais e das minorias, esbarra numa batalha campal entre os parlamentares. Se no terreno religioso, católicos e evangélicos são concorrentes, no Parlamento constituem-se em aliados. Autores latino-americanos têm alertado para certo “ecumenismo político” que une cristãos na esfera pública, na tentativa de viabilizar uma agenda moral que propõe, a partir de dispositivos jurídicos, sobrepor uma visão cristã que normatize os comportamentos de todos os cidadãos e cidadãs, independentes de terem ou não religião.

Se as dissidências no catolicismo não são novas – aliás acompanham sua história milenar com robustas amostras de que a igreja católica é mestra em equacionar cisões internas – o que chama a atenção nesse episódio da campanha é a crise de desconfiança institucional que ele instala. Desconfiança alimentada por esses grupos ao deslegitimar publicamente a autoridade de um organismo católico no Brasil e insuflar animosidades entre os fiéis. Eles compartilham de estratégias beligerantes que desencadeiam ofensivas difamatórias no universo religioso, assentadas numa lógica binária que transforma contrários e até antagônicos em inimigos.

Em sintonia com o que Teiltelbaum tem chamado de Tradicionalismo (com T maiúsculo, por se tratar de uma iniciativa nascida entre grupos europeus pós-guerra), estes setores ultraconservadores consideram que a sociedade democrática está em declínio e se propõem desacreditar e destruir os seus pilares.

As afrontas contra a campanha também revelam a maneira como dentro da própria igreja católica esses grupos ultraconservadores vêm-se consolidando na mesma lógica bélica bolsonarista, enquanto estratégia sistemática de confronto, desqualificação e gerador de desinformação.

O caso da campanha não é isolado. Revela um contexto mais amplo dentro e fora do universo das igrejas. Como já alertaram Levitsky e Ziblatt, no livro “Como as Democracias Morrem”, o problema é que há nos últimos anos um enfraquecimento por dentro das instituições. Não como rupturas drásticas (golpe), mas instituições que são minadas interiormente, ora com a retirada de dispositivos jurídicos ora com práticas caluniosas travestidas de argumentos. Essas práticas vão sendo “toleradas pela sociedade”, largamente aceitas e perigosamente naturalizadas. Os autores alertam que é preciso incentivar o diálogo e a tolerância, ao invés de estimular a polarização política.

Só o exercício do diálogo e o afastamento da violência podem garantir não apenas o fortalecimento das instituições, sejam democráticas, sejam religiosas, como também das conquistas civilizatórias acumuladas ao longo da história. Proposta que vem ao encontro da intenção da Campanha da Fraternidade de 2021 de se somar aos esforços do exercício democrático. Por isso, o respeito à diferença e à diversidade, valorização do outro, a procura da equidade e da igualdade social e econômica norteiam seu tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”.

Ana Claudia Teixeira é professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Unicamp e co-coordenadora do Nepac-Unicamp.

Brenda Carranza é professora colaboradora do Departamento de Antropologia da Unicamp e co-coordenadora do LAR/Unicamp.

[1] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/02/parceria-da-cnbb-com-evangelicos-campanha-da-fraternidade-vira-campo-de-batalha-ideologica.shtml. Entre os grupos mais atuantes nesse episódio contra a CFE/2021 encontram-se a associação civil de católicos leigos o Centro Dom Bosco (RJ); Templários de Maria; e alguns sacerdotes e o arcebispo militar que vieram a público para manifestar seu dissenso com a CNBB. https://www.acidigital.com/noticias/bispos-comentam-polemica-gerada-por-texto-base-da-campanha-da-fraternidade-2021-76263



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