Um olhar sobre a periferia
O DNA cultural de uma sociedade livre e pluralista é regido pelas vidas que habitam nosso planeta, criadas para viver em harmonia com a natureza
“A cultura educacional e a cidadania representa as verdadeiras essências da alma humana; um direito que pertence a todos, independentemente de sua classe social.”
Laerte Sprocati
Precisamos, enquanto sociedade organizada, refletir sobre os caminhos da cidadania cultural humana. No início da civilização, a monocultura era a cartilha a ser seguida por todos; contudo, a cultura de um povo é viva, pujante e vive em transformação constante. Ela se comporta como uma simbiose de liberdade em sua plenitude. O DNA cultural de uma sociedade livre e pluralista é regido pelas vidas que habitam nosso planeta, criadas para viver em harmonia com a natureza.
Quando segregamos uma população do acesso à cultura universal, criamos indivíduos desprovidos de criatividade, robotizados e condenados à linguagem de uma monocultura escravagista. Censurar a liberdade de expressão é deixar a criatividade humana aprisionada no calabouço da ignorância – um cárcere que só pode ser vencido através da cidadania educacional e cultural, tendo como protagonistas seres humanos livres de amarras e preconceitos.
A sociedade contemporânea, em sua busca frenética por fatores econômicos e sem o devido planejamento, criou cidades órfãs, cercadas por periferias desprovidas de infraestrutura e carentes de desenvolvimento humano. Por isso, as políticas públicas precisam ser concebidas de forma horizontal, priorizando uma educação cultural inclusiva que promova a igualdade de direitos.

Contudo, o fenômeno cultural na periferia não espera apenas pelas políticas públicas; ele brota da potência dos encontros. Hoje, assistimos a uma explosão de expressões espontâneas – nos sarais de poesia, nas batalhas de rima, nas ocupações artísticas e nos coletivos digitais. Essa produção independente, que muitas vezes floresce à margem dos editais formais, revela uma juventude que tensiona a cidade e reivindica seu direito à ocupação do espaço público. O desafio que se impõe às políticas públicas atuais é justamente deixar de ignorar ou apenas tutelar esse fenômeno, passando a reconhecê-lo como um ativo estratégico para a democracia. É preciso, portanto, que o Estado aprenda a apoiar essas iniciativas sem burocratizar a essência criativa que as sustenta, fomentando um diálogo horizontal entre o poder público e a inteligência das periferias.
Há mais de 30 anos, participo e crio projetos culturais no estado de São Paulo, tanto na capital quanto no interior. Na periferia, desenvolvi o Projeto Teatro Cidadão, utilizando a linguagem dramática como instrumento de ensino de cidadania. Por uma feliz coincidência, essa trajetória encontrou a gênese dos CEU (Centros Educacionais Unificados). Como morador e conselheiro gestor no bairro de Perus, acompanhei desde a construção até a inauguração, levando meu projeto e meus alunos para integrar esse novo modelo de política pública.
O CEU estabeleceu uma proposta que aliou a educação formal à cidadania e à cultura pluralista. Crianças, jovens e famílias tornaram-se protagonistas de uma verdadeira inclusão cultural, com acesso direto às artes — teatro, música, pintura, esporte e lazer — e à capacitação profissional. Esse processo transformou a comunidade: o sujeito da periferia apropriou-se da sua cultura, tornando-se um cidadão criativo, independente e construtivo. Formou-se, assim, um celeiro de grupos de teatro, dançarinos, músicos e artistas plásticos, estabelecendo uma verdadeira ponte para a universidade. Ao modificar o seu próprio meio social em direção a uma comunidade mais igualitária e justa, provamos que, através do investimento contínuo na educação cultural e na cidadania, é possível transformar jovens da periferia em mestres e doutores de suas próprias comunidades.
Laerte Sprocati é professor de teatro e articulador cultural com mais de 30 anos de atuação em projetos de impacto social no estado de São Paulo. Foi conselheiro gestor na implementação do Centro Educacional Unificado (CEU) no bairro de Perus, onde desenvolveu o Projeto Teatro Cidadão, pioneiro na utilização das artes cênicas como ferramenta de educação, cidadania e inclusão social na periferia. Dedica sua trajetória à defesa da cultura como direito fundamental e à transformação do sujeito periférico em protagonista de sua própria história e território.

