DO AGRO ÀS IGREJAS

Concentração midiática limita o debate de ideias e o acesso a informações

Poder midiático nas mãos de poucos fere o direito à comunicação e impõe ao país uma agenda alinhada aos interesses de grupos empresariais, políticos e religiosos

O Brasil bateu recorde de intoxicação por agrotóxicos em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil. Foram 9.729 casos registrados, o maior índice desde 2015, correspondendo a um aumento de 84% em uma década. A notícia pouco repercutiu na mídia comercial hegemônica, sendo destaque apenas em portais da mídia alternativa, como o Alma Preta. Ainda em 2025, o Congresso Nacional aprovou o PDL 3/2025, que restringe o direito de crianças vítimas de violência sexual ao aborto legal. Embora a mídia comercial tenha tratado do assunto, a cobertura episódica do tema, em geral, dá pouco espaço para mulheres se manifestarem, reforçando vieses moralizantes, como apontou Júlia Lanz, jornalista e integrante da equipe de incidência do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, no artigo Religião, desinformação e poder: guerra ao aborto legal. No caso do PDL 3, veículos da mídia religiosa, como a TV Canção Nova, católica, comemoraram a decisão do Congresso Nacional, dando voz à bancada cristã e ignorando os argumentos dos movimentos sociais, das mulheres ativistas e de políticos que classificaram a lei como o “PDL da Pedofilia”.

A cobertura enviesada de temas importantes para a garantia de direitos não é um acaso. Está diretamente relacionada à concentração da propriedade dos meios de comunicação no Brasil nas mãos de grupos que possuem fortes interesses econômicos, políticos e religiosos, como mostra o Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM-Brasil). Longe de enfrentar esse cenário, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nos últimos anos projetos de lei que contribuem para a concentração, ignorando uma pauta histórica dos movimentos sociais. Essas leis são formuladas por um Congresso Nacional formado por políticos com interesses diretos no tema: parlamentares donos de mídia, da bancada cristã e ligados ao agronegócio, entre outros.

Interesses econômico-midiáticos na cobertura dos temas ambientais

O noticiário que esconde os efeitos dos agrotóxicos no país não gera espanto quando sabemos da existência de uma série de relações de conglomerados de mídia com o agronegócio, como mostra o MOM-Brasil. Um dos exemplos mais evidentes e antigos é o do grupo Globo, cujos acionistas são também empresários do agro. Mas há outros, como o Grupo Bandeirantes, o Grupo Folha e o Grupo Mix de Comunicação, como mostrei no artigo feito em parceria com Camila Nobrega, Agronegócio e mídia brasileira: onde duas monoculturas se conectam.

Em 2025, com a COP 30 realizada no Brasil, a mídia brasileira associada ao agro ofereceu mais um exemplo de como utiliza concessões públicas de rádio e TV e espaços privilegiados no jornalismo impresso e digital na formulação de narrativas que favorecem interesses do capital. No artigo A Globo e o agro: um velho romance, Raquel Baster e Ramênia Vieira mostram como a emissora, semanas antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, começou a articular jornalismo, entretenimento e publicidade na construção de uma narrativa que retira do agronegócio a sua responsabilidade pela destruição ambiental e o apresenta como “símbolo de progresso, tradição e sustentabilidade”.

As autoras destacam ainda que, em agosto de 2025, menos de três meses antes da COP 30, a Globo foi homenageada no Congresso Brasileiro do Agronegócio “pela longa parceria” com o setor. Na reportagem sobre o evento veiculada pela emissora, o diretor-presidente da Globo, Paulo Marinho, afirmou que “o agro e a Globo compartilham a mesma vocação de cultivar e regenerar a terra todos os dias; essa afinidade se reflete na nossa história, há décadas celebramos nosso encontro com o agro em campanhas de muito sucesso e em conteúdos de entretenimento, jornalismo e esportes”. Esse conteúdo envolve novelas e minisséries, campanhas como “Agro é Pop” e a cobertura jornalística, sustentado pelo patrocínio de empresas do setor como Sadia, Friboi, Bayer e Bunge.

A cobertura da COP 30 na mídia brasileira ganhou reforços de empresas responsáveis por crimes socioambientais. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora Vale foi a maior patrocinadora da cobertura da imprensa tradicional sobre o evento, apoiando o jornalismo de oito veículos: os jornais O Globo e Valor Econômico e a rádio CBN, do Grupo Globo; a Folha de S.Paulo; o periódico regional O Liberal, do Pará; a revista Veja e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. Já a JBS, uma das maiores empresas da indústria da carne no mundo, patrocinou sete veículos: O Globo, Valor Econômico e CBN; Folha de S.Paulo; Estadão; Veja e Neofeed. Ao todo, o levantamento identificou 59 entidades patrocinadoras da cobertura da mídia sobre a COP 30 entre empresas privadas, multinacionais, governos, farmacêuticas, bancos, supermercados e ONGs.

Além do patrocínio direto à cobertura, ao longo do ano alguns grupos de mídia receberam verba corporativa para a realização de debates e formações para jornalistas. Mesmo que os patrocínios não interfiram diretamente no conteúdo das matérias publicadas, faz parte de uma estratégia das empresas de limparem suas imagens, o chamado greenwashing. Faz parte também da produção de uma narrativa desenvolvimentista que minimiza os impactos do capitalismo no meio ambiente e nos territórios dos povos e comunidades tradicionais. A construção dessa narrativa une corporações de mídia, grandes conglomerados e empresas do agronegócio, da mineração, de energia e o Estado, como mostrou a pesquisa Vozes Silenciadas Energias Renováveis: a cobertura da mídia sobre a transição energética no Brasil, do Intervozes.

Segundo Gave Cabral, membro do Intervozes e diretor da Abaré Escola de Jornalismo, a ação dessas megaempresas faz parte de uma dinâmica mais ampla, identificada como “obstrução climática”, que consiste em um esforço articulado de grandes corporações para confundir a opinião pública e retardar a tomada de decisões diante da crise ambiental. “Essa estratégia envolve mecanismos sofisticados, como a disseminação de desinformação, a cooptação do jornalismo comercial e ‘profissional’, a influência sobre movimentos sociais, além de práticas de violência política e lobby junto a governos. O objetivo central é consolidar, nos espaços midiáticos, uma narrativa única que produz uma falsa impressão de consenso. Considerando que, em muitos casos, o próprio governo atua alinhado a interesses empresariais, essa concentração reforça visões hegemônicas e limita o debate público”, afirma Cabral.

A Abaré acompanha de perto o caso da BR-319, no Amazonas, e concluiu que veículos que recebem recursos publicitários do governo estadual tendem a reproduzir predominantemente a posição oficial favorável à obra, enquanto silenciam vozes dissonantes, como comunidades locais, pesquisadores e movimentos sociais contrários ao projeto. “Dessa forma, observa-se a consolidação de um ecossistema informacional que limita a pluralidade de vozes e dificulta o enfrentamento qualificado da crise climática”, conclui.

Crédito: Intervozes

Religião, política e mídia

No caso da lei que dificulta o acesso ao aborto legal por crianças violentadas, outra pesquisa realizada pelo Intevozes, Vozes Silenciadas: o corpo é nosso, chama a atenção para como a propriedade de veículos de mídia por igrejas e lideranças religiosas impacta os direitos sexuais e reprodutivos. E o número de veículos religiosos tem crescido. O MOM-Brasil de 2017 indicava que nove dos 50 veículos de maior audiência no país eram de propriedade de lideranças religiosas cristãs, evangélicas e católicas. Mas a influência religiosa cresce também nas mídias regionais e comunitárias. Segundo Janaine Aires, professora da pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação (PEIC/UFRJ), quase 73% da televisão brasileira hoje (dados de 2025), está nas mãos de igrejas e lideranças religiosas.

Aires, uma das autoras do livro As 14 estações de Cristo (no prelo) ao lado de Suzy dos Santos, também aponta para uma mudança no paradigma de exploração religiosa da televisão: “Hoje muitas igrejas e lideranças religiosas estão se focando mais na internet e cresceu o número do que classificamos como emissoras multidenominacionais, que pertencem a uma igreja específica, mas que são arrendadas para outras”.

A pesquisadora também explica o aumento da concentração pela aliança de grupos religiosos com outros grupos da mídia corporativa. Entre os casos emblemáticos está o da Igreja Internacional da Graça de Deus, proprietária da RIT TV, emissora religiosa de alcance nacional. No Mato Grosso do Sul, além da RIT MS, geradora de rede, a igreja é proprietária tanto da afiliada do SBT quanto da Band (TV Guanandi). Esse tipo de arranjo produz efeitos no jornalismo local. “As matérias do jornalismo local da Band e do SBT acabam divulgando os milagres da igreja”, afirma a pesquisadora. Na mesma localidade, a Record TV, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), é de propriedade da família de Ivan Paes Barbosa, também empresário do agronegócio, que faleceu em abril deste ano. Barbosa fundou a Rede MS que reúne a TV MS, afiliada da Record TV, cinco rádios FM em Campo Grande, Corumbá, Bonito, Três Lagoas e Dourados, o canal AgroBrasil TV e o portal Diário Digital.

Para além da propriedade, Aires chama a atenção para a caracterização do que se entende como conteúdo religioso pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). “A Ancine entende como conteúdo religioso o conceito de igreja eletrônica, que seria basicamente a reprodução de cultos ou missas pelas TV. Eu acredito que essa definição esteja ultrapassada, porque ela não inclui, por exemplo, os telejornais que só falam do Papa ou transmitem as notícias a partir do ponto de vista da igreja. Também não inclui as novelas bíblicas ou os reality shows musicais gospel. Ou seja, a caracterização de conteúdo religioso da TV é subnotificada”.

Esse conteúdo, seja jornalístico ou de entretenimento, reflete, na opinião da pesquisadora, os interesses das igrejas, como no caso da Record TV, que frequentemente pauta temas caros ao partido Republicanos ou à IURD, como a série de ficção Conselho Tutelar, exibida na emissora de 2014 a 2018. A TV também ajuda a formar e disseminar a imagem de quadros políticos, em geral apresentadores de programas policiais que se tornam candidatos pelo Republicanos – o partido foi fundado em 2005 por pastores e seguidores da Igreja Universal.

Ainda no plano das relações entre religião e política, mídias religiosas têm pautado o interesse do bolsonarismo. O coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias tem acompanhado, entre outros casos, o do site de notícias Pleno News, pertencente ao Grupo MK de Comunicação, fundado pelo ex-senador Arolde de Oliveira, falecido em 2020, e hoje dirigido por sua filha, Marina de Oliveira. O grupo é dono da rádio 93 FM do Rio de Janeiro, da MK Editora, da gravadora MK Music e da empresa de gestão de canais do Youtube MK Network. Segundo Magali Cunha, editora-geral do Bereia, o Pleno News, como outros portais semelhantes, utiliza recursos que ajudam na difusão de seus conteúdos nas redes sociais e serviços de mensageria: publicam conteúdos curtos, de leitura rápida; repercutem falas polêmicas de políticos, lideranças religiosas e influenciadores digitais, dando um viés jornalístico mesmo a conteúdo sem relevância; disseminam conteúdo classificado como desinformação; e dão um tom religioso aos assuntos do momento.

“O Pleno News foi porta-voz do governo Bolsonaro e agora é do bolsonarismo e da oposição ao governo Lula. É porta-voz também da direita cristã, repercutindo falas de evangélicos da extrema-direita, como Marcos Feliciano e Silas Malafaia, e do catolicismo conservador”, explica Cunha. Além de temas comuns desde as eleições de 2018, como os que atacam os direitos sexuais e reprodutivos, entre os assuntos destacados no portal nos anos de 2025 e 2026 estão o do homeschooling, reforçando os projetos de lei sobre o tema no Congresso Nacional, e o da segurança pública. Este tema, assim como nos programas policialescos, é tratado a partir de um viés punitivista, afirma Magali, sobretudo após a Chacina do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, como também mostrei no artigo ‘Narcoterrorismo’: discurso da extrema direita global na mídia religiosa, escrito com Victor Merete.

Regulação atual favorece a concentração

O quadro de concentração da propriedade no Brasil na mão de grupos que usam uma atividade com finalidade pública para interesses pessoais segue se agravando, beneficiado pela ausência de um marco regulatório capaz de promover a pluralidade e a diversidade da mídia. Ao contrário, as legislações aprovadas nos últimos anos, inclusive nos governos de esquerda, continuam beneficiando o poder dos grandes conglomerados nacionais e regionais, como mostra Alex Hercog no artigo Políticas para a radiodifusão brasileira beneficiam oligopólios midiáticos e silenciam vozes dissonantes.

Em 2025, foi aprovada a Lei 15.182/2025, que promete modernizar a radiodifusão, promover a desburocratização administrativa e a acessibilidade por meio de legendas e audiodescrição. No entanto, na prática, na avaliação de Júlia Lanz, o que a lei faz é favorecer a concentração. “A lei tem o ponto positivo de tratar do problema da acessibilidade na mídia. No entanto, trata a comunicação como mera burocracia e não enfrenta a concentração, pois reduz a fiscalização e a transparência societária. Ela pode inclusive facilitar para os donos de mídia, porque permite a troca de proprietários sem obrigar uma comunicação ao governo, favorecendo políticos e seus laranjas, e até mesmo que rádios comunitárias caiam nas mãos de religiosos e políticos”.

Em anos eleitorais como 2026, os efeitos da existência de políticos donos de mídia tendem a se tornar mais evidentes. Embora o Artigo 54 da Constituição Federal proíba que deputados federais e senadores sejam proprietários de emissoras de rádio e TV, a cada pleito são identificados velhos e novos nomes de políticos que se projetam na vida pública usando a influência de meios de comunicação próprios, de apoiadores ou de familiares. No artigo Políticos Donos de Mídia violam a Constituição e fragilizam a democracia, Tâmara Terso apresenta levantamento do Intervozes que identificou, em 2022, 45 candidatos donos de mídia nas dez maiores cidades em número de habitantes de 14 estados brasileiros. Em 2024, o monitoramento produzido pelo Intervozes identificou 46 candidaturas de donos de mídia, distribuídos em 21 estados, durante as eleições municipais.

Um artigo da Lei 15.182 que permitiria uma renovação mais automática das concessões chegou a ser vetado pelo presidente Lula, mas o parágrafo que determina que licenças para o funcionamento das estações de rádio e TV possuem prazo indeterminado foi mantido. O projeto de lei que deu origem à norma (PL 2352/2023) é de autoria do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), radialista, jornalista e pastor ligado à Assembleia de Deus Ministério de Madureira, membro da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional.

No início de 2024, Lula já havia sancionado outra lei de interesse de empresários e de lideranças cristãs, como mostram Aline Braga e Iano Flávio Maia no artigo Nova lei articulada por elites empresariais e evangélicas aprofunda concentração. A Lei 14.812/2024 alterou o Decreto-Lei 236/1967 para ampliar o número máximo de outorgas dos serviços de televisão de dez para 20 por concessionário. A norma manteve em 20 o número de outorgas de rádio por grupo empresarial (sendo dez locais, seis regionais e quatro nacionais), mas eliminou as limitações de frequência e de localidade em ambos os casos, permitindo que uma mesma emissora ocupe até 20 canais de qualquer tipo na mesma região. O projeto que deu origem à lei (PL 07/2023) também é de autoria de um pastor evangélico, Marcos Pereira, presidente nacional do Partido Republicanos, bispo licenciado da IURD e ex-vice-presidente da Rede Record.

A pesquisa do PEIC/UFRJ identificou a pressão de grupos religiosos na aprovação de outra lei que beneficia a concentração, a Lei 14.408/2022, sancionada no governo de Jair Bolsonaro, que legalizou o arrendamento no Brasil ao determinar que “as concessionárias e permissionárias poderão transferir, comercializar ou ceder o tempo total de programação para a veiculação de produção independente”, deixando vago o conceito do que é “produção independente” e ultrapassando em muito o limite de 25% estipulado em normas anteriores.

Mas as leis beneficiam de formas diferentes cada grupo. Enquanto, como aponta Lanz, a lei que reduz a fiscalização e a transparência societária pode beneficiar sobretudo políticos donos de mídia, outros grupos, como os religiosos e mesmo os políticos que não têm nenhuma concessão, podem se beneficiar da lei que libera o arrendamento. Já a lei que aumenta para 20 o número de outorgas por grupo pode beneficiar grupos nacionais e regionais que têm a propriedade concentrada nas mãos de um indivíduo ou uma família, enquanto têm pouco efeito para conglomerados como os que estão nas mãos da Igreja Universal. “No caso da IURD, o patrimônio é dividido entre os líderes de acordo com a patente que eles têm, se são bispos, por exemplo. Eles dividem a porcentagem das propriedades e há um rodízio entre eles, de modo que essa regra que aumenta o número de outorgas por grupo não tem tanto efeito, porque a propriedade já é dividida, embora pertença ao mesmo grupo”, analisa Janaine Aires.

Ainda em 2025, outra mudança na radiodifusão foi anunciada pelo governo: a estreia da TV 3.0 na Copa do Mundo de 2026. Porém, antes de contribuir para resolver problemas históricos de concentração e promover a democratização da mídia, a TV 3.0 promete servir ao mercado e à lógica de consumo, como já apontava Gésio Passos no artigo TV 3.0 atende lobby privado e ignora propostas pró-democratização. O modelo escolhido é baseado na tecnologia estadunidense ATSC 3.0 e é uma oportunidade para as emissoras comerciais recuperarem as perdas publicitárias acumuladas com a internet, oferecendo anúncios segmentados e conteúdo personalizado. Os radiodifusores também pressionam o governo Lula para que libere 11 bilhões de reais do BNDES para que as emissoras migrem para a nova tecnologia.

Para Júlia Lanz, a escolha pela operação da TV 3.0 na lógica do consumo levanta preocupações sobre o uso dos dados pessoais e o oferecimento de publicidade segmentada por meio da exploração econômica desses dados, problemas que já são enfrentados no modelo de plataformas da internet. Janaine Aires concorda com a crítica: “A TV 3.0 é uma captura do projeto de digitalização da televisão, que era um projeto público, que envolveu pesquisa da universidade, por interesses privados. O processo de digitalização foi sequestrado pela Globo em seu processo de transformação em uma mediatech, modelo que acentua a concentração porque, na economia de redes, as outras emissoras não têm capacidade de concorrência, nenhum tem uma plataforma como a Globoplay. Sequestra também a discussão que a gente tinha de usar a TV digital para o exercício da cidadania – com as pessoas podendo votar através dela e ter acesso a serviços e informações públicas –, em favor da lógica do consumo”.

 

Olívia Bandeira é pós-doutoranda no Departamento de Antropologia do IFCH-Unicamp e integrante do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR) e do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

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