A elite dirigente dos negócios - Le Monde Diplomatique

UMA CLASSE ALTA GLOBAL?

A elite dirigente dos negócios

por Michael Hartmann
2 de setembro de 2012
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Demissões em massa para uns, remunerações estratosféricas para outros: duplamente lucrativa para seus defensores, a globalização justifica ao mesmo tempo a concorrência que comprime os salários e os privilégios desfrutados por um jet-set apresentado como supranacionalMichael Hartmann

Durante a última entrevista antes de sua morte, o sociólogo liberal Ralf Dahrendorf surpreendeu ao afastar-se de sua teoria mais conhecida, a de uma elite globalizada – ou “classe global”, na terminologia anglo-saxônica – destinada a dominar o planeta para além das fronteiras e do pertencimento nacional. Ao ser perguntado se esta havia sobrevivido à crise financeira de 2008, Dahrendorf respondeu: “Ela está bastante dispersa neste momento”.1

Para muitos pesquisadores das ciências sociais, ensaístas e militantes, a existência dessa “classe global” – tanto louvada como denunciada – se impõe como uma evidência.2 Desde 1996, Jacques Attali sonhava com uma “revolução cultural” que favoreceria a emergência de uma “subclasse europeia”. “A aceitação do novo como boa notícia, da precariedade como valor, da instabilidade como urgência e da mestiçagem como riqueza” permitiria o desenvolvimento de “tribos nômades constantemente adaptáveis, liberadoras de energia e portadoras de solidariedades originais”.3

Em 2008, David Rothkopf, diretor da revista Foreign Policy, considerava acertada a visão de Attali. Não em escala europeia, mas planetária: uma “superclasse”, supranacional, composta de mais ou menos 6 mil indivíduos, teria, segundo ele, assentado a dominação sobre o mundo. Seus lugares preferidos? As grandes capitais, os grandes hotéis e os grandes fóruns do capitalismo internacional, dos quais o maior e mais importante seria o de Davos. A abertura de seu livro cita a reflexão do britânico Mark Malloch Brown, antigo vice-secretário-geral da ONU: “Quando circulamos pelos jantares e coquetéis de Davos, nos damos conta de que conhecemos mais gente nesse ambiente que quando passeamos pelos parques de nossas respectivas cidades”.4

Do lado dos grandes patrões, o mito do “criador de riquezas desenraizado” apresenta uma vantagem concreta: justifica as rendas exorbitantes de dirigentes empresariais cuja única alternativa à errância no coração da selva dos mercados seria a obtenção do salário mais alto. “Se não aceitamos a necessidade de remunerações mais elevadas, corremos o risco de perder os maiores talentos que temos dentro de nosso país”, alertava a presidente do Movimento das Empresas da França (Medef), Laurence Parisot, no dia 11 de março de 2008 em France Inter. Mais recentemente, o primeiro-ministro britânico David Cameron prometeu “estender o tapete vermelho” aos contribuintes franceses abastados, caso o governo de François Hollande resolva aumentar o imposto de renda progressivo sobre os mais ricos em 75%, conforme anunciado na campanha eleitoral.5

A elite globalizada são os quadros dirigentes de grandes multinacionais que teriam rompido os laços que prendem os mortais comuns às contingências da nacionalidade. Uma análise dos top managers da Alemanha, contudo, revela uma situação com mais contrastes. De um lado, o conselho de administração do Deutsche Bank é composto, pela primeira vez em sua história, de uma maioria de estrangeiros. Mas, por outro, o carro-chefe da indústria nacional, o grupo Bosch, é dirigido por um alemão que fez toda sua carreira no país.

Observada de uma escala mais ampla, surpreendentemente a “classe global” parece alérgica ao cosmopolitismo. Nos Estados Unidos, assim como em grandes potências econômicas asiáticas e europeias, as empresas mais importantes são, quase todas, dirigidas por locais. Em média, a proporção de dirigentes estrangeiros não ultrapassa os 5%, número que cai para 2% se descartados da tabela os altos executivos atuantes no mesmo espaço linguístico (e em geral cultural) que seu país de origem, como os suíços e os austríacos na Alemanha, ou os irlandeses, australianos, canadenses e sul-africanos no Reino Unido e nos Estados Unidos. Mesmo no seio das multinacionais mais influentes do mundo, a elite dirigente é recrutada “em casa”.

Certamente, é preciso guardar as respectivas proporções entre os países considerados. Na China e na Itália, nenhum estrangeiro chegou ao cargo máximo de uma grande empresa. O Japão e a Espanha são exceções, devido à fusão de um grupo local com um grupo estrangeiro ou à compra de um pelo outro. Na França, são apenas duas as multinacionais dirigidas por um estrangeiro; nos Estados Unidos, cinco; na Alemanha, nove; e no Reino Unido, dezoito. Ainda assim, esses números se reduzem muito se forem considerados apenas os dirigentes que foram trabalhar fora de seu espaço linguístico e cultural. Nesse caso, seriam apenas dois nos Estados Unidos, quatro na Alemanha e seis no Reino Unido. Sabendo que as empresas por eles dirigidas são quase todas binacionais, o cenário de uma grande vanguarda capitalista formada pela mestiçagem de elites econômicas não corresponde a nenhuma realidade.

Mesmo nos países menos inclinados ao nomadismo, como a Espanha e os Estados Unidos, um top managerem cada dez já trabalhou em outro país. Essa proporção vai para um a cada sete na China, um a cada cinco na França, no Reino Unido e na Itália, e um a cada três na Alemanha e no Japão. Trata-se de um fenômeno significativo, mas minoritário. E o rejuvenescimento das elites empresariais não traz qualquer evolução notável nesse sentido: os jovens quadros expatriados raramente se mantêm no posto fora do país por mais de dois anos, o que não favorece a familiarização com outra cultura. A atual geração seria ainda menos transnacional que as mais antigas. A França registra, hoje, uma baixa nas expatriações profissionais: enquanto um quarto dos presidentes diretores-gerais (PDGs) contratados possuem alguma experiência fora do país, apenas um décimo de seus cadetes apresentam essa característica.

Uma abertura relativa

O enraizamento nacional dos quadros dirigentes se explica facilmente por seus currículos, testemunhos da persistência dos sistemas de carreira tradicionais. A fidelidade à empresa ainda é uma das situações mais comuns. No Japão, nove PDGs a cada dez fizeram toda a carreira na empresa que dirigem. Na Alemanha, Itália e Espanha, quase a metade dos grandes patrões chegaram ao poder após ter galgado a hierarquia interna. Se essa proporção cai para 20% na França e na China, é por um particularismo cultural: nesses países, é desejável que os membros da elite diplomada iniciem a vida profissional na função pública – seja no governo ou na administração – antes de ocupar um cargo lucrativo no topo de uma grande empresa. Essa prática também é conhecida na Espanha, onde um PDG a cada quatro saiu do setor público para o privado, mas praticamente não conheceu qualquer outro trabalho no mundo industrializado.

O acesso às funções elevadas do sistema econômico depende estreitamente das estruturas locais de formação e de reprodução das elites, assim como do papel desempenhado pelo Estado. A França e o Reino Unido, por exemplo, compartilham a característica de privilegiar os candidatos formados por estabelecimentos de ensino reputados, como a Escola Nacional de Administração (ENA) e a Escola Politécnica, no caso do primeiro, e das universidades de Eton, Oxford e Cambridge, no caso do segundo. Nesse sentido, esses países se distinguem de seus vizinhos europeus, como a Alemanha, a Espanha ou a Itália, onde esse tipo de instituição não existe. Mas também diferem entre si em um ponto essencial: enquanto na França as transferências do setor público para o setor privado são moeda corrente, no Reino Unido são quase inexistentes.

Essas disparidades nos sistemas de ensino, de recrutamento e promoção individual constituem, evidentemente, um obstáculo maior à internacionalização das elites.6 Soma-se a esse fator o fato de os diplomas obtidos em um país muitas vezes perderem status fora de suas fronteiras. Estudar na ENA abre mais portas na França que nos Estados Unidos, da mesma forma que um mestrado em Todai impressiona mais em Tóquio que em Paris. Essa desvalorização não poupa nem mesmo Oxford ou Cambridge, e até os diplomas mais cobiçados das grandes universidades norte-americanas têm um papel menor nas carreiras administrativas europeias e asiáticas.

A pouca mobilidade geográfica dos grandes patrões dobra em imobilidade no escalão inferior. O caso da Alemanha é um bom exemplo. Entre os cerca de quatrocentos presidentes de conselhos de administração e supervisão das duzentas maiores empresas alemãs, apenas 29 são oriundos de países estrangeiros, ou seja, 7% do total. E essa expatriação não é sinônimo de grandes deslocamentos: dois terços deles vêm da Áustria, Suíça, Dinamarca ou dos Países Baixos. Se considerado o terceiro escalão da hierarquia, constata-se que os diretores das maiores empresas alemãs contam com apenas entre 1% e 6% de estrangeiros – dos quais cerca da metade são suíços e austríacos.7

A constatação se impõe: a “classe global”, com o sentido conferido por seus teóricos – espécie de aristocracia apátrida que governaria o mundo entre dois voos –, não existe. O mais próximo disso seriam os membros externos dos conselhos de supervisão, móveis por definição e formados por uma rede transnacional digna desse termo. Contudo, esses conselheiros não possuem qualquer incidência sobre os PDGs ou outros dirigentes, que permanecem solidamente atados ao território onde a empresa está sediada e constroem sua carreira em função das estratégias ditadas localmente. O imperativo de mobilidade e de “abertura ao mundo” tão proclamado pelos meios patronais vale para seus assalariados, não para eles mesmos. Porém, as redes formadas pelos membros externos desses conselhos se restringem quase exclusivamente à Europa anglo-saxônica e aos Estados Unidos. Os países da Europa meridional, o Japão e a Coreia do Sul ocupam um lugar quase insignificante nesse cenário, assim como a China, o Brasil, a Índia ou a Rússia.

Contrariamente ao que se poderia supor, o reequilíbrio da economia mundial em benefício das potências emergentes e os problemas resultantes dessa nova dinâmica constituem um entrave suplementar à aparição de uma “classe global”, porque os empreendedores desses países estão preocupados, antes, em consolidar suas posições no próprio território. Também nesse caso o Estado desempenha um papel crucial, inerente a todo processo de industrialização: forjar as elites nacionais e criar as condições favoráveis para sua prosperidade. O slogan “elites cosmopolitas, povo local”8 agrada os ouvidos dos homens de negócios, mas não tem qualquer correspondência com a realidade.

BOX:

Este artigo baseia-se numa pesquisa empírica dedicada às trajetórias profissionais dos altos dirigentes corporativos (presidente do conselho de administração, PDG, presidentes etc.) nas cinco principais potências europeias (Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha) e nos três países mais ricos fora da Europa (China, Japão e Estados Unidos) – um conjunto geográfico que reúne três quartos das quinhentas maiores empresas do mundo. Os resultados quantitativos são detalhadamente apresentados em “Internationalisation et spécificités nationales des élites économiques” [Internacionalização e especificidades nacionais das elites econômicas], Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.190, Paris, dez. 2011.

Michael Hartmann é sociólogo da Universidade de Darmstadt.



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