O GOLPISMO COMO MÉTODO

O que esperar da Política Externa nas Eleições? – Parte 2

Discurso de Flávio Bolsonaro no CPAC indica alinhamento com EUA e Israel, reforça papel do Brasil como exportador de matérias-primas e reabre espaço para tensões institucionais no cenário eleitoral

O recente discurso do candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, em uma reunião da extrema direita na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), apontou os caminhos do projeto de política externa bolsonarista: o alinhamento aos EUA e a entrega de minerais críticos.

Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique, no último mês de setembro, analisei projetos de política externa dos possíveis candidatos à presidência da República. Após as articulações políticas mais recentes, alguns nomes foram descartados, como Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. Isso ocorreu, basicamente, em decorrência da decisão do clã Bolsonaro em apontar como sucessor o atual senador da República, Flávio Bolsonaro.

Desde que foi definido como candidato, Flávio, tem feito périplos com os aliados da extrema direita global. Aparece em eventos com Javier Milei e Nayib Bukele na América Latina, com Benjamin Netanyahu em Israel e em algumas viagens com conservadores nos EUA. A mensagem é muito clara: A política externa bolsonarista 2.0 deve girar em torno dos EUA, Israel e Argentina.

Um alinhamento com Trump sem mencionar seu nome

Os EUA de Donald Trump 2.0 com sua doutrina de segurança nacional são bem diretos sobre suas prioridades. A América Latina é vista como extensão de seu território, a partir de uma leitura da Doutrina Monroe do século XIX. Entre os tomadores de decisão americanos, o plano se chama “Grande América do Norte”, uma espécie de corredor que vai da Groelândia até o Caribe. Nesse projeto imperialista, os países vizinhos são fornecedores de matéria-prima – seja petróleo ou mineral crítico. O importante é ocupar o espaço e eliminar a influência chinesa na região.

Nesse contexto, surge a figura de Flávio Bolsonaro, utilizando uma campanha bem organizada nas redes sociais, que procura articular uma possível aliança com os EUA sem mencionar Trump. Na busca por parecer uma figura palatável para o centro político no Brasil, Flávio evita ser direto sobre o alinhamento com o presidente americano.

Por outro lado, é direto ao dizer que o Brasil tem um papel de fornecedor de minerais críticos aos EUA. Em seu projeto, não há tentativa de trazer uma industrialização dos minerais críticos em solo brasileiro. Pelo contrário, a ideia é ser somente um vendedor de matéria-prima barata. Não é muito diferente do papel que o Brasil já cumpre atualmente com o próprio EUA e China.

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Crédito: Lula Marques / Agência Brasil

O apoio a Israel e EUA nas guerras atuais

É possível prospectar que Flávio Bolsonaro deve mudar os eixos da política externa ao direcionar o apoio brasileiro em conflitos em curso no mundo. Se olharmos as declarações do então senador da República, é explícito seu apoio a Israel na ação contra o Hamas, em 2024. No próprio discurso feito no Senado Federal em 25 de junho de 2025, ele já criticava a posição brasileira com o Irã. Portanto, é plausível que, em uma eventual presidência, o filho de Bolsonaro tenda a responsabilizar o país persa pelos acontecimentos recentes.

Em relação a Ucrânia e Rússia, possivelmente haveria um apoio mais explícito ao lado ucraniano, valorizando o papel do ocidente. O engajamento só não será maior porque a Rússia é um dos principais fornecedores de fertilizantes para o agronegócio, o que dificulta um alinhamento maior. Porém, a depender do posicionamento de Trump, isso pode ser ajustado pelo filho de Bolsonaro.

O golpismo como método

Para fechar seu discurso no CPAC e demonstrar que suas raízes são bolsonaristas, Flávio Bolsonaro indicou que Donald Trump deve pressionar o Brasil para que haja eleições “transparentes e limpas”. Se observarmos com atenção esse discurso, mais uma vez “light”, percebe-se que vai na direção do que Eduardo Bolsonaro prometeu ainda durante o ano passado no caso do tarifaço: “é tudo ou nada”. Ou seja, ou eles vencem as eleições, ou os EUA não reconhecem a vitória de Lula.

Há sempre uma porta aberta para o golpismo, ainda que o bolsonarismo diga que existem mais pessoas moderadas, como o atual candidato à presidência. Com essa premissa, não há muito o que fazer, senão apoiar o projeto de política externa autônomo, independente e global de Lula da Silva. De um lado, alguém que conduz a política externa há mais de 12 anos, e com diversas iniciativas como o BRICS, a diversificação de parcerias, a priorização da América do Sul e a busca por uma reindustrialização nacional. De outro lado, um candidato que nunca conduziu uma política externa, com signos de submissão a Trump, a Israel e ao papel do Brasil como exportador de matérias-primas.

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Pós-Doutorando em Estudos Marítimos (PPGEM/EGN). Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel).  Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.

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