Washington contra Pequim - Le Monde Diplomatique Brasil

IMPEDIR O SURGIMENTO DE UM EQUIVALENTE ESTRATÉGICO

Washington contra Pequim

por Serge Halimi
1 de outubro de 2019
compartilhar
visualização

A China sucede assim o “Império do Mal” soviético e o “terrorismo islâmico” como adversário prioritário de Washington. Mas, diferentemente da União Soviética, ela dispõe de uma economia dinâmica, com a qual os Estados Unidos registram um déficit comercial abissal.

Os Estados Unidos parecem agora estimar que não podem enfrentar a China e a Rússia ao mesmo tempo. Nas próximas décadas, seu principal rival geopolítico será Pequim. Sobre esse assunto, existe um consenso até mesmo entre a administração republicana de Donald Trump e os democratas, que a eleição presidencial do ano que vem opõe, no entanto, com tanto vigor. A China sucede assim o “Império do Mal” soviético e o “terrorismo islâmico” como adversário prioritário de Washington. Mas, diferentemente da União Soviética, ela dispõe de uma economia dinâmica, com a qual os Estados Unidos registram um déficit comercial abissal. E sua potência é singularmente mais impressionante do que aquela de algumas dezenas de milhares de combatentes fundamentalistas errando entre os desertos da antiga Mesopotâmia e as montanhas do Afeganistão.

Barack Obama já tinha empreendido uma “guinada rumo à Ásia” e ao Pacífico da diplomacia norte-americana. Como de costume, seu sucessor formula sua nova estratégia com menos elegância e sutileza (ler o artigo da pág. 23). Já que, em seu espírito, a cooperação é sempre uma armadilha, um jogo nulo, o crescimento econômico do rival asiático ameaça automaticamente o desenvolvimento dos Estados Unidos. E reciprocamente: “Estamos ganhando da China”, cantou de galo Trump em agosto passado. “Eles tiveram seu pior ano em meio século, e foi por minha causa. Não tenho orgulho disso.”

(Ilustração: Vitor Flynn)

“Não ter orgulho” não parece seu estilo… Há pouco mais de um ano, ele autorizou as câmeras a difundir ao vivo uma reunião de seu gabinete. E tudo aconteceu ali: um de seus ministros foi felicitado pela desaceleração do crescimento da China; outro imputou às exportações chinesas de fentanil a epidemia de opioides nos Estados Unidos; um terceiro atribuiu as dificuldades dos agricultores norte-americanos às medidas de retaliação comercial da China. Restou a Trump explicar a obstinação nuclear norte-coreana como resultado da suavidade de Pequim em relação ao seu aliado.

Para Washington, vender um pouco mais de milho ou de produtos eletrônicos para a China já não basta. É preciso isolar o rival cujo PIB foi multiplicado por nove em dezessete anos, enfraquecê-lo, impedi-lo de estender sua influência e, principalmente, de se tornar um equivalente estratégico dos Estados Unidos. Como sua prosperidade fulgurante não o levou a se americanizar, a se mostrar dócil, os golpes não serão poupados.

Em 4 de outubro de 2018, o vice-presidente Mike Pence já massacrava em um discurso de uma violência extrema um “sistema orwelliano” das “autoridades que destroem cruzes, queimam bíblias e aprisionam crentes”, a “coerção das empresas, estúdios de cinema, universidades, think tanks, pesquisadores, jornalistas norte-americanos”. Ele detectava inclusive “tentativas de influenciar a eleição presidencial de 2020”. Depois do “Russiagate”, um “Chinagate” que, desta vez, teria por objetivo a derrota de Trump? Os Estados Unidos são definitivamente um país bem frágil…

 

Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.



Artigos Relacionados

Economia

Trajetória da austeridade fiscal no Brasil: a institucionalização do neoliberalismo

Online | Brasil
por Alessandra Soares Freixo e Rafael Costa

Pandemics, housing crisis and the value of community-led housing initiatives in the global south

por Thaisa Comelli, Tucker Landesman and Alexandre Apsan Frediani
Pandemia e crise habitacional no sul global

A importância das experiências de moradias de iniciativa comunitária

por Thaisa Comelli, Tucker Landesman e Alexandre Apsan Frediani
UM FRACASSO EXITOSO

Massacre no Jacarezinho: necropolítica aplicada

Online | Brasil
por Thiago Rodrigues
CHACINA DE JACAREZINHO

Luto seletivo, estratégia de invisibilização

Online | Brasil
por Bruna Martins Costa e William Zeytounlian
CHACINA NO JACAREZINHO

Para o Estado, as vidas de negros, pobres e favelados não importam?

Online | Brasil
por Wallace de Moraes
SETOR ELÉTRICO

Cemig: a irracionalidade da proposta de privatização

Online | Brasil
por Diogo Santos
Editorial

Por que defendemos o impeachment de Bolsonaro

Online | Brasil
por Redação