A contraofensiva econômica dos EUA na América Latina

Retórica anti-China

A contraofensiva econômica dos EUA na América Latina

Acervo Online | América Latina
por João Estevam dos Santos Filho
4 de dezembro de 2020
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O aumento da influência chinesa na América Latina, tanto por meio do aumento do comércio quanto de investimentos não tem passado despercebida pelas elites dirigentes dos EUA. Estas têm aumentado sua retórica anti-China, tanto por meio de pronunciamentos quanto por documentos de agências estatais. Mais do que isso, o governo norte-americano tem buscado reverter esse quadro através da criação de programas de investimento bilaterais e multilaterais na região, com vistas a recuperar sua influência econômica em sua zona de influência histórica

Desde meados dos anos 2000, a China vem ganhando uma maior proeminência no sistema econômico internacional. Por um lado, tem se configurado como o maior exportador de bens e serviços do mundo, alcançando o valor de US$ 2,6 trilhões em 2019, em sua maior parte produtos manufaturados, como aparelhos eletrônicos e máquinas. Por outro, essa expansão também tem sido verificada na área de investimentos, que alcançaram a marca de US$ 97,7 bilhões em 2019 – com perspectivas de aumento com a continuação da implementação da Nova Rota da Seda (One Belt, One Road, em inglês).

Atualmente, a China é o maior parceiro comercial da América do Sul, tanto em importações quanto exportações. Na América Latina e Caribe, em porcentagem do PIB, as importações vindas do país asiático cresceram de 1,8% para 3%, enquanto as exportações aumentaram de 1% para 2,6% entre 2008 e 2018, o que confirma a presença comercial chinesa na região desde a década passada. Além disso, o governo chinês assinou acordos de livre-comércio com Chile, Costa Rica e Peru e tem negociado um com o Panamá – todos países que possuem acordos desse tipo com os EUA. É importante ressaltar que a maior parte das exportações latino-americanas são compostas de bens primários, concentrados principalmente em quatro produtos: soja, petróleo, minérios de ferro e de cobre. Por outro lado, as exportações chinesas para os países da região são compostas sobretudo por bens industrializados – e, portanto, com maior valor agregado. Desse modo, os crescentes fluxos comerciais entre as economias latino-americanas e a chinesa têm perpetuado o padrão de assimetria e dependência externa existente desde o século XIX.

Moeda Chinesa
Moeda chinesa (Crédito Pixabay)

Também na área de investimentos os capitais chineses têm marcado forte presença na região, tanto com investimentos diretos – ou seja, compra de empresas e construção ou ampliação de instalações em outro país – quanto com empréstimos financeiros. Entre 2009 e 2019, o volume total de investimentos cresceu de US$ 2,5 bilhões para US$ 12,8 bilhões, tendo chegado a ultrapassar o volume de investimentos norte-americanos e europeus (as principais fontes de capitais para a região) em 2017. Atualmente as aquisições das empresas chinesas têm se concentrado principalmente nas áreas de extração mineral, agronegócio, setor elétrico e infraestrutura – enquanto os investimentos norte-americanos e europeus tem sido mais diversificados, focando em setores de maior tecnologia.

Por outro lado, os bancos chineses têm se consolidado como os principais emprestadores de recursos para os países latino-americanos, substituindo as principais instituições financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Essas instituições são peças centrais da arquitetura financeira internacional, criada no pós-Segunda Guerra Mundial pelos EUA (com apoio da Europa Ocidental) e reforçada nas décadas de 1980 e 1990, a fim de pressionar os países da região para aceitação de políticas neoliberais. Portanto, o declínio da influência dessas instituições nas políticas econômicas da América Latina – devido às maiores facilidades de acesso a capitais chineses – tem profundos impactos de longo prazo nas relações econômicas de poder a nível internacional, uma vez que produz uma diminuição da influência política das elites norte-americanas e das ligadas ao capital transnacional sobre os governos da região. Nesse sentido, além dos juros mais baixos, os empréstimos dos bancos chineses também impõem menos condicionamentos políticos para os países devedores.

Os principais receptores de empréstimos chineses na região são Venezuela, Brasil, Equador e Argentina, somando um total de US$ 137,1 bilhões e com a maior parte dos recursos indo para as áreas de energia e infraestrutura. Esses investimentos têm perspectivas de crescimento no médio e longo prazo, uma vez que alguns países latino-americanos e caribenhos serão incorporados na iniciativa da Nova Rota da Seda. Nesse sentido, desde 2017, 18 países da região já assinaram acordos de inclusão na iniciativa chinesa – apesar de as principais economias da região (Brasil, México, Colômbia e Argentina) ainda apresentarem relutância. Também é importante mencionar que, a fim de adiantar os diálogos com os governos da região, foi criado o Fórum China-CELAC em 2014, que tem se configurado como o principal espaço de articulação política e econômica do país do Leste Asiático com a América Latina e Caribe.

Mais do que meras transações econômicas, o aumento dos fluxos de comércio e de investimentos da China na região têm-se dado em um contexto de deslocamento do centro de poder no sistema internacional para o Leste Asiático. Esse deslocamento tem ocorrido tanto com o aumento das exportações de manufaturados chineses para outras regiões do mundo, quanto pela maior proeminência das instituições financeiras do país, como é o caso do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês) e do Banco de Exportação-Importação da China. Por sua vez, essa influência econômica também tem dado passo a uma maior presença política na região, com aumento nas vendas de armamentos e cooperação militar com países sul-americanos como Bolívia, Equador, Peru e Venezuela. Além disso, o governo chinês tem oferecido apoio político e militar à administração de Nicolás Maduro na atual crise venezuelana, tanto bilateralmente, quanto no âmbito multilateral.

Reações econômicas dos EUA

Entretanto, essa crescente presença econômica chinesa na região, não tem passado despercebida pelo governo norte-americano. Isso é notável com o crescente discurso anti-China adotado por membros da elite política estadunidense e por agências estatais com grande importância política na região Em 2018, o então secretário de Estado, Rex Tillerson, ressaltou a presença econômica chinesa como uma ameaça para a região. A projeção chinesa também foi enfatizada no documento da Estratégia do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM, na sigla em inglês), denominando tanto China quanto Rússia de “atores estatais malignos”, responsáveis por desestabilizar a América Latina e minar suas bases democráticas, inclusive pelo apoio a Venezuela, Cuba e Nicarágua. Além desses recursos retóricos, os EUA também vêm buscando contrapor-se economicamente à presença do país asiático na sua zona de influência, principalmente na área de investimentos.

Nesse sentido, em dezembro de 2019, o governo norte-americano criou a iniciativa América Cresce (Growth in the Americas, em inglês), um programa que busca promover investimentos privados estadunidenses na América Latina e Caribe, especialmente nas áreas de energia e infraestrutura – justamente as que são dominadas atualmente pelas empresas chinesas. Essa iniciativa tem abrangido oito países até o momento: Panamá, Chile, Jamaica, Argentina, Colômbia, El Salvador, Equador e Brasil. Segundo o governo dos EUA, os recursos dessa iniciativa podem chegar ao montante de  US$ 100 bilhões a US$ 150 bilhões vindos do setor privado. Para apoiar essa iniciativa, o governo estadunidense anunciou que iria expandir a Parceria de Conectividade Digital e Cibersegurança (DCCP, na sigla em inglês), inicialmente implementada na região do Indo-Pacífico, para a América Latina e Caribe, a fim de prover assistência técnica e construção de capacidade, facilitar a colaboração entre setores público e privado e apoiar financiamento para projetos no espaço econômico digital.

Ainda como parte dessa iniciativa, têm sido implementados projetos como: Iniciativa de Energia do Caribe, com investimentos nesse setor no Haiti, na República Dominicana e na Jamaica; financiamento para aumento da capacidade de uma usina de gás natural em El Salvador e investimento em petrolíferas na Argentina. Outros projetos foram da América Cresce também foram financiados pelo banco de desenvolvimento norte-americano, a Corporação Financeira dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (DFC, na sigla em inglês) como parte de um programa de investimentos para países em desenvolvimento. Dentes eles, constam financiamento para pequenos negócios no México e na Colômbia, recuperação econômica na Costa Rica, empresa de extração mineral no Brasil, apoio a fintechs colombianas, dentre outros.

Além disso, o DFC investiu US$ 984 milhões para servir de crédito a pequenas e médias empresas no Brasil. É importante mencionar que esses investimentos norte-americanos, apesar de virem de uma banco público, são destinados a empresas e instituições financeiras privadas – algo que é ressaltado como diferencial em relação aos recursos chineses, que provêm em sua maioria de bancos estatais. Por fim, em agosto deste ano foi criado um novo programa de investimentos para a Colômbia – o maior aliado regional dos EUA, sobretudo na área de segurança – chamado Colômbia Cresce. Essa iniciativa contará com um montante de US$ 5 bilhões, advindos do setor privado e destinados a projetos de infraestrutura e assistência técnica na zona rural colombiana, sobretudo em regiões antes dominadas pelo narcotráfico e pelos conflito armado.

Para além desses montantes de investimentos, o governo Trump também tem realizado ações políticas vistas a adotar medidas mais “agressivas” contra a presença chinesa na região. Nesse sentido, dois fatos se destacam: o primeiro é a pressão quanto ao leilão a nova frequência de celular conhecida como 5G, programado para março de 2021 e que conta como principais concorrentes a chinesa Huawei e outras empresas de telefonia que, embora não sejam norte-americanas, contam com apoio dos EUA. Nessa disputa, a administração de Donald Trump chegou até mesmo a prometer financiamento para a instalação de equipamentos dessas empresas. O outro evento foi a eleição de Mauricio Claver-Carone, um membro do governo norte-americano, para a presidência do BID, quebrando com a tradição que vem desde a inauguração da instituição de eleger um candidato latino-americano. Em entrevista antes da votação, ele enfatizou a falta de preocupação dos EUA quanto ao BID e aos investimentos na região no passado, afirmando que, por essa razão, a China tem preenchido esse espaço por meio de seus empréstimos.

Essas iniciativas por parte do governo norte-americano, apesar de contarem majoritariamente com capitais privados, vem demonstrando a articulação política entre as elites políticas e econômicas dos EUA para aumentar os fluxos de investimento na América Latina e no Caribe, a fim de contrapor-se à crescente influência chinesa. Apesar do aparente fofo econômico, essas ações demonstram preocupação do Estado norte-americano com um possível aumento da influência política e até militar do país asiático na sua zona de influência histórica, como aponta a Estratégia do SOUTHCOM, ressaltando os “perigos” que os investimentos chineses em infraestruturas críticas poderiam representar no caso de uma guerra entre China e EUA.

Também é interessante notar como a recente contraofensiva econômica norte-americana ainda é pautada pela Doutrina Monroe. O princípio de política externa expresso no corolário adotado pelo Estado norte-americano desde o século XIX (“América para os americanos”) demonstra a preocupação das elites políticas estadunidenses quanto à presença de potências extrarregionais – sobretudo aquelas que não são vistas como aliadas. Nesse sentido, a América Latina e o Caribe tem se configurado como mais um foco de tensão entre os dos países, tanto na área econômica, quanto na política.

Perspectivas futuras

Ao observar os discursos e as ações recentes do governo norte-americano, tem sido possível verificar uma intensificação do confronto econômico com a China, sobretudo no sentido de recuperar o espaço perdido em termos de investimentos diretos e de financiamento de projetos sobretudo nas áreas de infraestrutura e energia, que são dominados pelas empresas e bancos chineses. Além disso, há um temor crescente de que essa presença econômica possa levar a uma escalada da influência política, seja por meio de instituições regionais – como já parece dar mostras com o Fórum China-CELAC – ou de relações bilaterais – conforme tem sido visto, principalmente no caso venezuelano, que conta com apoio tanto do governo chinês quanto do russo.

Por sua vez, esses desenvolvimentos acabam levantando temores nas elites norte-americanas quanto à continuação da perda de influência sobre a América Latina. Quanto a essa questão, é preciso estar atento às ações do novo governo estadunidense, a partir de agora liderado por Joe Biden, quanto à presença chinesa na região. Por fim, é importante atentar ao fato de que o aumento dessa competição econômica – e eventualmente política – entre as duas grandes potências pode gerar oportunidades para os países latino-americanos, principalmente em termos de ofertas de investimentos baratos em áreas fundamentais para suas economia. Ao mesmo tempo, pode também produzir uma escalada dos conflitos regionais (como o venezuelano), resultando em maior instabilidade e insegurança para os países.

 

João Estevam dos Santos Filho é mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES).



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