“Uma gripezinha”: A análise política do discurso negacionista

Negacionismo

“Uma gripezinha”: A análise política do discurso negacionista

por Grupo de Pesquisa Discurso
19 de junho de 2020
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No segundo texto da série “Populismo e Crise: A análise política dos discursos sobre a pandemia da Covid-19”, produzida pelo Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (Discurso)”, apresentamos a análise política do discurso “negacionista” sobre a pandemia.

 

Tendo como referência a pandemia da Covid-19 como um acontecimento que acentua desigualdades, mas que coloca em suspensão a hegemonia, abrindo oportunidades de disputa política entre os discursos “negacionista” e “científico”, neste artigo, através do auxílio metodológico da análise política dos discursos e da abordagem de marcos interpretativos apresentadas no texto anterior, aprofundamos a caracterização do discurso “negacionista”. Partindo de uma sucinta identificação dos seus principais porta-vozes, a análise traz o diagnóstico que esse discurso faz do problema, o tom predominante de suas práticas discursivas, as demandas e os grupos que se articulam em identidades políticas antagônicas – o “eles” e o “nós” – com os antagonismos em nível nacional ou internacional que se criam ou se reproduzem na disputa, e as soluções e propostas para enfrentar e sair da pandemia.

Olhar para a pandemia da Covid-19 como um acontecimento[1] – além de destacar o aprofundamento das desigualdades que já vinham sendo potencializadas pelo neoliberalismo – permite identificar as oportunidades que se criam com a suspensão da hegemonia que ela possibilita e que se manifestam na disputa política entre os discursos “negacionista” e “científico”.  Com efeito, no campo discursivo referente à pandemia da Covid-19 que se conforma a partir das práticas discursivas expressas em falas, documentos, performances e decisões de diversos atores políticos e sociais em nível nacional e internacional, é possível delimitar dois discursos mestres na disputa política: o “negacionista” e o “científico”, em que se articulam com ênfase diferente dois polos temáticos: a sustentabilidade da vida e a sustentabilidade da economia[2].

Arte: César Habert Paciornik

Por um lado, temos o discurso “negacionista”, defendido por algumas autoridades e lideranças econômicas e religiosas, mídias tradicionais e sociais. Este discurso minimiza ou não reconhece a amplitude e importância da pandemia. Privilegiando a sustentabilidade da economia, incentiva a volta ao trabalho e o fim das medidas restritivas de quarentena horizontal e de lockdown.

Por outro lado, encontramos o discurso “científico”, defendido por médicos sanitaristas e que conta com o apoio de organismos internacionais, mídias, governadores estaduais e muitos governos estrangeiros. Por sua vez, este discurso privilegia o cuidado da saúde e a sustentabilidade da vida, defendendo o isolamento social com a quarentena horizontal e até lockdown como melhor forma de garantir a vida e, também, o êxito futuro em termos de sustentabilidade econômica.

Assim, tendo como referência o olhar sobre a pandemia da Covid-19 como um acontecimento e nos valendo do auxílio metodológico da análise política dos discursos e da abordagem de marcos interpretativos[3] apresentados no trabalho anterior desta série[4], neste texto será caracterizado o discurso “negacionista”. No próximo artigo, compartilharemos os resultados da análise política do discurso “científico”.

Os principais porta-vozes dos discursos “negacionista”

Entre os poucos porta-vozes no nível internacional do discurso “negacionista” e suas variantes, identificamos presidentes e primeiros ministros de países, como EUA (Trump) e Grã-Bretanha (Johnson antes de ser infectado pela Covid-19), assim como líderes autoritários de países como Bielorrússia (Lukashenko), Tajiquistão (Berdymukhamedov), Tanzânia (Magufuli) e Nicarágua (Ortega). Em nível nacional, encontramos o presidente do Brasil, ministros e membros do segundo escalão, parlamentares do dito “novo centrão”, empresários, lideranças do agronegócio, membros das forças armadas, da polícia militar e dos bombeiros (aposentados e na ativa), lideranças de igrejas pentecostais e nas mídias sociais blogueiros e produtores de fake-news. Desse conjunto de atores em nossa pesquisa, a nível internacional daremos destaque ao presidente dos EUA e, a nível nacional, ao presidente do Brasil e lideranças de igrejas pentecostais.

 Donald Trump (Donald John Trump), homem, branco, 73 anos, nascido em Nova Iorque, empresário de sucesso e com uma vida pública movimentada por participações em programas televisivos, filmes e pela repercussão pela imprensa de seus acordos de divórcios milionários. Em 2016, em meio a uma acirrada corrida presidencial com Hillary Clinton e, contrariando a previsão da maioria dos analistas, Donald Trump foi eleito o 45º presidente dos Estados Unidos da América pelo Partido Republicano, com 290 votos do total de 538 eleitores no Colégio Eleitoral – apesar de sua opositora ter tido 300.000 votos a mais que ele. Durante uma administração caracterizada por medidas controversas – por exemplo, em termos de migração, comércio e política externa – e amparado num discurso nacionalista-protecionista e com promessas na melhora dos indicadores de emprego, o presidente enfrenta os desafios da pandemia num contexto de tentativa de reeleição presidencial, que deveria ocorrer no segundo semestre de 2020. Apesar da crescente gravidade que tem transformado o país no epicentro da pandemia, Trump tem mantido um tom de otimismo, minimizando o grave quadro epidemiológico, apoiando a abertura econômica e incentivando os seus apoiadores a enfrentar os governadores que defendem o isolamento social. Desde o início do mês de junho de 2020, vem enfrentando uma grande onda de mobilizações antirracistas e contra a violência policial destinada à população negra estadunidense. É visto por seus críticos como uma liderança extremista inexperiente, que ataca os ideais representativos democráticos, de cooperação internacional e tolerância. Entretanto, por seus apoiadores, o presidente é um líder que colocará os interesses e princípios fundadores da América em primeiro lugar.

 

Jair Messias Bolsonaro, homem branco, nascido em Glicério (SP), 65 anos, eleito presidente do Brasil em 2018, com 55,13% dos votos válidos no segundo turno pelo Partido Social Liberal (PSL), do qual se desfiliou em novembro de 2019. Passou para a reserva do Exército no final da década de 1980, cumpriu mandato como vereador do Rio de Janeiro de 1989 a 1991 e sete mandatos parlamentares como Deputado Federal através de nove partidos. Foi eleito presidente da República com um discurso que articulava posições contra a política, a corrupção e o esquerdismo; a redução da maioridade penal, a defesa da segurança jurídica na atuação policial; o armamento dos cidadãos de bem; a defesa dos valores cristãos da família; e uma agenda ultra-neoliberal em termos econômicos. O seu primeiro ano e meio de governo tem se caracterizado por um ambiente de instabilidade institucional, com denúncias de corrupção contra seu clã familiar, mudanças ministeriais, fortes embates com o STF e a presidência da Câmara e do Senado, ampliação do número de militares em cargos de primeiro e segundo escalão em diferentes áreas do Executivo; acirramento do antagonismo e ameaças às instituições democráticas; hostilização das mídias tradicionais e mobilizações dos seus seguidores através de mídias digitais; e forte espelhamento e alinhamento externo com as estratégias de comunicação e as posições do presidente dos EUA. Nesse contexto, o país tem se polarizado cada vez mais, e seus seguidores o veem como um verdadeiro Messias, injustiçado, mas capaz de salvar a pátria brasileira dos perigos da guerra cultural comunista. Com o advento da pandemia, tem adotado um discurso negacionista, que minimiza a sua crescente gravidade no país, defendendo, ao contrário de governadores estaduais, o fim do isolamento social e a volta imediata da normalidade das atividades económicas.

Igrejas pentecostais e neopentecostais como a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus e Igreja Internacional da Graça de Deus, contam com um crescimento significativo do número de seguidores no Brasil, tradicionalmente católico. Esse crescimento veio acompanhado de uma maior presença das igrejas nos meios de comunicação – TV, rádio e mídias sociais – e nos espaços de poder governamentais, tanto no nível legislativo como no executivo, principalmente com o atual presidente do país que se declara evangélico. Lideranças dessas igrejas, como os pastores (ou bispos) Silas Malafaia, Edir Macedo, R. R. Soares e Valdemiro Santiago têm se transformado em interlocutores privilegiados e até mesmo em tutores do atual presidente. Também se alinham ao presidente nos posicionamentos em relação à pandemia da Covid-19. Essas lideranças, todas contrárias ao isolamento social horizontal e ao fechamento temporário de igrejas, defendem que o vírus é inofensivo, que é mais uma tática de Satanás e prometem curas milagrosas.  Atacam os grandes grupos de comunicação do país, principalmente a Rede Globo e a Folha de S. Paulo, os governadores, as universidades e os cientistas ou qualquer foco de oposição às medidas negacionistas do governo Bolsonaro, afirmando que induzem a população ao pânico, não protegendo o pobre, mas agradando a classe média e os ricos.

Discurso negacionista: o diagnóstico e a injustiça[5]

 

Nas práticas discursivas de porta-vozes do discurso “negacionista”, o diagnóstico do problema nega ou minimiza a importância da pandemia como um risco à sustentabilidade da vida, tratando as medidas de isolamento social horizontal como histeria e pânico criados pela mídia e por autoridades de oposição, já que as consequências do tratamento não podem ser mais danosas que a própria doença. A injustiça desse impacto é projetada sobre a população e regiões mais pobres do país, sendo justificada pelo castigo do desemprego e da fome. Práticas discursivas do presidente brasileiro são um exemplo das adaptações do discurso no caminho da negação da pandemia:  fantasia quando ainda não havia mortes no país; histeria quando apareceu a primeira morte; gripezinha quando tinha 11 mortes; medinho ao alcançar 202 mortes; está indo embora quando se chegou a 1.230 mortes; não sou coveiro com 2.588 mortes; E daí? Lamento, quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres quando questionado sobre o crescimento para 5.083 mortes; chegou no limite, não tem mais conversa com 6.759 mortes; organização de um churrasco para 3.000 pessoas no Palácio da Alvorada que foi substituído por um passeio de jet-ski no lago Paranoá quando o país atingia 10.627 mortes; o desemprego, a fome e a miséria serão o futuro daqueles que apoiam a tirania do isolamento total no dia em que o número de mortes chegava a 15.662; quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda tubaína debochando os críticos à sua campanha de flexibilizar o uso de cloroquina quando o país superou 1.100 óbitos num dia, alcançando o total de 17.971 mortes; qualquer negócio é Covid, supondo que os governadores estariam alterando dados para aumentar o número de infectados no dia em que 32.568 pessoas haviam morrido em decorrência do vírus. E no dia em que a quantidade de pessoas mortas no Brasil chegou a 34.021, superando a Itália e alcançando recordes diários nos registros, o governo apagou de sua plataforma digital todos os números consolidados sobre o avanço da Covid-19, como o número total de pessoas infectadas, o número de óbitos e a curva de evolução da doença desde que foi registrado o primeiro caso no país, em fevereiro. Sobre este fato, Bolsonaro alegou que a acumulação de dados, além de não indicar que a maior parcela já não está com a doença, não retratam o momento do país. No dia 11 de junho, quando o Brasil alcançava o registro de mais de 40 mil óbitos, durante a live realizada semanalmente via Twitter, alegou que poderia haver uso político dos dados sobre a pandemia e pediu a seus apoiadores: se tem um hospital de campanha perto de você, dá um jeito de entrar e filmar. Muita gente está fazendo isso, mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não.

 

O Tom. Em geral, o tom discursivo negacionista é emocional, apelativo, incisivo e até agressivo em muitos contextos. As práticas discursivas, incluindo as performances, procuram desqualificar as medidas de priorização da saúde. No caso de Trump e Bolsonaro, vemos o incentivo a aglomerações como manifestações pró-governo contra governadores e pela utilização da cloroquina. O presidente do Brasil não apenas incentiva essas manifestações, mas tem participado presencialmente, sem proteção de máscaras e cumprimentando apoiadores, além de circular pelo comércio da capital federal com frequência. No dia em que eclodiram as manifestações antirracistas nos EUA, Bolsonaro, durante a realização de uma live, bebeu um copo de leite, símbolo diretamente ligado aos extremistas brancos “alt-right” estadunidenses[6]. Como fez Trump em 2016, compartilhou no Facebook um vídeo contendo a frase de Benito Mussolini melhor um dia como leão do que cem anos como ovelha.

 

No caso das igrejas neopentecostais, a performance está nos próprios cultos em si, transmitidos através de plataformas online, Drive-Thru da Oração, jejuns da fé, doações para os mais necessitados e o uso das redes para propagar a palavra de Deus. No dia 5 de junho, um grupo de líderes evangélicos foi ao Palácio do Planalto orar pelo fim da baderna e do quebra-quebra provocados pelos protestos antifascistas e antirracistas iniciados no Brasil após a eclosão de manifestações nos EUA.

 

As soluções e propostas. As soluções que o discurso negacionista destaca para enfrentar e sair da pandemia passam, principalmente, pela primazia da sustentabilidade econômica, adequadas aos contextos específicos de cada país. No caso de Trump, há uma recuperação de um dos significantes vazios[7] de sua campanha eleitoral: America First (Primeiro América) e a construção de um novo Keep America Great (Mantenha América Grandiosa). Eles são acionados tanto para enfrentar a estagnação político-econômica devido ao isolamento social em um momento em que o desemprego estava em queda histórica, como para zelar pelas vidas e também os interesses econômicos, já que os Estados Unidos detém a tecnologia e o poder necessários para produzir ou se apropriar de medicamentos e vacinas. Tem que fazer o uso adequado da indústria farmacêutica e, caso contrário, comprar a patente da vacina criada no estrangeiro para primeiro aplicá-la no país. Esses significantes vazios também são acionados na prática discursiva de Trump para enfrentar o uso político da crise pelos democratas e a expansão da relevância chinesa no cenário internacional. Entre as soluções para tratar a Covid-19, se destaca a utilização da hidroxicloroquina em um primeiro momento, mas também a aplicação de injeção de desinfetante ou colocar luz solar dentro do corpo.

 

No caso do presidente do Brasil,  as soluções e propostas que suas práticas discursivas negacionistas destacam para enfrentar e sair da pandemia residem no relaxamento do isolamento social horizontal: Brasil não pode parar, preparar o Brasil para a sua retomada, reorganizar a economia e mobilizar todos os recursos e energia para tornar o Brasil ainda mais forte após a pandemia.  Assim, a medida a tomar seria o isolamento vertical feito pelas famílias: devemos sim cada família cuidar dos mais idosos, não pode deixar na conta do Estado. Botar o vovô e a vovó num canto e evitar o contato com eles, e o resto tem que trabalhar. Porque o que está havendo é uma destruição do emprego no Brasil. Em termos de sustentabilidade da vida, quem tem mais de 40 anos não tem que se preocupar. Alguns podem morrer afogados na chuva, quem está na chuva são os mais idosos e aqueles que têm doenças pré-existentes. Seguindo Trump, a utilização da hidroxicloroquina é uma das principais propostas no enfrentamento da doença.

As lideranças pentecostais locais brasileiras, por sua vez, defendem a força da fé para curar a Covid-19 e, reforçadas pelo presidente, convocaram o jejum religioso para ficar livre desse mal. Defendem a reabertura do comércio e dos templos, assim como soluções controversas, como a imunização através de óleo ungido ou pela cloroquina de Jesus. A cura da doença também é assegurada por meio de sementes que podem ser compradas por mil reais, por água consagrada ou receita de gargarejo.

O “eles”. Na disputa hegemônica, o discurso negacionista propõe uma construção de identidades políticas antagônicas a partir da articulação de demandas e atributos negativos a grupos opositores num “eles” – “os inimigos” – que, por contraste, permite articular e conformar politicamente demandas e grupos no “nós” – o “nosso povo”.   Nas práticas discursivas do presidente dos Estados Unidos, se articula uma cadeia de significados[8] e elementos negativos, como anti-Trump, democratas, Obama, entreguistas, mídia corporativa, defensores do isolamento total que fere a liberdade do povo americano, globalização, China e o vírus chinês, a OMS ineficiente que defende os interesses chineses, a imigração descontrolada, desemprego, ameaça à soberania, terrorismo e aumento do crime.

Nas práticas discursivas do presidente brasileiro, o “eles” é sintetizado no significante vazio antipatriotas e no ponto nodal fecha-tudo, que articula os defensores do isolamento social que priorizam a sustentabilidade da vida, em particular, algumas poucas autoridades estaduais e municipais que devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa. A cadeia de equivalência se expande politicamente para os componentes da nova direita gerencial reciclada conformada por ex-aliados ou traidores que se constituem numa ameaça real diante do risco de impeachment ou para a sua futura reeleição. Mas no “eles” também se incluem inimigos anteriores à pandemia: os esquerdistas e o PT – desde a campanha eleitoral até o primeiro ano e meio de governo. Em termos internacionais, o “eles” é articulado pela predominância do alinhamento incondicional com os Estados Unidos. Assim, tanto no plano nacional como internacional, o “eles” negativo articula os fecha-tudo, antipatriotas, ex-aliados traidores, como os ex-ministros Mandetta e o desarmamentista Moro e os governadores Dória e Witzel[9], os líderes do Congresso Maia e Alcolumbre, ministros do STF, assim como a China, a imprensa e a mídia tradicional e os permanentes inimigos de esquerda compostos por governadores do Nordeste e os Haddad 13 e Lula Livre que criticam o governo.

 

Quadro de Caracterização das Identidades Antagónicas
 Porta-voz “Eles” “Nós” Antagonismos
Donald Trump Anti-Trump; democratas; Obama; entreguistas; mídia corporativa; defensores do isolamento; globalização; China e o vírus chinês; OMS; anarquistas profissionais; multidões violentas; incendiários, saqueadores, criminosos, grevistas e antifascistas dos protestos antirracistas. Republicanos; conservadores; nacionalistas; fazendeiros; classe média; economia em crescimento, liberdade e trabalho; mídias sociais de diálogo direto e sem manipulação; protecionismo; manufaturas prejudicadas com acordos internacionais; valorização do indivíduo e da livre iniciativa; democracia; defesa nacional; combate ao autoritarismo e terrorismo no mundo para a proteção do povo americano; milhares e milhares de soldados fortemente armados, forças militares e policiais para resolver a turbulência dos protestos antirraciais. – America First, republicanos, nacionalistas e as mídias sociais sem manipulação vs. Anti-Trump, democratas, entreguistas e a mídia corporativa- China e o vírus chinês, a OMS ineficiente que defende os interesses chineses, a globalização que ameaça à soberania, a imigração descontrolada e o terrorismo vs. Keep America Great, protecionismo a manufaturas nacionais prejudicadas por acordos internacionais, valorização do indivíduo e da livre iniciativa, defesa nacional, e combate ao autoritarismo e ao terrorismo no mundo.- Anarquistas profissionais, multidões violentas, incendiários, saqueadores, criminosos, grevistas e antifascistas dos protestos antirracistas vs. Milhares e milhares de soldados fortemente armados, forças militares e policiais para resolver a turbulência desses protestos.
Jair Bolsonaro Antipatriotas; fecha-tudo; ex-aliados (direita gerencial reciclada); esquerdistas; PT; Ex-ministros (Mandetta e Moro), governadores (Doria e Witzel), líderes do Congresso e ministros do STF; China; imprensa e mídia tradicional; governadores do Nordeste. O Brasil não pode parar; deixe o mito governar, deixe o povo trabalhar; os patriotas que preservam a dignidade desta Nação; empresários e industriais que garantem os empregos; a economia que é vida; a mídia independente; a verdade; a boa ciência; os homens de Deus, os cidadãos do bem. – O Brasil não pode parar, deixa o mito governar, deixa o povo trabalhar vs. Fecha-tudo, antipatriotas- Mídia independente, comprometida com a verdade vs. Mídia tradicional que apoia o isolamento social horizontal e propaga o pânico e a histeria- Boa ciência comprometida com a verdade e os interesses da nação vs. o consenso científico pautado pelas orientações da OMS.
Igrejas evangélicas Pessoas sem fé; vagabundos; baderneiros; corruptos; esquerdistas e comunistas; governadores politiqueiros; imprensa parcial, mentirosa e inescrupulosa. “Eles” são a própria personificação do coronavírus. Defensores da família; os cidadãos de bem; trabalhadores fiéis e verdadeiros; empresários; a preservação de empregos; a honestidade; a esperança, a fé, a solidariedade; o fim do isolamento social para não aumentar a desigualdade social entre o pobre e o rico, abrir tudo porque causa menos danos, os jovens que têm que voltar a trabalhar e que vão a pegar a doença. O “nós” é sintetizado no coronafé. – Coronafé vs. Coronavírus- Um povo pacífico e que tem a marca do verde e amarelo vs. O povo do quebra-quebra e da baderna.

 

O “eles” das lideranças das igrejas pentecostais é análogo ao do presidente, mas também identificados como pessoas sem fé, convertidas numa personificação do mal e equiparados ao coronavírus. Assim, nessa cadeia de equivalências, se articulam desde os já tradicionais inimigos, como os vagabundos, baderneiros, corruptos, esquerdistas e comunistas até os novos traidores como governadores politiqueiros – principalmente Dória e Witzel e o ex-ministro Moro e a imprensa parcial, mentirosa e inescrupulosa. Assim, o “eles” são a própria personificação do coronavírus.

O “nós”. Tendo como referência o “eles”, o discurso de Trump procura construir a cadeia de equivalência do “nós” a partir de uma readequação dos significantes vazios de sua campanha eleitoral American First e Keep America Great, que destacam que os Estados Unidos devem assegurar sua soberania enquanto a grande potência econômica mundial, com menor taxa de desemprego da história, buscando priorizar interesses e segurança do povo americano forte e resiliente, que conta com o auxílio dos maiores especialistas do mundo. A cadeia do “nós” articula, dessa forma, republicanos, conservadores, nacionalistas, fazendeiros, classe média, economia em crescimento, liberdade e trabalho, mídias sociais de diálogo direto e sem manipulação, protecionismo, manufaturas prejudicadas com acordos internacionais, valorização do indivíduo e da livre iniciativa, democracia, defesa nacional, combate ao autoritarismo e terrorismo no mundo para a proteção do povo americano.

As práticas discursivas do presidente brasileiro articulam um “nós” que aglutina o Brasil não pode parar; deixa o mito governar, deixa o povo trabalhar; os patriotas que preservam a dignidade da nação; empresários e industriais que garantem os empregos; a economia que é vida; a mídia independente; a verdade; a boa ciência; os homens de Deus e os cidadãos de bem e armamentistas.

As práticas discursivas de lideranças de igrejas pentecostais brasileiras seguem acompanhando as do presidente, incluindo nessa cadeia o próprio presidente, que é o Messias, os defensores da família, os cidadãos de bem, trabalhadores fiéis e verdadeiros, a preservação de empregos, a honestidade, a esperança, a solidariedade, o fim do isolamento social para não aumentar a desigualdade social entre pobres e ricos, abrir tudo porque causa menos danos, os jovens que têm que voltar a trabalhar. O “nós” é então sintetizado no coronafé.

 

 

A reprodução e criação de antagonismos

A partir da identificação do “eles” e do “nós” na disputa entre os discursos negacionista e científico, são produzidos e ressignificados antagonismos que expressam projetos políticos e visões de sociedade em luta pela hegemonia.

Na prática discursiva de Trump, os antagonismos nacionais e internacionais se intensificam. Na dimensão nacional, é marcado pela disputa eleitoral e radicaliza a oposição entre America First, republicanos, nacionalistas e as mídias sociais sem manipulação vs. anti-Trump, democratas, entreguistas e a mídia corporativa. Na dimensão internacional, o antagonismo é reforçado ao colocar a China e o vírus chinês, a OMS ineficiente que defende os interesses chineses, a globalização que ameaça à soberania, a imigração descontrolada e o terrorismo, em oposição ao Keep America Great, protecionismo a manufaturas nacionais prejudicadas por acordos internacionais, valorização do indivíduo e da livre iniciativa, defesa nacional, e combate ao autoritarismo e ao terrorismo no mundo. Com os protestos antirracistas em diversas cidades estadunidenses desencadeados a partir da morte de George Floyd – um homem negro que morreu sufocado pelos joelhos de um policial branco em Atlanta no final de maio – Trump vem recriando novos antagonismos. Segundo ele, os protestos antirracistas teriam sido tomados por anarquistas profissionais, multidões violentas, incendiários, saqueadores, criminosos, grevistas e antifascistas. Na sua prática discursiva, articula esses grupos no antagonismo com os governadores, quando ameaçou usar milhares e milhares de soldados fortemente armados, forças militares e policiais para resolver rapidamente a turbulência se os governadores do Estados falhassem em agir.

Na prática discursiva negacionista do presidente brasileiro, o antagonismo principal se situa entre o Brasil não pode parar, deixa o mito governar, deixa o povo trabalhar e os patriotas em oposição aos que apoiam a tirania do fecha tudo, os antipatriotas. Esse antagonismo se reproduz no povo que quer trabalhar, os empresários que mantêm os empregos vs os que fecham tudo – governadores, prefeitos, políticos e ex-ministros traidores que promovem medidas de isolamento social e que fazem uso político da pandemia para se auto promoverem e ajudam a quebrar a economia. Também se recria o antagonismo entre a mídia independente, comprometida com a verdade vs. a mídia tradicional que apoia o isolamento social horizontal e propaga o pânico e a histeria. Ou entre a boa ciência e os interesses da nação vs. o consenso científico pautado pelas orientações da OMS, e do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus junto ao Consórcio do Nordeste.

As lideranças de igrejas pentecostais ressignificam esse antagonismo como coronafé vs. coronavírus, em que no coronafé se articulam os cidadãos de bem, a esperança, e a crença na força da fé para curar a doença. De outro lado, o coronavírus articula vagabundos, baderneiros, corruptos, comunistas, petistas[10], mídia alarmista e governadores que promovem medidas drásticas de isolamento social. O presidente aparece como o messias e as suas práticas discursivas das igrejas pentecostais se reproduzem conforme àquelas articuladas por Bolsonaro. Com os protestos antirracistas iniciados nos EUA e que chegaram às ruas também no Brasil, somados à pauta da defesa da democracia e contra o governo Bolsonaro nas primeiras semanas de junho, o pastor Silas Malafaia, em visita ao presidente juntamente com outras lideranças das igrejas evangélicas[11], acrescentou um novo antagonismo à prática discursiva das igrejas pentecostais: o povo brasileiro, que é um povo pacífico e que tem a marca do verde e amarelo vs o povo de quebra-quebra e de baderna.

Recapitulando a caracterização do discurso “negacionista”

Como mencionávamos no início deste trabalho, olhar para a pandemia da Covid-19 como acontecimento permite destacar a oportunidade que se abre com a suspensão da hegemonia através da disputa entre discursos políticos sobre a própria pandemia: o discurso “negacionista” e o discurso “científico”. Com o auxílio metodológico da análise política do discurso e da abordagem de marcos interpretativos, procuramos reconstruir o discurso “negacionista”. Esse discurso é defendido por um número relativamente pequeno de autoridades e lideranças econômicas e religiosas, mídias tradicionais e sociais a nível nacional e internacional. Desse conjunto, selecionamos para nossa análise o presidente dos Estados Unidos a nível internacional, e a nível nacional o presidente do Brasil, assim como lideranças de igrejas pentecostais e neopentecostais.

O alinhamento político e discursivo desses porta-vozes é anterior à sua confluência na defesa e na difusão de um discurso “negacionista” sobre a pandemia. De formas diferentes, com suas práticas discursivas que, lembrando Laclau, compreendem não só falas ou textos escritos, mas também performance e ações públicas que criam significado[12], todos esses porta-vozes contribuem para uma articulação de forças e propostas fundamentalistas – e, também, populistas – de direita, a nível nacional e internacional. Essa articulação tem com um dos seus artífices mais dinâmicos o grupo The Movement formado por Steve Bannon, ex-estrategista chefe da campanha eleitoral de Trump em 2016 e assessor “informal” de Bolsonaro[13].  A influência da extrema direita populista vem crescendo e paulatinamente ocupa espaços e conta com apoio nos setores empobrecidos e nas classes médias afetados pela globalização. E se mostra posicionada para aproveitar o descontentamento do povo com o acontecimento da Covid-19[14].

Após a breve caracterização dos principais porta-vozes selecionados e seguindo a orientação metodológica dos marcos interpretativos, recuperamos o diagnóstico que este discurso faz do problema da pandemia da Covid-19. Nesse diagnóstico, prevalece a questão da sustentabilidade econômica sobre a sustentabilidade da vida. Assim, o prognóstico deste discurso reside na necessidade urgente de voltar a ativar a economia. Para isso, se minimiza ou até se negam os efeitos da pandemia sobre a vida da população e, em alguns momentos das práticas discursivas, até o próprio caráter de pandemia. Dessa forma, o discurso concentra seus ataques contra a defesa do isolamento social horizontal e do lockdown que está presente no discurso “científico” antagônico, incentivando a volta imediata ao trabalho e a abertura das atividades comerciais e industriais. Com um tom emocional, apelativo, incisivo e até agressivo em muitos contextos, o discurso “negacionista” – incluindo suas performances – procura desqualificar as medidas de priorização da sustentabilidade da saúde e da vida.

As soluções e proposta passam por priorizar a sustentabilidade da economia, adequadas aos contextos específicos de cada país. No caso das práticas discursivas do presidente dos Estados Unidos, há uma recuperação de um dos significantes vazios de sua campanha eleitoral: American First, e  a construção de um novo Keep America Great, visando enfrentar o risco de estagnação político-econômica devido ao isolamento social. No caso Brasil, tanto as práticas discursivas do presidente como de lideranças de igrejas pentecostais e neopentecostais encampam o significante vazio Brasil não pode parar, ao que se soma a força de fé para enfrentar a Covid-19, propiciando a volta ao trabalho, a reabertura do comércio e dos templos religiosos.

Essa defesa da sustentabilidade da economia é um divisor de águas, uma fronteira traçada a partir do “eles” (os que estão boicotando a recuperação econômica, os anti-Trump e anti-Bolsonaro, no caso brasileiro, os que apoiam esse fecha tudo e semelhante aos entreguistas no caso estadunidense ) conformando os pontos nodais que articulam em cadeias de equivalências toda uma série de atores e demandas nacionais e internacionais remarcadas como negativas para o povo, para o “nós”.

Por sua vez, o “nós” é o poço de virtudes e de demandas positivas que congrega também as identidades dos seus diversos apoiadores e seguidores, articulados em cadeias de equivalência moralmente positivas e historicamente naturalizadas e legitimadas, em torno do significante vazio do povo.

Estas identidades do “eles” e do “nós”, explicitadas nas práticas discursivas negacionistas, apontam para antagonismos em nível nacional ou internacional que se reproduzem ou se criam na disputa. Antagonismos anteriores provenientes das disputas eleitorais ou do cenário geopolítico preexistente, e agora exacerbados com o vírus chinês. Ou antagonismos novos, com as fissuras nos blocos históricos que tinham levado à vitória eleitoral em ambos países dos atuais presidentes. Esses novos antagonismos se expressam a partir da assunção diferencial de discursos (com suas práticas) “negacionista” ou “científico” de atores que faziam parte do mesmo bloco, como é o caso de diversos governadores em ambos países. Cabe destacar também que tanto no caso do presidente dos Estados Unidos como no do presidente do Brasil, o antagonismo com as mídias tradicionais parece fazer parte de um modo de fazer política em que desqualificar as mídias tradicionais e fortalecer mídias digitais parece jogar um papel estrutural. Cabe destacar que as mídias digitais permitem a construção de fluxos informacionais customizados, proprietários e diretos, articulando uma liderança pessoal com seus diferentes públicos e onde figura do líder se torna um novo significante vazio de cadeias de equivalência produzidas de forma privada por esses fluxos opacos entre múltiplos grupos isolados e desarticulados. Essa estratégia de desmonte das mídias tradicionais se relaciona com outros desmontes das instituições da democracia liberal.

Chegando até este ponto, após realizarmos um panorama geral da caracterização do discurso “negacionista” reconstruído a partir da análise das práticas discursivas de seus principais porta-vozes a nível nacional e internacional, podemos passar agora para a análise política do seu discurso antagônico, o discurso “científico”.  A caracterização desse discurso será o tema central do próximo artigo desta série a ser publicado neste mesmo espaço do Le Monde Diplomatique online.

Jorge Osvaldo Romano, Liza Uema, Myriam Martinez dos Santos, Larissa Rodrigues Ferreira, Vanessa Barroso Barreto, Thais Ponciano Bittencourt, Paulo Petersen, Paulo Augusto André Balthazar, Eduardo Britto Santos, Renan Alfenas de Mattos, Annagesse de Carvalho Feitosa, Juanita Cuellar Benavídez, Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Érika Toth Souza são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil.

[1] Han, Byung-Chul. La Emergência viral y el mundo de mañana, in: https://dialektika.org/wp-content/plugins/algori-pdf-viewer/dist/web/viewer.html?file=https%3A%2F%2Fdialektika.org%2Fwp-content%2Fuploads%2F2020%2F04%2FSopa-de-Wuhan-ASPO.pdf

[2] Metodologicamente, ao longo do texto, pusemos em itálico palavras ou significados tanto expressos nas práticas discursivas dos porta-vozes como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

[3] A análise política do discurso se fundamenta no olhar de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe para os quais as disputas de narrativas presentes no contexto democrático remetem a uma confrontação entre diferentes práticas e projetos antagônicos. O discurso político que conforma as narrativas em disputa tem a virtude e o poder de articular as identidades múltiplas e contingentes dos sujeitos (Laclau, E. Los fundamentos retóricos de la sociedad. Buenos Aires: FCE, 2014). A análise dos marcos interpretativos (frame analysis) desenvolvida por autores como Snow, Benford e Galván considera o discurso político um conjunto articulado de marcos de interpretação da realidade que estrutura o pensamento, fala e ações individuais e coletivas (Snow, D. e Benford, R. “Ideology, Frame Resonance and Participant Mobilization” in B. Klandermans, H. Kriesi y S. Tarrow (eds.) From Structure to Action: Comparing Social Movement Research across Cultures. Greenwich: JAI Press, 1988).

[4] Romano, Jorge et al. A disputa de discursos sobre a pandemia da Covid-19. Le Monde Diplomatique Brasil Online, Junho 2020.

[5] A análise, acompanha a proposta de marcos interpretativos (frame analysis), particularmente a implementada por Errejón Galván (2012), que sugere a reconstrução de três marcos específicos: o marco do diagnóstico, onde se identifica o problema principal que aflige o país; o marco do prognóstico que apresenta e nomina a proposta geral de solução do problema, traça a fronteira que delimita o “eles” – os outros e articula a identidade do “nós”- do povo; e o marco de motivação, no qual se pretende incentivar a adesão à sua narrativa e a mobilização de seus adeptos e seguidores através da moralização dessa fronteira, a naturalização de um passado histórico e um programa ou lista de ações para solucionar o problema. Errejón Galván: La lucha por la hegemonía durante el primer gobierno del MAS en Bolivia (2006-2009): un análisis discursivo. Madrid: Universidad Complutense, tesis de doctorado, 2012.

[6] Apesar do presidente dizer que estaria cumprindo um desafio de ruralistas, pesquisadores enxergam uma correlação do gesto com movimentos neonazistas – que adotam o copo de leite como símbolo.

Para Adriana Dias, que é doutora em antropologia social pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e que há anos pesquisa o fenômeno do nazismo, há uma referência clara entre o episódio e o neonazismo. “O leite é o tempo todo referência neonazi. Tomar branco, se tornar branco. Ele vai dizer que não é, que é pelo desafio, mas é um jogo de cena, como eles sempre fazem”, declarou à Fórum.

[7] Na análise política do discurso, a noção de significante vazio refere-se a palavras ou elementos de um discurso político que perdem sua singularidade originária para significar todo o conjunto de demandas e propostas que conformam esse discurso. É uma prática muito recorrente do componente populista dos discursos políticos.

[8] Ou “cadeia de equivalências” na análise de Laclau e Mouffe (op.cit.). Na cadeia de equivalências podem se identificar “pontos nodais” que numa prática discursiva assumem a função de fixar parcialmente os sentidos do social, que é aberto, contingente e polissêmico, e se caracterizam como elementos articuladores das diferenças entre o “eles” e o “nós”.

[9] Após a instauração de investigações da polícia federal sobre possível corrupção no entorno do governador Witzel e a abertura de processo de impeachment pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o governador tem dado sinais de amenizar o enfrentamento com o presidente do país, seu antigo aliado.

[10] Vale relembrar que algumas lideranças de várias igrejas pentecostais participaram da aliança pragmática com o PT até a conversão a Bolsonaro nas Eleições 2018.

[11] Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,com-bolsonaro-lideres-evangelicos-oram-no-planalto-contra-baderna,70003326307O

[12] Laclau, E. Los fundamentos retóricos de la sociedad. Buenos Aires: FCE, 2014

[13] Como já apontamos em outro artigo, o grupo, com sede em Bruxelas, procura formar lideranças, promover e articular campanhas de extrema direita na Europa e no mundo, visando conformar uma verdadeira internacional conservadora que promove nacionalismos xenófobos, anti-imigrantes e fundamentalistas. Romano, Jorge et. al. “A disputa de discursos sobre a pandemia”, Le Monde Diplomatique Brasil, edição 155, junho 2020, pag. 11-13.

[14] Ibid, nota 12.



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