Círculo moral bolsonarista: (anti)política, individualismo e negacionismo

Círculo moral bolsonarista: (anti)política, individualismo e negacionismo

por Paulo Boggio e Carolina Botelho
21 de dezembro de 2020
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A identidade social com um determinado grupo é amplificada ao incluir uma identidade moral com atribuição e julgamento de certo e errado

Bolsonaro saiu do partido que o fez vencedor em 2018, aquele que o abrigou rumo à vitória. Com isso, acabou desistindo de um capital político importantíssimo, já que o PSL teve uma espetacular conquista no número de cadeiras no Congresso. Também abandonou no meio do caminho fiéis escudeiros como Gustavo Bebbiano, General Santos Cruz e Joice Hasselman. Depois desse movimento arriscado, tentou criar uma legenda que se revelou um fiasco constrangedor. Ao renunciar ao PSL, deixou de ter acesso a um vultuoso fundo eleitoral, o segundo maior entre as bancadas dos partidos, assim como renunciou ao protagonismo que partidos ganham após a conquista de uma eleição presidencial e que, em geral, os tornam mais fortes e com maior base de apoio. Caso tivesse mantido esse protagonismo poderia, como consequência, influenciar seu crescimento em diversas cidades e ocupar espaços em câmaras e prefeituras Brasil afora nas eleições municipais.

É como se o presidente tivesse jogado fora um cheque com grande valor, que no caso, foi o capital político conquistado nas urnas. Mas, se por um lado faltou a noção sobre esses importantes ativos que as urnas dão aos vencedores, por outro sobraram narcisismo individual e familiar. E é sobre isso que discutiremos neste artigo. Por mais contraditórias, as escolhas do presidente parecem girar em torno daquilo que chamaremos de círculo moral restrito, que de tão restrito, até aqueles que acham que estão dentro, no dia seguinte descobrem não estar mais.

Senador Fernando Collor, presidente Jair Bolsonaro e a primeira dama Michele Bolsonaro (Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Parte disso fica evidente tanto olhando para o passado quanto para os dias atuais do chefe da nação. Tanto Bolsonaro quanto os filhos têm tido sucesso eleitoral há algum tempo. Mas isso não significa que tal sucesso venha do que se espera da “boa política”, aquela que se orienta na busca pelo bem-estar social, preservando valores republicanos e construída em função de uma agenda pública garantidora de direitos para a sociedade. Uma política do exercício diário em negociações nos gabinetes ou bases eleitorais, do diálogo e da interface com os diferentes segmentos da sociedade. Uma política que, necessariamente, precisa de círculos morais expandidos. É o que atualmente eles chamam de “velha política” jogando para a plateia a ideia de que política, por natureza, é o fruto proibido.

Participar de círculos morais expandidos e exercer a boa política necessitam, entre outras coisas, de capacidade de diálogo, preocupação com o sofrimento e mazelas da população e proposição de soluções.

Jair Bolsonaro aprovou menos de meia dúzia de projetos de lei de baixa relevância ao longo de toda carreira de quase três décadas como deputado federal pelo Rio de Janeiro, dando a dimensão de sua baixa interlocução, destaque e preocupação com os desafios reais da população. Sua inserção na Câmara dos Deputados sempre foi secundária, ou de baixo clero como muitos chamam, assim como sua inserção em partidos políticos que, em grande medida, foi sem grande vinculação programática (vide seu périplo passando por PSC, PP, PFL, PTB, PPB, PPR e PSL). A falta de partido atualmente só é uma novidade considerando se tratar de um Presidente da República. Em se tratando de Jair, seus interesses parecem terem sempre sido voltados para seus círculos morais restritos. Mas o fato é que ele ganhou a eleição.

Especialistas ainda se desdobram para entender as diferentes variáveis que permitiram sua vitória. Hoje já se torna claro que ela responde a diferentes incentivos e demandas eleitorais, compondo um híbrido, inorgânico personagem, como se tivéssemos diante de um Frankenstein político que se ocupa hoje de equilibrar o prestígio que tem, ou que resta, não se sabe ainda. Um ex-capitão do exército expulso da corporação por terrorismo, que fez uma campanha com elogios à ditadura militar brasileira e à tortura, que criticou movimentos sociais e desdenhou de diferentes conquistas dos direitos civis e sociais dos últimos trinta anos. Somado a isso, ainda escolheu como vice-presidente o general do exército Hamilton Mourão, que poucos dias antes do pleito fez declarações públicas de que seria a favor de um autogolpe, caso necessário. Essa somatória de características não parece muito apelativa a ponto de eleger alguém. Mas os elegeu. Ironicamente e tragicamente, esse ideário parece responsável por manter uma base de apoio ao presidente até hoje. Soma-se a isso o encontro de uma liderança de círculo moral restrito com seguidores que apoiam pautas também pouco inclusivas. É a receita perfeita para a tragédia: uma liderança truculenta, de baixa empatia e que valoriza pequenos grupos em detrimento dos outros. Se isso ainda não havia ficado claro em 2019, a pandemia do novo coronavírus desnudou o rei. Precisamos aprender com isso.

Do ponto de vista sociológico, precisamos tornar mais acessíveis aos indivíduos processos não controlados, esclarecendo-os e orientando a todos dentro da teia social. Dentro dessa perspectiva, Norbert Elias cumpre o papel de alargar o campo dos estudos sociológicos voltados à elucidação de processos sociais, ou seja, dos processos de interação humana no âmbito da sociedade. A contribuição do processo decisório dos eleitores também responde a essas indagações. As divergências entre as teorias que explicam o voto do eleitor recaem, como observado pelo saudoso cientista político Marcus Figueiredo, “precisamente no estabelecimento das precedências e na ordenação lógica dos condicionantes do comportamento humano”. Isto é, podemos ter uma variedade de explicações do comportamento político, mas “o homem é exatamente o mesmo”. Eles possuem crenças construídas a partir de suas percepções sobre a sociedade, carregam valores, vontades, paixões, ódios, um conjunto de ideias que são reveladas por meio do voto, tudo isso dentro de um contexto social no qual a política, a economia, a cultura disputam espaços. Além disso, somos uma espécie gregária; andamos em grupos. Ou seja, não somos humanos sozinhos, mas sim pelos nossos relacionamentos, o que torna necessário, para qualquer análise, compreender como as interações sociais se dão. Não é à toa que esse artigo é assinado por uma cientista política e por um neurocientista social.

O significado de sermos uma espécie gregária diz respeito a sermos uma espécie social que anda e coopera em grupos. Por trás disso, estão sistemas neurobiológicos sofisticados que liberam neurotransmissores fortalecendo vínculos sociais e reforçando comportamentos cooperativos.  Mas como então explicar o que muitos têm chamado de falta de cooperação, empatia e compaixão do chefe da nação com os brasileiros morrendo durante essa pandemia? Não cooperamos com qualquer grupo. Nossos círculos sociais vão desde os núcleos familiares próximos até colegas e pessoas mais distantes. A formação de grupos se dá por fenômenos de coalizão, alianças por interesses e por visões de mundo compartilhadas. E ao me identificar socialmente com determinado grupo, outros grupos que se apresentam como competidores podem se tornar rivais – o famoso ‘nós e eles’ tão explorado nas eleições de 2018. Essa identidade social com um determinado grupo é amplificada ao incluir uma identidade moral com atribuição e julgamento de certo e errado. Esse tempero adicional facilita a pulverização da informação que, não necessariamente, precisa ser verdadeira. Em 2018, isso ganhou vida com factoides como o kit gay: uma invenção que tinha um grupo-alvo e carregava conotação moral.

Com isso, não dá para falar que o presidente não estabeleça vínculos ou não tenha empatia pelo sofrimento dos outros. A questão chave é sobre quem são esses outros. Lembram-se da história dos círculos morais restritos? Pois é, talvez as preocupações estejam restritas a grupos muito específicos. Mas se isso já não parece bom, pode piorar. Os mesmos sistemas neurobiológicos subjacentes à formação de vínculos e cooperação também funcionam para responder aos grupos que consideramos rivais. Isso se dá tanto por mecanismos de agressão contra membros do outro grupo quanto por prazer ao sermos expostos pela dor do outro que faz parte de um grupo rival ao nosso. Essa espécie de alegria no sofrimento alheio é chamada de Schandefreude. A pandemia atual deixa tudo isso bem evidente passando por xenofobia (“vacina chinesa”), homofobia (máscara é coisa de “marica”), movimentos anti ciência e atos de agressão contra profissionais de saúde e jornalistas no famoso cercadinho em Brasília. Quem não está dentro do círculo parece ser visto como inimigo a ser combatido.

 

A pandemia atual trouxe tudo isso à tona. Deixa evidente algo importante sobre a natureza humana: somos seres sociais e dispostos a nos sacrificarmos pelos outros (incluindo pessoas desconhecidas), mas isso pode ser enviesado se formos motivados a nos organizarmos em grupos rivais e só cooperar com aqueles do nosso grupo. Com isso, é urgente a necessidade de lideranças que não categorizem o mundo entre o grupo certo e o grupo a ser eliminado e nem mobilizem seus apoiadores por interesses próprios. Uma liderança nacional deve ter seu círculo moral estendido e fomentar um senso de coletividade. Se isso já é importante em tempos normais, isso significa a vida e a morte em tempos de pandemia.

Nesse sentido, o período eleitoral não é o único espaço privilegiado para refletir sobre essas questões. A eleição, a instituição social que se regula repetidamente em forma de ritos cívicos e eleitorais e que termina quando a última urna é aberta, tem que ser encarada sociologicamente como Marcus Figueiredo propôs: “como o final de um longo processo social e, ao mesmo tempo, a revelação dos projetos sociais escolhidos pela população” que se diferencia entre si entre trabalhadores, artistas, políticos, consumidores, médicos, pais, filhos, religiosos ou não, cada um com um sistema de crenças. Entretanto, para que haja mudança nessas escolhas dos últimos anos, é necessário que o resultado do processo decisório dos eleitores reflita um conjunto de interesses, um tipo de visão de mundo, que impeça a dinâmica individualista a que assistimos. Precisamos de líderes que promovam uma supercategorização, isto é, que sejam capazes de criar a ideia do “nós ampliado” como condição essencial de sua visão política, econômica e social e que assim possa combater por meio de ações coordenadas e cooperativas a grave crise que se instalou. Mas isso não se consegue com lideranças de círculos morais restritos. A atual crise deixa isso bem evidente.

 

Paulo Boggio é doutor em Neurociências e Comportamento pela USP, coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisador Produtividade do CNPq.

Carolina Botelho é doutora em Ciência Política, pesquisadora de pós-doutorado do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social e pesquisadora associada DOXA/IESP.



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