Violência de Estado: do meu lugar de escuta e de fala

DEPOIMENTO

Violência de Estado: do meu lugar de escuta e de fala

Acari | Rio de janeiro
por Deley de Acari
28 de julho de 2022
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Leia o depoimento do ativista  Deley de Acari sobre episódios de violência de Estado que ele sofreu na pele, seja na ditadura militar, seja na democracia.

Em novembro de 1970, pouco mais de um mês após eu ter completado dezesseis anos, lá por volta de duas, três da tarde, eu jogava bola com um grupo de rapazes, mais ou menos da minha idade, alguns mais velhos, no campo do tricolor, no bairro Centenário, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, quando apareceu um ônibus e duas viaturas de polícia. O campo foi cercado, todos nós fomos enquadrados, presos e colocados dentro do ônibus. Éramos cerca de 30 rapazes.

política de drogas
Operação policial na favela da Rocinha (RJ) (Foto: Fernando Frazão/EBC)

No meio do caminho, um dos policiais me reconheceu como o Bidu, neto da dona Guimar, do Esporte Clube Expressinho e perguntou com quem eu estava. Eu apontei um rapaz, que estudava comigo no colégio Aquino e fomos liberados. Três dias depois, oito ou dez corpos dos rapazes que foram presos com a gente foram encontrados boiando no rio Sarapuí, outros permaneceram presos e mais uns cinco ou seis, apareceram com os corpos crivados de balas, no Jardim Metrópole, numa área deserta. Eu quase fui desaparecido, com dezesseis anos. Eu fui liberado, não fui assassinado, graças a ser neto da dona Guiomar.

Vinte anos depois, já com atividade política, não morando em Acari, mas morando na zona oeste da cidade, depois de ter ficado em Acari de 1974 a 1986, eu recebo a notícia do desaparecimento dos onze filhos das mães de Acari. Isso me relembrou do acontecido 20 anos antes. Em outubro de 1976,  eu fui preso na praça do coreto de Marechal Hermes, por agentes secretos do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e fui levado para a Barão de Mesquita, por causa de uma peça de teatro que foi proibida porque ofendia as forças armadas. Eu fiquei dois dias lá, de 6 a 8 de outubro de 1976, passei meu aniversário lá dentro, fui torturado algumas vezes. Como minha mãe trabalhava como cozinheira de um dos generais do Comando Militar Sul-Sudeste, ela conseguiu que eu fosse liberado. Todos sabem que tanto no DOI-CODI, quanto em outros órgãos da repressão da ditadura, quem entrava lá raramente conseguia sair vivo. E se morto, jamais teria o corpo achado.

Por isso, para mim é importante estar na luta, convivendo com as Mães de Acari e com familiares de outros desaparecimentos forçados, tanto das ditaduras militares da América Latina e Caribe, como os desaparecimentos que hoje chamamos de desaparecidos da democracia. Essa é a importância para mim do legado das Mães de Acari, porque tem muito a ver comigo. Esse é o meu lugar de escuta e de fala.

 

Deley de Acari, poeta, animador cultural, defensor de direitos humanos e ativista afrocomunista.

 

Leia os outros artigos do especial 32 anos da chacina de Acari

 


Este especial é uma parceria Le Monde Diplomatique Brasil e Radar Covid-19 Favela – Fiocruz, cuja equipe é composta por  Fábio Araújo, Marina Ribeiro, Fábio Mallart, Larissa França, Raimundo Carrapa, Emerson Baré, Mariane Martins, Luciene Silva e Paulo Roberto Ribeiro.



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