LITERATURA

Do humor ao existencialismo: os 30 anos de carreira de Orlandeli

Considerado um dos principais nomes do quadrinho nacional, artista faz balanço das três décadas de trabalho e fala sobre novos projetos

Chego à cafeteria às 14h56. Orlandeli me espera logo na entrada. Está sentado à mesa, atento ao cardápio. Após um aperto de mão, sugiro nos sentarmos no canto mais afastado. Temo que as conversas das mesas ao redor atrapalhem o bate-papo ou causem problemas no momento de ouvir e transcrever a entrevista.  

Jéssyca, a proprietária, é quem chega para nos atender. Vem acompanhada de possibilidades de cafés quentes e frios que, aos nossos olhos, parecem infinitas. Pergunta sobre o método preferido de extração. Orlandeli me olha confuso e devolvo a interrogação com um sorriso amarelo. Em meio a frases que se situam entre a pressa e a insegurança, descrevemos o tipo de café que queremos. Recorremos a vários eufemismos que resumem duas características básicas: forte e sem açúcar.

O quadrinista Orlandeli, completando 30 anos de carreira em 2024 (Lucas Orsini)
O quadrinista Orlandeli, completando 30 anos de carreira em 2024 (Lucas Orsini)

Em 2024, Orlandeli completa 30 anos de carreira. Das tirinhas publicadas no Diário da Região até se tornar um dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros, seu trabalho tem sido marcado por obras que vão do humor ao existencialismo, do nonsense à crítica social.  

Não por acaso, venceu duas vezes o Prêmio HQMix – em 2002, com Grump (na categoria “Melhor revista de humor”), e em 2018, com Chico Bento – Arvorada (“Melhor publicação juvenil”) – e foi premiado em salões de humor no Brasil e no exterior. No ano passado, esteve entre os finalistas do Prêmio Jabuti, com A Coisa. Seu currículo ainda contempla trabalhos como Eu matei o Libório, O mundo de Yang, Os olhos de Barthô e Chico Bento – Verdade 

Agora, enquanto saboreia um café avermelhado preparado a partir de um método de extração chamado aeropress, Orlandeli faz um balanço das três décadas de trabalho. “Essas datas são importantes para relembrar os motivos que me fizeram começar e continuar nesse caminho.”  

Dentre as razões que guiaram Orlandeli estão três nomes bem conhecidos: Laerte, Angeli e Glauco, trio que ganhou notoriedade nos anos 80, sobretudo por conta do comportamento irreverente e das tirinhas de humor ácido. “Eu admirava tanto os três que queria fazer parte dessa roda. Queria estar nos mesmos lugares, participar das mesmas conversas. Tanto que, em 1995, alguns amigos e eu tínhamos em São José do Rio Preto um jornal chamado Galeria. Era o nosso Chiclete com Banana [risos]. E a gente se sentia o máximo.”

O início 

Os primeiros passos dessa trajetória, no entanto, foram dados em outra cidade do interior de São Paulo: Bebedouro, local em que Orlandeli nasceu e viveu até os 6 anos. Foi ali que teve contato com os gibis pela primeira vez.  

Desde criança, já se sentia atraído por bancas de jornal. Entrava e, como que se estivesse em transe, percorria os olhos por cada canto daqueles lugares tão intimistas e, ao mesmo tempo, tão cheios de informação. Foi numa dessas bancas que ganhou do pai o primeiro gibi. “A partir daí, acho que eu nunca mais larguei essa coisa de estar envolvido com histórias.”  

Diferente dos irmãos, Orlandeli não enxergava muita graça no futebol e nas outras brincadeiras de rua. Preferia o seu mundo particular, construído com desenhos, histórias curtas e gibis da Turma da Mônica.  

Quando se mudou com a família para São José do Rio Preto, a imersão se intensificou. Agora, com novas bancas de jornal à disposição, conheceu outros gêneros, nomes, formas e personagens. Cresceu com uma pilha cada vez maior de gibis e uma vontade pulsante de criar suas próprias narrativas. A oportunidade veio em 1994, quando começou a publicar suas tirinhas no Diário da Região, pouco antes de concluir a faculdade de publicidade e propaganda.  

Ter um veículo para publicar seu trabalho foi determinante para que deixasse de lado o plano de se mudar para São Paulo, algo comum entre os artistas que estavam no início da carreira. Hoje, ele vive entre São José do Rio Preto e Uberlândia (MG), município em que nossa conversa acontece e onde Cláudia, sua esposa, trabalha. “Talvez se eu não tivesse publicado nada, teria me mudado para São Paulo. Mas não sei. Logo em seguida, surgiu a internet, o que facilitou muito.” 

Com as tirinhas Violência gratuita, protagonizadas pelo personagem Grump, Orlandeli teve seu sucesso inicial ainda na década de 90. Na época, a pressão para criar novas histórias todos os dias deu ao artista uma visão mais prática sobre a inspiração. “No começo, eu tinha medo de o estoque de ideias chegar ao fim. Mas quando você se propõe a fazer, percebe que não é assim. Esse papo de inspiração surge quando você está com preguiça de fazer e quer uma desculpa.” 

Também foi nessa época que Orlandeli aprendeu a lidar com os bloqueios criativos. “Às vezes realmente não sai nada, mas me levanto, tomo um café, volto, começo a rabiscar e, então, tenho uma ideia muito melhor que a original. É importante deixar fluir. Talvez esse negócio de bloqueio venha de uma tentativa de querer controlar tudo, com começo, meio e fim já prontos.”

Tecnologia 

O artista aprendeu tão bem a lição, que ainda hoje não sabe qual será o desfecho de suas histórias quando começa a escrevê-las. Tem uma relação tão amistosa com o processo criativo quanto com o uso da tecnologia para o desenvolvimento de seu trabalho. Não é dos saudosistas que repudiam as novas ferramentas ou que desmerecem a trajetória daqueles que nunca tiveram que lidar com as limitações do tempo pré-internet.  

“Eu me aproximei muito da tecnologia porque trabalhei com agências de propaganda, então esse ambiente virtual de Photoshop, de diagramação, sempre foi algo muito próximo. Depois veio a experiência do jornal, em que eu tinha um prazo para cumprir. Às quatro da tarde, fizesse chuva ou sol, as tirinhas e ilustrações tinham que ser entregues. E nesse contexto, acabei desenvolvendo um estilo de desenho muito próximo do digital, algo que aprimorei mais tarde, com o surgimento do tablet.” 

Para além dessas ferramentas, Orlandeli tem na tecnologia outro importante aliado: o financiamento coletivo. No fim de 2023, seu projeto mais recente – os dois volumes de Lusco-Fusco – rapidamente bateu as metas (inclusive as estendidas) no Catarse. “O financiamento coletivo mudou a história do HQ independente. Antes disso, publicar um livro era uma grande pedra no sapato para quem faz quadrinhos, especialmente por conta da distribuição. Agora, temos essa possibilidade de aproximação do leitor com a obra, que para mim é o principal ponto positivo do financiamento coletivo.”  

Do underground ao mainstream 

Nos últimos anos, no entanto, Orlandeli deixou de ser conhecido apenas no universo independente. A mudança foi impulsionada, sobretudo, pelo convite da Mauricio de Sousa Produções (MSP) para que o artista criasse duas histórias do personagem Chico Bento, o que deu origem às graphic novels Chico Bento – Verdade e Chico Bento – Arvorada. Agora, Orlandeli trabalha na terceira publicação, anunciada pela MSP durante a CCXP, em dezembro. 

“Eu me sinto bem à vontade no universo do Chico Bento e, sem dúvidas, esses projetos jogaram uma luz forte no meu trabalho. Muita gente passou a me conhecer por conta do Verdade e, principalmente, do Arvorada. A partir daí, as pessoas foram atrás de outras obras  de outros personagens. Conquistei um público enorme graças ao Chico Bento. E não foi só comigo que aconteceu isso. Essa coleção de graphic novel da MSP colocou muito artista independente em evidência, o que é ótimo.”  

Os prêmios e indicações também contribuíram para alcançar novos públicos. “Eles são importantes justamente por darem mais destaque ao trabalho e, assim, contribuir para que essas histórias cheguem a mais pessoas. Mas tem muita gente que já cria uma narrativa pensando em ganhar um prêmio. Não acho que seja por aí o caminho. Não vale a pena.”  

Luto 

Chico Bento – Arvorada é, provavelmente, o trabalho mais conhecido de Orlandeli. Publicada em 2017, a graphic novel rapidamente se tornou um sucesso e está esgotada em diversos sites e livrarias. A história tem um tom bastante poético e aborda o adoecimento da personagem Vó Dita, inclusive por meio de uma delicada metáfora a respeito de um ipê que floresce e, subitamente, perde suas flores.  

O enredo lida com uma ausência que se anuncia, algo vivenciado por Orlandeli com o adoecimento do filho Ian, que faleceu em 2019. “O Arvorada nada mais é que aquilo que estávamos passando. Meu filho adoeceu, fez tratamento de câncer e faleceu. Tocar nesse assunto era uma necessidade, porque precisava elaborar isso de alguma forma. E considero um privilégio mergulhar nesses sentimentos e tirar alguma coisa”.  

“Quando surgiu o convite para fazer a história do Chico Bento, meu filho estava em tratamento ainda. Por isso digo que o Arvorada não fala exatamente sobre o luto, mas sim sobre a possibilidade real de perda. O medo de perder é muito presente no livro, porque também era para mim e para minha esposa. Mas também existe ali uma declaração de amor pela presença, pela vivência, pelos momentos. De certa forma, Arvorada também fala de tudo o que você ganha com a presença, mesmo com a possibilidade de uma convivência curta.” 

A rotina de hospitais também aparece em A Coisa (2022), narrativa em que um homem passa a ser acompanhado o tempo todo por um ser assustador após receber notícias ruins em um consultório médico. Pouco a pouco, o protagonista percebe que não se separará mais daquela criatura peluda de olhos esbugalhados, então se vê forçado a aprender a conviver com ela. Da mesma forma, Orlandeli coexiste com a sua Coisa.

Orlandeli e uma edição de "A Coisa" (Lucas Orsini)
Orlandeli e uma edição de “A Coisa” (Lucas Orsini)

“Ela está sentada aqui. Ela fica de boa, mas quando você toca no assunto, ela vem. Chega devagarzinho e daqui a pouco pede um café. Muitas pessoas falam para mim e para minha esposa sobre ‘o que vocês passaram’, como se estivesse no passado. Mas continuamos a passar todos os dias. Na verdade, o que muda é a intensidade e o jeito que você olha para a situação. Difícil vai ser sempre, mas é importante juntar os pedaços.”  

Em uma das cenas mais memoráveis da HQ, o protagonista escala um terço gigante, na busca pelo amparo divino. “Em momentos assim, você reza até para o Mickey Mouse. A sensação que dá é que se você não rezar, está dando bobeira. Então eu rezava o tempo todo. Também fazia um ritual de intenções que consistia em fazer mil marcações em um caderno todos os dias, mentalizando, a cada risco feito, que Ian ia se curar. Mas com o tempo você entende que não é você que está no controle da situação. É como estar na sua poltrona assistindo a um jogo de futebol pela TV e pular para tentar defender o pênalti. As coisas não funcionam assim.”  

Relação com o humor 

Mesmo com o peso da perda, Orlandeli segue ágil e criativo nas piadas. Isso é perceptível para qualquer pessoa que tenha a oportunidade de conversar com ele por mais de dois minutos. Por outro lado, suas produções mais recentes se distanciam desse gênero. “Gosto muito dos meus trabalhos mais antigos, que são, basicamente, tiras de humor e comportamento. Mas é algo que já não tenho interesse em voltar a fazer. Eu não sou mais o mesmo cara que fez o Grump. Adoro o personagem e acho que ele representa bem uma época, mas a vida é um pouco mais complicada que isso.”  

Nos seus últimos trabalhos, inclusive, Orlandeli tem dialogado cada vez mais com obras literárias. “Li bastante Kafka, Dostoievski e Bukowski e, além de absorver os temas abordados por eles, a literatura tem me ensinado a não ter pressa. Ela tem um ritmo um pouco mais lento para contar as coisas, diferente dos quadrinhos, em que tudo é muito acelerado. Tenho me atentado mais à palavra e isso tem dado uma nova cadência ao meu trabalho.”  

Cenário atual 

Com 30 anos de carreira, Orlandeli ainda acompanha o trabalho de artistas que o inspiraram na juventude, mas também permanece atento aos novos talentos. “Muita gente tem surgido e me chamado a atenção, como o Caetano (do Téo & o Mini Mundo) e o Gabriel Dantas (do Bife de Unicórnio), ambos com um humor nonsense misturado com poesia. Também tem alguns artistas incríveis que estão na ativa há bastante tempo, mas que agora estão em evidência, como o Marcelo D’Salete e o Quintanilha.” 

“O Brasil vive um grande momento nos quadrinhos e cada vez mais tem construído sua identidade a partir de uma mistura de diversos estilos e técnicas, algo que considero maravilhoso. Há no HQ nacional um desenho espontâneo e despreocupado, capaz de abarcar uma mistura que vai do quadrinho dos Estados Unidos ao europeu, sem deixar de lado as influências do mangá.”  

Depois do café 

Ao fim da conversa, enquanto caminhamos ao caixa para pagar a conta, rimos ao relembrar o nosso malabarismo para descrever características básicas sobre o tipo de café que gostaríamos de pedir. Percebemos que, embora os dois trabalhem diretamente com as palavras, nem sempre é fácil encontrá-las.  

Já do lado de fora da cafeteria, improvisamos uma conversa por alguns minutos e nos despedimos, ambos decididos a pesquisar no Google sobre os diferentes métodos de extração.  

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros). É colaborador do Jornal Rascunho e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique, Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

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