Uma aldeia chinesa na Itália - Le Monde Diplomatique Brasil

OS “WENZHOU” DE PRATO

Uma aldeia chinesa na Itália

Edição 156 | Itália
por Jordan Pouille e Lei Yang
1 de julho de 2020
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Na Itália, o centro europeu da diáspora chinesa registrou poucos óbitos pelo coronavírus. Artesãos desse sucesso sanitário, os chineses de Prato, engajados na indústria local do prêt-à-porter, gozam de um reconhecimento tardio, após vinte anos de desamor

As grandes mídias de Pequim fizeram a festa com os elogios proferidos pelo prefeito de Prato (Toscana), Matteo Biffoni, a propósito dos residentes chineses de sua cidade. “Quando a epidemia foi declarada na China, os jornais e cadeias de televisão [italianos] estavam convencidos de que Prato se tornaria o buraco negro da Itália. Na verdade, temos uma taxa de contágio bem menor que o resto do país e, sobretudo, não há um só cidadão chinês infectado. A comunidade chinesa se mostrou extraordinariamente atenta”, declarou o Biffoni, em 7 de abril de 2020, à China Central Television (CCTV). “Inúmeros cidadãos de Prato estavam na China para o ano novo lunar [25 de janeiro]. De volta, puseram-se em quarentena voluntária. É preciso agradecer-lhes por isso”, acrescentou à Agência Xinhua. Era a primeira vez que os chineses de Prato ouviam elogios assim.

Nessa cidade industrial da Toscana, situada 20 quilômetros ao norte de Florença, eles fazem parte da paisagem há uns 25 anos. Compraram fábricas de tecido à beira da falência e aprimoraram a confecção. Jou Rongjing, presidente da Associação dos Comerciantes Chineses da cidade, ressalta: “Fiquei muito orgulhoso ao ouvir as palavras [do prefeito]”, declarou ao Beijing Qing Nian Bao, em 8 de abril. No fim de janeiro, essa prestigiosa figura organizou com dezoito associações da diáspora uma “força de intervenção especial Covid”, que impôs o confinamento e o uso de máscaras aos milhares de trabalhadores chineses, bem antes de o governo italiano decretar essa medida. Uma equipe de voluntários garantiu o respeito às regras para toda a diáspora e distribuiu máscaras aos pratenses na rua, nas caixas de correio e nos estacionamentos dos hospitais. “Finalmente, o método chinês foi aplicado. A única diferença é que os voluntários cívicos não exibiam coletes nem braçadeiras vermelhas”, analisa o jornal, esquecendo de passagem as seis igrejas evangélicas chinesas da cidade, cujos fiéis também colaboraram bastante.

As autoridades de Prato estimam em 31 mil o número de chineses residentes na cidade – dos quais um quarto em situação irregular –, em uma população total de 195 mil habitantes.1 A Câmara de Comércio local contou no ano passado 5.850 empresas chinesas, quase sempre individuais, 4.280 delas no setor têxtil. Estas nascem e morrem num ritmo desenfreado: a expectativa de vida média não ultrapassa dois anos.

A comunidade majoritariamente originária de Wenzhou, cidade portuária da província de Zhejiang, cresceu a partir de meados dos anos 1990, na esteira das grandes reestruturações das empresas estatais chinesas, que acarretaram um desemprego maciço no país. Se em Belleville e Paris seus operários, clandestinamente e quinze horas por dia, confeccionam raviólis para restaurantes asiáticos, os de Prato desenvolveram o nicho do pronto moda: produzir rápido e barato o prêt-à-porter para o grande público. Esse sistema respondia – e responde ainda – às exigências dos varejistas europeus, que não querem mais esperar dois meses por uma encomenda de roupas, enquanto se aproveitam da sedutora etiqueta “Made in Italy”.2

Há muito tempo, em Prato, os costureiros chineses trabalham, comem e dormem na confecção, com seus magros salários servindo para pagar os “coiotes”. Seus patrões, também de Wenzhou, vivem bem, exibindo-se em carros de luxo. De uma hora para outra, proliferaram lojas, restaurantes, clubes de jogos e salões de chá exclusivos.

Em 2008, quando eclodiu a crise financeira, as últimas fábricas de tecidos de alta qualidade mantidas por italianos aceleraram seu declínio, enquanto as confecções chinesas continuaram a prosperar. Todavia, a evasão fiscal provoca indignação: a polícia financeira italiana descobriu fluxos de dinheiro não declarados entre a Toscana e a China estimados em 1 bilhão de euros por ano, dos quais dois terços saíam de Prato. No ano seguinte, Roberto Cenni, o candidato da direita berlusconiana, venceu as eleições municipais nessa fortaleza comunista após uma campanha virulenta contra a comunidade chinesa e seus “30 mil escravos”.

Em 1º de dezembro de 2013, ocorreu a tragédia do Teresa Moda: sete operários chineses morreram prisioneiros das chamas na confecção, que, como tantas outras, não tinha saída de emergência. A cidade decretou um dia de luto. Alessandro Fabbrizzi, secretário-geral local da poderosa Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL), exortou Prato a deixar de ser “a cidade da ilegalidade”.3 Nos muros, florescem grafites conclamando à “ação”.

(Stefano Rellandini/Reuters)
A “preguiça” dos italianos

Alguns meses depois, Matteo Biffoni, o candidato de centro-esquerda, foi eleito com a promessa de diálogo e retorno à legalidade. Programa que executou: desde sua posse, em 2014, cerca de 10 mil batidas policiais ocorreram nas empresas. Várias delas visaram escritórios de contabilidade em mãos de pratenses: por um bom dinheiro, alguns forneciam folhas de pagamento, balanços de empresa e carteiras de trabalho para permitir a seus clientes chineses obter a renovação do visto de permanência. Estes, em seguida, eram dispensados e pagos por fora.

As batidas policiais ocorrem também nas confecções onde são denunciadas disparidades entre o número de operários declarados e o das máquinas de costura ali existentes. Verifica-se, é claro, se as normas de prevenção de incêndio são cumpridas. Lacra-se em seguida o estabelecimento e, depois, vem a reabertura condicionada a uma série de encargos e ao pagamento de multas pesadas.

“Medem até o tamanho dos bancos! Mas, em caso de assalto ou agressão na rua, não aparece ninguém”, suspira um empresário entrevistado antes da epidemia. Wen Jun Hui4 possui uma loja atacadista perto da Via Toscanini. Bebericando seu chá de jasmim, ele desabafa sobre a “preguiça” dos italianos, sobre os “trabalhadores chineses que ficaram muito caros” e sobre a mão de obra paquistanesa e africana pouquíssimo qualificada. Depois, convida-nos a conhecer o templo budista Pu Hua da Piazza Gualchierina, joia da alta sociedade sino-pratense. Huang Shulin, seu administrador, de chapéu borsalino combinando com sapatos Versace, nos apresenta três monges residentes, vindos especialmente de Ningbo (Zhejiang), e as obras de embelezamento recentes, financiadas pelo mecenato.

A pompa do templo contrasta com a decadência das calçadas da Via Filzi, artéria comercial onde as lixeiras e os parquímetros são cobertos de adesivos marotos convidando, em mandarim, a ligar para uma “irmã” ou “prima”. É ali, em velhos bares transformados em cantinas operárias, que os costureiros do pronto moda saboreiam uma enorme tigela de macarrão com carne de porco, enquanto assistem aos shows de talentos na TV Zhejiang. Estamos a poucos passos da Via Pistoiese, onde se alinham as primeiras oficinas de costura chinesas e prédios velhos que se diria abandonados, com janelas às vezes obliteradas para disfarçar as luzes acesas que trairiam o trabalho noturno.

Nove quilômetros ao sul, em Seano, junto às vinhas, as confecções ocupam barracões novos, construídos atrás de casas respeitáveis e alugados a altos preços por seus proprietários italianos. Também ali, a infração por desvio de finalidade do local parece moeda corrente: máquinas de costura e montões de tecidos substituem os utensílios agrícolas.

Lu Hong, de 34 anos, tênis nos pés e casaco nos ombros, é uma das pequenas empresárias do pronto moda. Montículos de pano rodeiam sua fina silhueta: ela está concluindo uma encomenda de 1.800 vestidos de flanela que entregará no dia seguinte, ao volante de sua caminhonete, a um comerciante da Rua Popincourt, em Paris: “Chinês como eu, cuja família rica abriu falência. Está recomeçando do zero”. A jovem iniciou sua carreira como operária, há dez anos, ganhando 800 euros por mês. “Antes disso, eu era contadora numa empresa de telecomunicações, em minha terra, Fujian”, recorda-se. Lu é ambiciosa. Adquiriu um espaço em que decoradores, também chineses, estão preparando oito showrooms para alugar: “Mas os lucros serão poucos, pois sei que as multas vão chover”.

Da ameaça à extorsão, quase sempre é apenas um pulo. Em 3 de maio de 2019, um empresário chinês e sua esposa grávida foram chantageados em sua residência por um policial e três cúmplices, munidos de um falso mandado de busca. Montante do roubo: 11 mil euros em dinheiro, dez vezes menos que o esperado. Soube-se em 29 de abril de 2020 que um figurão também estava envolvido. O fato foi denunciado no Nouvelles d’Europe, jornal dos chineses da França, e reproduzido no WeChat.

Lu Hong nos apresentou Gao Dong, um de seus três funcionários no momento. Esse passador de roupa quarentão é remunerado por peça. “Lu me paga 15 centavos por vestido. Posso passar até seiscentos em doze horas, o que dá 90 euros por dia. Nada mal, hein?” Filho de camponeses de Hebei, ele costurava calçados Bally em uma fábrica dos arredores de Shenzhen, na China, ganhando 700 euros por mês. Em 2017, durante o feriado de Ano Novo Lunar, recebeu a visita de um homem que andava atrás de mão de obra para exportar, prometendo um salário melhor, uma cama confortável e três refeições por dia. Seduzido, Gao Dong pagou os serviços do homem e chegou à Itália um mês depois. Sua esposa se juntou a ele mais tarde. “Ela está trabalhando numa fábrica de botões, a 10 quilômetros daqui. Dorme no emprego, em um quarto fornecido pela fábrica, com outra operária. Nós nos vemos uma vez por mês.”

À medida que a mão de obra diminui, principalmente em razão de muitos regressarem ao país natal, onde se abrem oportunidades mais favoráveis, africanos e paquistaneses tomam seu lugar. Podemos vê-los, por exemplo, desde as 7 horas da manhã, na Via del Molinuzzo, em volta de um trailer amarelo-canário que vende porções de macarrão a 1 euro e ovos com chá a 50 centavos. “Eles comem ao ar livre, agachados na calçada, como verdadeiros chineses”, diverte-se o dono, um ex-operário, com seu tabuleiro bem abastecido. Ele trabalhou em Sesto Fiorentino, a 15 quilômetros de Prato e a 10 quilômetros de Florença, num conjunto de armazéns que escondia centenas de coureiros chineses espremidos em compartimentos estreitos. Ainda hoje, lá se fabricam exclusivamente bolsas, produzidas a granel ou para venda aos ambulantes. Como no cubículo-confecção da família de Wen Jun Hui, para onde se dirige uma velha senhora loira, de casaco de vison, que entrega um envelope e vai embora. “É um adiantamento”, explica a senhora Hui. “Fabricamos bolsas sob medida para ela, a 14 euros por peça. Não sei por quanto ela vende. Nem quero saber”, conclui, rindo. Examinamos o logotipo e consultamos o site de vendas: 220 euros. Nesse labirinto de confecções minúsculas, delimitadas por grades e muretas, cruzamos com pelo menos uns vinte trabalhadores africanos. Entre eles, Sidy, senegalês de 28 anos, com seu estilo hip-hop e sentado num banquinho. Está aqui há apenas duas semanas. “Tudo tranquilo. Meu patrão é o cara na máquina bem atrás de mim. Ganho 30 euros por dia, trabalhando das 7 às 21 horas. Vou de um cubículo a outro. Quando o patrão me manda um SMS, apareço.”

 

“Respeito às regras”

Voltamos a Prado, para o almoço. Diante de uma casa cercada de pinheiros, avistamos um operário de 23 anos, chamado Amin, com uma caixa de energéticos Red Bull debaixo do braço. Ele trabalha numa fábrica têxtil há sete meses, depois de passar quase três anos num campo de refugiados perto de Palinuro, uma estação balneária ao sul. “Foi o tempo de que precisei para conseguir asilo político. Pensei que ia ficar louco, mas aprendi italiano.” Esse jovem cresceu numa aldeia do Waziristão, região montanhosa no noroeste do Paquistão, uma base remota dos talibãs. Conta que sua mãe morreu e seu pai ficou inválido. “Posso lhe enviar 300 euros por mês.” Seu patrão é de Wenzhou, “mas só me comunico com meu capo, um paquistanês que também me arranjou uma cama por 150 euros mensais.” Amin vive numa casa de seis quartos, cada um ocupado por quatro rapazes. O dono, que embolsa assim 3.600 euros de aluguel por mês, é um aposentado italiano que não aprecia nem um pouco nossa presença.

A esses novos operários trazidos pela atual crise migratória, o prefeito de Prato, Biffoni, pretende aplicar as mesmas regras: “Os operários africanos ou paquistaneses em geral não se acham em situação irregular, embora trabalhem horas demais… com contratos provisórios. Ainda que Prato deixe de ser esse centro chinês, estamos numa sociedade multicultural. Devemos nos esforçar para construir uma sociedade onde todos respeitem a mesma lei. Todo mundo é bem-vindo a Prato, desde que respeite as regras”. Reeleito em maio de 2019, ele convocou pela primeira vez dois filhos de imigrantes chineses5 para integrar o conselho municipal: Marco Wong, engenheiro de telecomunicações de 56 anos, e Teresa Lin, de 24, formada em Economia nos Estados Unidos e já à frente da empresa de pronto moda da família.

 

Jordan Pouille e Lei Yang são jornalistas.

 

1 Disponível em: http//statistica.comune.prato.it.

2 Cf. Antonella Ceccagno, City Making and Global Labor Regimes: Chinese Immigrants and Italy’s Fast Fashion Industry [Construção de cidades e regimes de trabalho globais: imigrantes chineses e a indústria italiana de moda rápida], Palgrave MacMillan, Londres, 2017.

3 Louise Munkholm, Re-inventing Labour Law Enforcement: a Socio-legal Analysis [Reinvenção da aplicação da legislação trabalhista: uma análise sociojurídica], Bloomsburry, Londres, 2020.

4 O nome foi alterado a pedido dele.

5 Cf. Dario di Vico, “Teresa Lin e Marco Wong, la storia dei primi due consiglieri cinesi eletti a Prato (oltre l’integrazione)” [Teresa Lin e Marco Wong, a história dos dois primeiros conselheiros chineses eleitos em Prato (além da integração)], Corriere della Sera, Milão, 10 jun. 2019.



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