Uma questão de “equilíbrio” - Le Monde Diplomatique

PALESTINA

Uma questão de “equilíbrio”

por Serge Halimi
4 de agosto de 2014
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A expedição punitiva do Exército israelense em Gaza reativou uma das aspirações mais espontâneas do jornalismo moderno: o direito à preguiça. Em termos mais profissionais, chamamos isso de “equilíbrio”. A rede de televisão norte-americana de extrema-direita Fox News qualifica-se, não sem humor, como justa e equilibradSerge Halimi

 

A expedição punitiva do Exército israelense em Gaza reativou uma das aspirações mais espontâneas do jornalismo moderno: o direito à preguiça. Em termos mais profissionais, chamamos isso de “equilíbrio”. A rede de televisão norte-americana de extrema-direita Fox News qualifica-se, não sem humor, como “justa e equilibrada” (fair and balanced).

No caso do conflito do Oriente Médio, onde os erros não são partilhados igualmente, o “equilíbrio” significa dar vantagem à potência ocupante. Para a maioria dos jornalistas ocidentais, é também um meio de se proteger do fanatismo dos destinatários de uma informação que poderia desagradar-lhes dando rapidamente palavra àqueles que irão tranquilizá-los. Além de não observarmos esse mesmo tipo de preocupação em outras crises internacionais, como a da Ucrânia, por exemplo (ler o artigo da pág. 16), o verdadeiro equilíbrio sofre por ao menos duas razões. Primeiro porque, entre as imagens de uma carnificina prolongada em Gaza e as de um alerta aos tiros de mísseis numa praia de Tel-Aviv, uma boa balança deveria se inclinar um pouco… Depois, porque alguns protagonistas, israelenses no caso em questão, dispõem de comunicadores profissionais – entre os quais seu primeiro-ministro, que poderíamos acreditar que foi formatado para a televisão norte-americana –, enquanto os outros só têm a oferecer para as mídias ocidentais o calvário de seus civis.

No entanto, inspirar piedade não constitui uma arma política muito eficiente; mais vale controlar a narrativa dos acontecimentos. Assim, há décadas explicam-nos que Israel “responde” ou “devolve”. Esse pequeno Estado pacífico, mal protegido, sem nenhum aliado poderoso, consegue, no entanto, ganhar sempre, às vezes sem nem sequer sofrer um arranhão… Para que tal milagre ocorra, é necessário que cada enfrentamento comece no momento preciso em que Israel se mostre como uma vítima estupefata da maldade que o atinge (um sequestro, um atentado, uma agressão, um assassinato). É nesse terreno bem demarcado que se desenvolve em seguida a doutrina do “equilíbrio”. Um vai se indignar do envio de mísseis contra populações civis; o outro objetará que a “resposta” israelense foi bem mais assassina. Um crime de guerra por todos os lados, com a bala no centro, em suma.

E assim nos esquecemos do resto, quer dizer, do essencial: a ocupação militar da Cisjordânia, o bloqueio econômico de Gaza, a colonização crescente das terras. Desse modo, a informação contínua parece nunca ter tempo de ir fundo nesse tipo de detalhe. Quantos de seus maiores consumidores sabem, por exemplo, que entre a Guerra dos Seis Dias e a do Iraque, ou seja, entre 1967 e 2003, mais de um terço das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas foram transgredidas por um único Estado, Israel, e que frequentemente essas resoluções diziam respeito à colonização de territórios palestinos?1 Mais vale dizer que um simples cessar-fogo em Gaza seria o mesmo que perpetuar uma violação reconhecida do direito internacional.
Não podemos mais contar com Paris para lembrá-lo. Ao declarar, em 9 de julho, sem uma palavra para as dezenas de vítimas civis palestinas, que cabia ao governo israelense “tomar todas as medidas para proteger sua população diante das ameaças”, François Hollande abandonou qualquer aparência de equilíbrio, tornando-se o pequeno telegrafista da direita israelense.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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